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A cadelinha que foi à luta


(ao clicar na imagem acima, você vai ser redirecionado para o vídeo contando a história da Lilica)

HIstória sensacional. Mas eu contaria de um jeito diferente.

Faça o seguinte, assista ao vídeo e, depois, rearranje os fatos:

1. Mulher  adora animais e se dedica a cuidar e alimentar bichos desgarrados
2. Ela conhece uma cadelinha que aparece sempre no mesmo lugar, no mesmo horário. Aquilo vira um compromisso para elas.
3. Todo dia ela faz tudo sempre igual. Ela nota que a cadela vem, come e tenta levar o resto da comida embora. Mas ela se enrola com o saco plástico. A tal moça ajeita o plástico e a cadela vai embora com o pacote. Todos os dias.
4. Um dia, a moça resolve seguir a cadela. Medo. Para que inferno ela pode estar indo?
5. Ela faz um longo percurso com o saquinho na boca, atravessa rua, estrada, passa por trilha no mato e termina num ferro-velho.
6. Lá, deposita seu pacote e os outros animais do ferro velho passam a ter o que comer. Todos os dias.
7. Ali ela conhece a dona do ferro-velho e as duas iniciam uma amizade.
8. Agora é hora de explicar porque a cadelinha resolveu sair por aí em busca de comida.

Pode chorar no final.

Tchulla: 1992-2008

Tchulla

Eu sempre quis ter um cachorro quando era criança e minha mãe não autorizava. Cresci conformado até que, um dia, minha irmã apareceu com uma yorkshire já adulta lá em casa. O namorado de uma amiga tinha dado pra ela, a mãe da moça não quis a bichinha e a Anna resgatou pra nós. O nome era Tchulla.

Levamos no veterinário. Ela tinha por volta de quatro anos (isso significa que não sabemos a idade dela ao certo) e muito tártaro, otite, sarna, mais uma cicatriz de uma cirurgia. Talvez uma hérnia. Sabe-se lá o que foi. Adotamos a Tchulla e ela, no início, contava como cadelinha da Anna. Passou dias sem latir nem comer direito. Lembro dos primeiros passeios em que eu deixava ela me levar. Deixava ela me dizer a hora de parar. Eu tinha a sensação de que ela tinha passado por poucas e boas e merecia um desconto.

Nos primeiros dias, minha mãe, obcecada por limpeza, não queria a cadela passando da cozinha. Medo de ver xixi no carpete. Medo de ver cocô também, claro. Em poucos meses, Tchulla estava na casa toda. Em algum tempo mais, dormia com a minha mãe.

A história é típica. Um dia, eu fui embora pra São Paulo, minha irmã foi embora pro Canadá. Minha mãe ficou com a Tchulla e as duas foram ficando mais e mais ligadas. No meio do caminho, a Tchulla escolheu sua nova dona. Quando a Anna voltou e podia ter levado a Tchulla pra morar com ela e o Cris, já não fazia mais sentido. A dona dela era a minha mãe.

A Tchulla, com tantos anos, tem um monte de pequenas e grandes histórias. Um dia, quando eu já não morava mais lá, a Tchulla montou guarda na frente do banheiro de empregada por horas até minha mãe ficar intrigada. Quando o marido dela foi investigar e mexer ali, um rato apareceu e a foi a Tchulla que o espantou e o fez pular pela janela do segundo andar. Bizarro. Sabe-se lá como, um rato entrou no apartamento da minha mãe. Eu morei lá por 20 anos e nunca vi um nem de perto. Depois daquele dia, nunca mais se viu outro. Fiquei pensando se a Tchulla não tinha tramado aquilo para ficar bem com a família.

Tchulla se revelou também uma boa leitora de caráter. Um suposto amigo meu era sempre recebido com terríveis latidos pela Tchulla, que geralmente era tranquila com outras pessoas. Anos depois, ele se revelou um tremendo babaca com quem já não falo por quase uma década.

Ela e Sagan, meu maltesinho, tinham uma relação deliciosa. Foi Tchulla, aos 10, 11 anos, que tirou a virgindade dele. Deu uma de Mrs. Robinson. Ficamos com medo de que a Tchulla inventasse uma gravidez tardia. Mas aquele ato de luxúria acabou não rendendo frutos.

Tchullinha sempre foi carinhosa. E foi doloroso vê-la emagrecer, perder todos os dentes, ficar com o pelo mais ralinho e rouquinha com o passar dos anos. Um dia, descobrimos uns tumores. Ela passou por uma cirurgia, extraiu os focos e nunca mais teve nada. Estava velhinha, bem debilitada pela idade, mas saudável. Até que entrou em colapso de uma semana pra cá.

Aí, foi a minha mãe que começou a me preocupar. Minha mãe já teve um infarto. Hoje, tem 63 anos. Eu me vi tentando deixar ela mais segura de que a eutanásia seria uma opção viável. Tchulla estava com, acreditamos, 16 anos. Mal conseguia andar. Estava cega, surda e nitidamente gagázinha. Começou a ter episódios noturnos em que gritava desesperada e depois ficava prostrada. Teve convulsões. Estava fraca e, os exames constataram, com uma infecção. Era a hora de abreviar o sofrimento dela e de proteger a minha mãe também. Eu falei com ela por telefone, pedi que ela levasse a Tchulla para fazer eutanásia. Desliguei e meus olhos encheram de lágrimas. Pensei em como tinha sido fácil dizer aquilo de longe. Eu em São Paulo, num shopping, ela sofrendo com a Tchullinha no Rio. E um monte de coisas passou pela minha cabeça.

Ontem, minha irmã levou a Tchulla ao veterniário. Ele procurou a veia, fez ela dormir. Depois, uma droga para parar o coração. Foi rápido.

Peço desculpas por soar piegas. Mas não consigo me controlar. Eu fico lembrando de novo e de novo daqueles primeiros dias quando ela nem latia ainda, de tão desconfiada e assustada. Quando eu peguei cada grão da ração e fui dando pra ela. E ela comia devagar, com uma mistura de medo e cautela. Tímida. Aquela primeira refeição dela foi mágica pra mim.

Eu não a via havia meses. E não vou vê-la nunca mais. Achei essa foto legal que eu tirei dela muito tempo atrás. Eu tinha, junto com meu cunhado, uma livraria num prédio comercial. Lá no térreo, abriram uma pet shop. Um dia qualquer, eu tirei essa foto dela. Tinha uma luz de meio de tarde, ela estava linda, tranquila. Quero que essa seja a foto oficial da minha primeira amiga canina de verdade. A que me ensinou a realmente amar os cachorros pelas suas virtudes enormes, claro. Mas também pelas suas deliciosas imperfeições. Ela foi a primeira em tudo. E, por isso mesmo, foi a minha primeira cachorra que morreu e deixou esse vazio estranho.

Não há palavras pra descrever isso. É o fim. É o fim. É onde acaba tudo. É só uma cadelinha. Nem sabia fazer truques. Mas ficamos todos arrasados. Eu fico ouvindo de novo minha mãe dizendo que “a nossa Tchullinha se foi”. Ela não sentava, não dava a patinha. Era só a mascote que abriu meu coração para o que viria depois. E esse depois – obrigado, Tchulla – , com o Darwin e o Sagan, graças ao que você me ensinou, foi sensacional.