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A “iTunização” da política

Resolvi republicar aqui os artigos que escrevi para a Galileu no ano passado. Este, publicado no dia 22 de junho de 2013, continua absolutamente no ponto.

E, claro, não deixe de curtir o site da Galileu. Vai lá.

A “iTunização” da política

Centenas de milhares de pessoas foram às ruas protestar pacificamente, enquanto grupos isolados tentaram invadir sedes de governos. As passeatas viraram um fenômeno midiático gigantesco, com os canais de TV transmitindo ao vivo a partir de dezenas de cidades ao mesmo tempo. Todo mundo compartilhando comentários, opiniões, informações e reportagens.

As hashtags tomaram as timelines, mas não existe uma que se sobressaia. As reclamações muitas vezes contraditórias de grupos heterogêneos indicam estarmos diante de um novo tipo de movimento social. Os políticos, formados em outro momento, com outras regras, não sabem exatamente o que fazer. Como agir? Como se faz política na era das interfaces digitais, redes sociais e a internet quase onipresente?

A palavra DISRUPÇÃO é usada o tempo todo para mostrar como a internet e, por conta dela, as redes sociais, estão afetando diversos segmentos de negócios. Escala, conexão, interatividade, proximidade mudaram o jogo em tantas frentes e por que não mudariam na nossa forma de ver e fazer política? (a ex-senadora Marina Silva escreveu um bom artigo sobre isso na Folha de São Paulo) Redes sociais, lojas virtuais, conteúdo on demand. Tudo isso junto criou uma multidão de pessoas que não aceita mais estruturas prontas. Quer ter tudo personalizado, inclusive suas plataformas políticas.

A distribuição com escala infinita foi a parte mais visível que começou anos atrás. Mas nós precisamos de alguns anos expostos às redes sociais, conectados pela internet para desenvolvemos esse novo formato de movimento social.

Primeiro conecte as pessoas. Aí, no espaço de alguns anos, elas conversam, interagem e vão sacando que não estão sozinhas, que seus ódios, seus medos e suas chateações são compartilhados.

A interface nos muda. Passamos, com todos esses recursos, a fazer associações que antes não conseguíamos. Antes, para praticar política, as pessoas TINHAM que se organizar em grupos muito bem definidos, fazer encontros semanais, mensais na salinha do comitê de um partido. Tinham que adotar bandeiras muito claras, plataformas. E dali, muitas vezes não concordavam com todos os pontos, mas aceitavam engolir questões menores pelo bem da plataforma desse ou daquele partido político.

Não precisam mais. Se a internet e a era do MP3 fizeram os álbuns se fragmentaram em músicas compradas isoladamente, a política se reorganizou e saiu do modelo de plataformas políticas (os “álbuns”) para uma “snack culture” de questões que vão sendo escolhidas, clicadas, curtidas, twitadas. Você monta a sua plataforma personalizada como se fosse sua playlist num iPod. E o que deixa todo mundo confuso é que, nessa nova configuração, ela é única, com diversos pontos de contato aqui e ali. As combinações possíveis se tornaram imprevisíveis. E as possibilidades de encontro e de conflito, também.

Estamos falando de uma espécie de “iTunização da política”. A idéia de lojas de conteúdo distribuído digitalmente, onde você compra músicas, fimes, apps, livros em tempo real é muito poderosa. É como se essas lojas virtuais tivessem nos treinado para usar essa mesma lógica em tudo mais.

Deve haver muita gente convicta de que isso é ruim, resultado de alienação e coisa e tal. Mas não é tão simples. E ainda está muito cedo para avaliar os efeitos reais. Não é comprovadamente bom nem ruim. Mas não há muito que fazer, não há como voltar atrás.

Essa “iTunização da política” populariza as causas e as questões e as faz terem apoio fragmentado. No novo contexto, o Facebook se coloca como um “buffet de causas”. A política sai das mãos dos profissionais e é levada para um grupo novo, muito mais amplo. Só que estamos todos ainda descobrindo como processar tantas novidades. Precisaremos ainda de uns bons anos para entender isso tudo. As mudanças estão acontecendo enquanto falamos delas.

Antes, como você acharia uma pessoa que apóia, por exemplo, tal “causa animal” e outra que seja favor da união civil entre pessoas do mesmo sexo? Ou você procura um lugar que apóie tudo, ou seria obrigado a procurar grupos diferentes com um “custo” cognitivo altíssimo para administrar essas questões e relações.

Com nossas relações agora mediadas por painéis de controle e timelines do Facebook e do Twitter, o jogo mudou. O “custo” de fazer essas conexões e controlar o seu acesso a essas questões baixou muito. Logo, qualquer pessoa é capaz de formar a colcha de retalhos da sua opinião pessoal.

É difícil para quem está acostumado com as estruturas clássicas entender isso. E é essa falta de entendimento que está gerando uma enorme perplexidade e confusão nas cabeças tanto dos cidadãos comuns quanto dos políticos. Quem milita do jeito tradicional, tem dificuldades para reconhecer a legitimidade dessas manifestações fragmentadas.
Daí surgem conflitos em torno de uma definição mais restrita do que seria um militante de verdade e o que estaria ali só fazendo pose. Enquanto pessoas se definem como apolíticas e apartidárias com orgulho, outras usam os mesmos termos com desprezo. Depois de lutar pelo direito de se manifestar, as pessoas acabam se contradizendo e criando padrões bem restritos do que elas acham que constitui um manifestante legítimo.

Sem uma pauta definida, clara, os governantes ficam confusos sobre a respeito do que deveriam discutir. Sem líderes claros, organizados do jeito usual, em partidos ou comissões e comitês, não há com quem negociar.

Talvez o ideal seja eleger quais são as questões que recebem mais suporte (os Top Downloads, já que eu estou fazendo a comparação com lojas de conteúdo digital) e transformar a soma desses itens em uma plataforma a ser negociada. Claro, o problema seguinte seria negociar com quem.

Você acha tudo isso uma bobagem? Acredita na “iTunização”? Acha boa ou ruim essa nova ordem descentralizada? Opine nos comentários.

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