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Brasil entra na era da garagem.com, 11/01/2000

Computador caseiro vira ferramenta para artistas brasileiros, como o gaúcho Allan Sieber, 27, que já produz para cinema e TV com um Pentium de menos de R$ 1.000
ALEXANDRE MARON
da Sucursal do Rio

Enquanto nos EUA a produção caseira “A Bruxa de Blair” deixava Hollywood assustada em vários sentidos, aqui no Brasil um cartunista surpreendeu público e crítica no Festival de Gramado de 99 ao competir com o desenho animado “Deus É Pai”, que ele fez em casa, praticamente sozinho. Seis meses depois, usando o mesmo equipamento, o artista já produziu um videoclipe para a banda De Falla, está criando vinhetas para a nova minissérie da Globo e chega até aos cinemas.
O gaúcho Allan Sieber, 27, trabalha desde os 17 no mercado de HQ underground. Sua história começou a mudar quando fez o clipe de animação de dois minutos para a canção “Suellen”, do músico Flu. O Brasil começa a revelar os “criadores de garagem”, pessoas que, com apenas um computador e criatividade, entram na indústria de entretenimento.

“Fiz tudo no meu computador em 15 dias. Quando vi o resultado, resolvi ousar mais”, conta Sieber, que tem um computador Pentium 200 MHz, que vale menos de R$ 1.000.

Em “Deus É Pai”, Jesus Cristo e Deus vão ao escritório de uma psicóloga discutir os problemas do choque entre as gerações.

O desenho, com quatro minutos de duração, também foi feito em pouco mais de 15 dias. Sieber inscreveu a fita na mostra competitiva do Festival de Gramado e ganhou dois Kikitos, o prêmio da crítica e o especial do júri. O cartunista se transferiu para o Rio de Janeiro e criou a produtora de desenhos animados Toscographics.

A empresa já produziu o videoclipe “Repelex Mixxx 2000” para a banda De Falla e está criando vinhetas para a minissérie “A Invenção do Brasil”, da Globo.
A distribuidora Lumière distribuirá “Deus É Pai” para algumas salas de exibição selecionadas, junto ao polêmico “Dogma”, de Kevin Smith, que tem estréia prevista para dia 21. “Com uma máquina dessas, qualquer moleque pode criar em casa”, diz.

A história do artista gaúcho é exemplar das mudanças que a tecnologia digital está causando nos meios artísticos.

Antes da chegada dos computadores e da Internet, quando um videomaker, por exemplo, terminava suas obras, se não estivesse ligado a uma grande corporação, não teria como mostrar seu trabalho ou distribuí-lo.

Com a Internet, distribuir os arquivos digitais de um curta-metragem ou de um disco deixou de ser algo inviável. Quando um filme independente surge, um site bem planejado pode significar a diferença entre fazer sucesso e ser ignorado.

O exemplo mais célebre é “A Bruxa de Blair”, que foi feito com US$ 60 mil e ganhou projeção depois que seu site oficial começou a ser conhecido pelos internautas. A expectativa fez o filme render mais de US$ 140 milhões só nos EUA. Seu antecessor na categoria baixíssimo custo foi “The Last Broadcast”, feito por dois jovens americanos com US$ 900.

Hoje, nos EUA, fazer um curta-metragem de 20 minutos em película, mais revelação e edição pode custar US$ 40 mil, sem contar atores e equipe técnica.
A substituição da película por arquivos digitais deve se consolidar nos próximos anos.

A prova da tendência vem da decisão de Steven Spielberg de criar uma empresa para a produção de filmes de curta-metragem para a rede, a www.pop.com.
Leonardo Di Caprio também lançou a versão digital do Festival de Sundance e criou um site (www.leofest.com) que exibirá filmes feitos totalmente em mídia digital. O apresentador Luciano Huck resolveu aderir à idéia e está lançando um concurso em seu site (www.lucianohuck.com.br).

Sites que apresentam filmes digitais, como o D.Film (www.dfilm.com) ou o Bijou Café (www.bijoucafe.com), se tornam populares. Nessas páginas, é possível assistir a curtas-metragens de todo o mundo.

E esses filmes são feitos usando equipamentos baratos. Basta uma câmera de vídeo do tipo das usadas para gravar festas e um computador Pentium acima de 200 MHz equipado com uma placa de captura vídeo.

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