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Um mentecapto que virou um falso herói

Derren Brown é um mágico britânico que ficou famoso ao produzir programas de TV que giram em torno de técnicas centenárias e mentalismo com os twists das novas tecnologias e buzzwords da ciência.

Ele continua sendo um mágico, um mentiroso profissional. Mas faz isso com uma habilidade admirável. NO entanto, alguém que trabalha primordialmente com a surpresa, com a idéia de pegar sua platéia despreparada, vai tendo mais e mais problemas para se superar a cada especial de TV. NO início, ele capturou a imaginação dos ingleses ao mostrar pessoas sendo dominadas por supostas técnicas de hipnotismo e programação neurolinguística.

Usando a bandeira do ceticismo, ele fez alguns especiais memoráveis sobre poderes extra-sensoriais (o fantástico Messiah) e sobre o mito da sorte (The System). Algumas idéias eram exageradas demais e o resultado ficava aquém do esperado, como quando ele resolve fazer uma séance ou a da roleta russa.

No ano passado, ele fez quatro especiais com resultados também irregulares. No primeiro, prometia acertar os números da loteria. No último, acertar o resultado de uma roleta em um cassino de verdade. “Acertou” os números, mas falhou feio na roleta.

Esta semana, resolveu sair do terreno do ceticismo, deixar de lado a mágica e brincar com algo muito caro a uma nação em profunda crise econômica e de autoestima, como a Inglaterra. O que faz de uma pessoa comum um herói? Talvez tenha sido o pior especial especial de Derren Brown até agora.

A proposta era pegar uma pessoa absolutamente comum, com todos os seus medos e sonhos desfeitos, e transformá-la em alguém capaz de feitos heróicos em um mês. Como ele faria isso? Manipulando a vida dessa pessoa por meio de eventos controlados que a fariam, passo a passo, ganhar a coragem necessária de se levantar em momentos de crise e fazer a diferença.

A idéia de que Brown é capaz de manipular a mente dos seus espectadores é parte integrante do “personagem” de Derren Brown. Se um mágico é um ator fazendo o papel de um mágico, esse é o papel de Brown. Um homem capaz de usar seus conhecimentos superiores (o que quer que isso signifique) para manipular a mente dos meros mortais que não sabem o que ele sabe.

O protagonista é um rapaz que tinha o sonho de ser policial, mas acabou como atendendente de telemarketing de uma companhia de seguros. Brown quer que ele encare a vida de frente, lute contra seus medos e comece a mudar de vida. Mas o rapaz, Matt, é um mentecapto. Vai na casa de um homem devolver sua carteira e, quando vê que não há ninguém lá, resolve entrar, abrir sua geladeira, ver sua TV. Ridículo. Depois, ele ajuda um motorista que estava para fazer a entrega de itens de uma festa. O motorista quer ser chef de cozinha e Matt, nosso herói estúpido, o convence a tentar. O homem vai embora e larga o furgão, com tudo que há dentro, nas mãos de Matt. O rapaz, em vez de ligar para a empresa e avisar o que aconteceu (dentro da realidade do programa, supostamente haveria uma pessoa em algum lugar esperando o que há naquele furgão), resolve dar uma festa pros vizinhos. Pelo jeito, heróis não precisam ser honestos, nem se preocupar com as consequências do que fazem. Como é que esse negócio foi ao ar?

A premissa do programa, associada ao perfil de Brown, poderia resultar em algo incrível, mas a implementação, num filme, já seria bizarra. Num reality show, soou falsa e sem sentido, piorando muito com a escolha de um idiota como matriz de toda a ação. Como eu disse, Brown brilha quando age como um cético. Quando mostrou que não existe formula mágica para nada e que tudo tem que ser o resultado de trabalho duro, mesmo que fosse a tentativa de ganhar na loteria.

Aqui, ele reduz todas as sua idéias a um conceito bobo e superficial de heroísmo sintetizado no ato de pilotar um avião (apesar da fobia de voar) e salvar 100 pessoas, a meta final do limitado Matt. Uma nação em crise precisa de gente que acredite no futuro e que esteja disposta a trabalhar duro e ir atrás de seus anseios. O programa de Brown, com um protagonista mentecapto e sem nenhum valor digno de nota, vende barato uma grande idéia e subestima a audiência, coisa que Brown sempre acertou ao evitar.