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Publicado em 14 de Fevereiro de 1999

O mágico (des)mascarado

Leonard Montano, o mascarado Mister M que provoca polêmica no “Fantástico”, fazia shows de mágica baratos em cassinos de Las Vegas, nos EUA, até ser descoberto pela rede norte-americana Fox, em 97, e se tornar mundialmente famoso e odiado

Foto Divulgação
Legenda: Leonard Montano, que usava nos EUA o apelido de Valentino e no Brasil é conhecido como o mascarado Mister M. do ‘Fantástico’

ALEXANDRE MARON da Reportagem Local

Mister M, o polêmico mágico mascarado que revela truques no “Fantástico”, da Rede Globo, diz que tem bons motivos para o que está fazendo.
Em entrevista à Folha, por telefone, de seu escritório em Las Vegas, Leonard Montano, 42, o Mister M, afirma que seu objetivo sempre foi o de “promover a arte mágica”.
Odiado por toda a comunidade mágica mundial, o mascarado é casado e mora em Las Vegas. Lá, trabalhava no circuito de shows baratos em cassinos sob o nome artístico de Val Valentino. Após a série de programas, Montano foi banido de todas as associações de mágicos dos EUA.
Com problemas para trabalhar, diz que lançará um programa comunitário em que ensinará mágica a crianças carentes. Também tenta explorar a marca que criou e da qual detém os direitos nos EUA, o “Mágico Mascarado”.
Mas encontra dificuldades. Ainda não conseguiu emplacar um novo programa que promete fazer sem revelar truques mágicos.
A partir de seu surgimento em um especial na rede de TV da Fox, nos EUA, em 97, Montano descobriu a fama.
O especial, chamado “Quebrando o Código dos Mágicos”, foi o programa não-esportivo de maior audiência da Fox em sua história, com 24 milhões de telespectadores, em novembro de 97.
A Fox anunciou após a exibição do especial que Montano recebera ameaças de morte. Telefonemas exigiam o fim do programa. A rede então decidiu fazer mais três programas.
No último especial, em novembro de 98, foi revelada a identidade do mascarado. A atração já sofria declínio: 14 milhões de espectadores a assistiram.
Desde 3 de janeiro, o “Fantástico” vem mostrando trechos do programa. Mágicos brasileiros pediram à Globo a suspensão do quadro, o que foi negado pela emissora.
O quadro não é o responsável pelos picos de audiência do “Fantástico” -no último domingo, emplacou 24 pontos, contra 41 no pico do programa (cada ponto equivale a 80 mil telespectadores na Grande São Paulo). Mas Mister M já é responsável por mais de 1.600 cartas enviadas à Globo -1.230 a favor e 400, contra.
Leia a seguir entrevista em que Leonard Montano revela novos projetos.


“Não fiz nada por dinheiro”, diz Mister M

Folha – Como toda essa história começou?
Leonard Montano – Foi uma idéia da rede da Fox dos EUA. Eles tinham os produtores, diretores e até a data em que o especial iria ao ar. Tudo o que eles precisavam era de um mágico. Procuraram em todo o país e acharam que o meu trabalho era o melhor.
Eles me disseram que iam revelar truques mágicos e eu disse que não estava interessado, a não ser que mostrássemos apenas ilusões antigas, e de forma diferente da que os mágicos fazem hoje em dia.
Folha – O que o levou a concordar em expor os truques, rompendo o código de ética dos mágicos?
Montano – Para promover a arte mágica. Há muitos mágicos que acham que não podem se desvincular dos velhos truques do passado, das velhas ilusões. Agora, com o meu programa, eles terão de pensar em novas idéias. Uma nova mágica para o século 21.
Folha – O sr. não teve medo de prejudicar os pequenos mágicos, sem muito dinheiro, que tiveram alguns dos truques de seus repertórios revelados?
Montano – Não, eu não acho. A mágica não está ligada à quantidade de dinheiro do mágico e sim à sua imaginação.
Folha – O sr. recebeu muitas ameaças quando o show foi lançado?
Montano – Muitos mágicos ficaram irritados e reagiram de forma exagerada, mandando mensagens para a Fox. Eles não conseguiam entender que o meu trabalho estava na verdade promovendo as artes mágicas.
Folha – O sr. foi banido de organizações mágicas?
Montano – Sim. Fui banido de todas as organizações mágicas e fiquei muito triste, é claro, porque amo a arte. Sinto que tomei a decisão certa. A Fox ia fazer o programa de qualquer forma, comigo ou com outro mágico. Senti que estando lá poderia proteger alguns dos novos segredos. Em essência, protegi a mágica fazendo o programa.
Folha – Mas não seria o contrário?
Montano – Não. Há diversos mágicos aqui nos EUA que me entenderam. Eles estão renovando as velhas ilusões usando novas tecnologias. Dessa forma, se alguém cortar uma mulher ao meio, você não vai saber como, mesmo que tenha visto o meu programa. Fiz a coisa certa. Protegi os novos segredos, convenci a Fox a mostrar apenas velhos truques e promovi a mágica.
Folha – Quanto dinheiro o sr. ganhou com os programas? Fala-se em US$ 15 milhões.
Montano – Não, isso é besteira. Trabalho o ano todo, e estou sempre muito ocupado, seja em cassinos, em meus shows ou em apresentações em empresas. Quando a Fox fez a oferta inicial, recusei, porque ganho bastante dinheiro. E não aceitei enquanto eles não concordaram em apenas mostrar truques ultrapassados.
Com o primeiro programa, eu ganhei menos do que nas minhas performances regulares. Só com os outros três eu posso dizer que ganhei mais do que o normal.
Mas dizer que eu fiz isso por dinheiro é uma besteira, porque quando assinei para fazer o primeiro programa eu não sabia que ia ser um sucesso.
Folha – Por que o sr. está usando o personagem Mister M (“Mágico Mascarado”, nos EUA) mesmo depois de ter revelado o seu rosto?
Montano – Porque o personagem é muito popular aqui nos EUA. Os mágicos não gostam de mim, mas as pessoas comuns me adoram. E agora o mascarado não revelará truques, vai fazer mágica.
Folha – Então o sr. acha que o Mister M seria interessante porque não pode mostrar truques velhos?
Montano – É verdade. Nos meus próximos especiais de TV vamos mostrar novos truques e não os velhos. Será na Fox ou em alguma outra rede de TV.
Folha – O sr. fará mais shows revelando mágicas?
Montano – Não. Se o meu show era sobre expor segredos, por que eu não revelaria minha identidade? Eu seria um hipócrita. Revelei minha identidade porque o Mister M não mostrará mais segredos.
Folha – Então o sr. não vai mais expor truques.
Montano – Fiz aquilo para promover a mágica, torná-la mais popular. E esse trabalho já está feito. Agora é a vez de seguir em frente. Chegou a hora de mostrar as novas ilusões que criei junto com um grupo de mágicos jovens.
Folha – Muitas pessoas dizem que o sr. usou uma máscara no programa porque não é capaz de criar seus próprios truques. Como se sente a respeito?
Montano – Eu ainda não tive a oportunidade de mostrar meu trabalho, mas vou mostrar.
Folha – Como o sr. se sentiria se, após desenvolver os seus novos truques, alguém os revelasse num programa de TV?
Montano – Não sei por quê alguém faria isso. Seriam novas idéias. Como já disse, no programa eu só mostrei ilusões velhas. Ele estaria revelando os truques errados.
Folha – Então o que é um truque velho? Quantos anos ou décadas ele tem que ter para se enquadrar nessa definição?
Montano – Qualquer um dos truques que eu mostrei no programa é antigo e, feito hoje com novas técnicas, ainda engana a audiência, parecendo exatamente o mesmo.
Vou provar isso em meu novo especial. Vou mostrar truques semelhantes e não vou fazê-los da forma que os exibi no programa. Vou provar que os mágicos são melhores hoje do que eram no passado.
Folha – Alguns dos truques que o sr. mostra nos shows são perigosos, como pegar uma bala com os dentes. O sr. concorda?
Montano – Sim. Os truques de Houdini, por exemplo, eram muito perigosos, mas dublês pulando sobre carros com motocicletas também são mostrados na TV, e isso não significa que as pessoas vão até lá fazer. Mas quando essas façanhas são mostradas, as pessoas vêem que o mágico não é louco e que há um truque.
Folha – O sr. chegou a ser processado?
Montano – Tentaram, mas os juízes barraram os processos. Disseram que era besteira se preocupar com isso, porque são apenas truques.
Assim, eu nunca fui a julgamento. Essa polêmica é uma besteira, porque o programa não prejudicou ninguém. Só promoveu a mágica.

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