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Era só um cachorro

Esta semana fará cinco meses que eu perdi o Darwin. Como eu postei muito pouco aqui no último ano, o que eu vivi com ele está apenas alguns posts abaixo.

O fato é que eu segui em frente, como a vida deve ser. O mundo está tomado de dramas e tragédias enormes. As pessoas morrem todos os dias. Porque diabos eu deveria gastar alguns minutos lembrando de um cachorro que se foi cinco meses, um ano, dez anos atrás?

Mas eu lembro. Todos os dias. Olho pro Nano, lembro do Sagan. Olho pro Astro, lembro do Darwin. Dane-se. Olho pra qualquer um deles e lembro dos dois. No outro dia conversei com um amigo que me contou, em detalhes, como ele desceu a serra com o cachorro doente no banco do carona para tentar salvá-lo… 20 anos atrás.

O mundo está cheio de dramas mais importantes do que o nosso no grande plano das coisas. Mas os pequenos dramas pessoais são os nossos grandes dramas. Não vejo problema nisso, desde que eu não me torne um idiota autocentrado incapaz de entender a escala das coisas. Eram só cachorros. Sagan. Darwin.

Mas eles viviam conosco. Eles dormiam com a gente. Eles viajavam, pediam, sofriam e brincavam. E tinham personalidades que ficam ainda mais evidentes quando a gente olha pro Nano e pro Astro.

Eram nosso cachorros, nosso amigos e roommates. Sinto falta, muita falta. Confesso que tinha medo de esquecê-los. E, em alguns momentos, me assusta que o rostinho deles fique meio difuso na minha memória. Só que, pra minha felicidade, descobri que, embora tenha começado novas histórias incríveis com o Nano e o Astro o que vivemos com o Sagan e o Darwin foi único. Nunca vou esquecer. Nem em 20 anos.

Me ensine mais uma coisa, Darwin

Meu drama não é maior do que o de ninguém. Aliás, para algumas pessoas, é coisa de uma drama queen. Mas é o drama que me cabe nesse momento, é a minha vida. Meu cachorro está morrendo. Um dia depois do outro. Eu percebo isso e, às vezes, acho que ele também.

Mas ele mantém a dignidade. Continua doce, continua atento, só ficou um pouco mais caprichoso na hora de comer e mais desanimado com qualquer coisa que não seja ir para a rua passear.

Ele brinca com o “irmão” recém chegado, o maltesinho Nano. É de uma delicadeza comovente. Principalmente se a gente se toca de que a maltesa (Sophia Loren) toda hora machuca o Nano nas brincadeiras, enquanto o Darwin jamais arrancou um grito que fosse. Chega a ser especialmente engraçado ver o maltês praticamente dentro da boca do labrador. Mas Darwin sempre foi assim mesmo, de uma doçura à toda prova.

Nos últimos meses, a cada derrota, cada vez que algo que tentamos falhou, eu fui ficando mais humilde. Fui lembrado da nossa impotência e, na fase de barganha, comecei a ter sentimentos horríveis em que relativizei o destino ingrato do meu cachorro. Podia ser pior, tentei acreditar.

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O cachorrinho perneta num mundo sem noção

Ter um cachorro de três pernas é uma atração à parte, ao que parece. Nos passeios de todas as noites, eu sou parado o tempo todo com pedidos de explicações sobre o motivo da falta da perna do meu cachorro.

Contexto, contexto. As semanas de recuperação foram legais. O Darwin foi ficando mais forte a cada dia, o paladar voltou. Eu comecei a ter esperanças de que o pior estava para trás e que tínhamos pela frente alguns meses de tranquilidade. Até que, na semana passada, numa das trocas de curativo, eu notei uma bolinha vermelha na cicatriz da cirurgia. Fiquei assustado, mas podia ser só uma bolhinha por conta do esparadrapo. Sabe-se lá.

Era o tumor de volta. Claro. O que mais? Até aqui, sempre que algo pode dar errado. Bem. Dá. Não foi diferente. Entrei em agonia. Fiquei desolado. Eu estava começando a ver a vida voltar ao normal.

Nessas semanas de recuperação, eu ia respondendo às perguntas com uma versão resumida da história do tumor, da amputação etc. E sempre terminava com uma nota de esperança. Mudei meu discurso. Agora eu não me permito mais viver em negação. Eu preciso aceitar que o tempo está contra nós.

Então, em vez de maquiar a situação eu simplesmente conto a história e termino com “É, mas o tumor voltou”. É isso. Aceite o destino estúpido. Tudo agora se resume a levar a briga para outro campo. Ganhar tempo, lutar por qualidade de vida e conforto pro meu pretinho. Então, meu discurso é pra mim também. Me ajuda a aceitar o que vem pela frente. Me ajuda a organizar minha cabeça, minhas expectativas e a colocar as coisas em perspectiva. Realidade.

Hoje, fui passear com o Darwin nos arredores e cruzei com várias pessoas que iam me perguntando, de novo e de novo, o que houve. Uma delas, um motorista de ônibus esperando começar sua próxima viagem, me parou e perguntou porque o Darwin “estava aleijado”.

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Darwin: As pequenas vitórias diante das grandes derrotas

As últimas semanas têm sido de mais derrotas do que vitórias.

Duas sessões de quimioterapia enfraqueceram o Darwin e, embora tenham aparentemente evitado que aparecessem metástases, não funcionaram contra uma recidiva na pata direita, a mesma em que o dedo foi amputado.

Ele parou de comer, nos obrigando a ser criativos para mantê-lo nutrido: salsichas de frango, peru e o que fosse aparecendo, carne, frango, rações moles de vários sabores e papinha de neném forma algumas das estratégias.

Darwin foi ficando fraquinho e perdendo o interesse pelos passeios. Logo depois da segunda sessão de quimio, parou de usar a pata dianteira direita. A perna foi acometida de uma flebite e ficou ameaçada de amputação. Afinal tinha um novo tumor e um grave problema circulatório.

Na tentativa de salvar a perna, foi entupido de medicamentos e injeções, três sessões de compressas quentes e frias todos os dias. Nada parecia dar resultado. Ele foi perdendo as forças e começou a chorar de noite com dores. Tivemos que dopá-lo e começaram as crises de incontinência por causa das drogas. Ele começou a dormir com a gente na cama.

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