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Obras deterioram-se na Funarte do Rio, 29/01/2000

Dezenas de peças de arte contemporânea, que estão em um depósito da fundação, serão doadas ao Pará

ALEXANDRE MARON
da Sucursal do Rio
Dezenas de obras de arte contemporânea estão se deteriorando em um depósito da Funarte (Fundação Nacional de Arte) no palácio Gustavo Capanema, que é também a sede do Ministério da Cultura, no centro do Rio. São quadros e esculturas mofados e danificados e, em alguns casos, irreconhecíveis. A eles se juntam quadros de exposições que acabaram de ser desmontadas no palácio. A maior parte está guardada sem nenhum papel de proteção.

As obras abandonadas são parte de um acervo constituído desde a década de 50 em diversos salões de artes plásticas promovidos pela Funarte para descobrir novos talentos. Quando não são recolhidas pelos autores, tornam-se patrimônio do Estado.

Até 1995, as peças ficavam guardadas no Museu Nacional de Belas Artes. O acervo foi transferido junto com a Funarte para o palácio Gustavo Capanema, mas não havia onde guardá-lo. Para tentar resolver o problema, a Funarte decidiu doá-lo à secretaria de Cultura do Estado do Pará.

Em 97, foram enviadas 120 peças ao Pará. Dessas, cerca de 60 estavam em estado de deterioração. A Funarte pretende mandar mais 49 peças ainda este ano _entre elas, as que estão no depósito.

Dois dos nomes encontrados no meio das pinturas amontoadas são de figuras conhecidas no panorama contemporâneo brasileiro: Jorge Guinle e Luiz Alphonsus de Guimaraens. O primeiro é filho do playboy Jorginho Guinle e morreu em 87,deixando mais de 500 telas, algumas delas chegando a valer US$ 10 mil. Três, não identificadas, estão nesse depósito. Guimaraens, 51, dirigiu até o ano passado a escola de artes do Parque Lage, na zona sul do Rio.

O outro lado
O presidente da Funarte, Márcio Souza, afirmou que a sala na qual estão guardadas as pinturas é apenas um depósito temporário de obras que são expostas periodicamente na galeria do palácio.

“As obras ficam ali esperando que os artistas venham buscá-las. Vocês foram ao local um dia depois de uma exposição ter sido desmontada, por isso estava aquela bagunça”, disse.

Segundo Souza, as peças foram encontradas nas escadarias do palácio Gustavo Capanema, logo após ele ter assumido a presidência da Funarte, em 95, sucedendo o poeta Ferreira Gullar.

“Na primeira vez que faltou luz no palácio e eu tive que descer pelas escadas, encontrei um monte de entulho obstruindo a passagem. Mandei o pessoal de serviços gerais jogar tudo fora. Só então vieram me dizer que aquilo eram obras de arte abandonadas”, afirmou Souza.

Para ele, é preciso lembrar que a Funarte é um órgão de promoção da cultura, não um museu. “Não estamos aqui para ter um acervo ou uma reserva técnica.”
Segundo o arquiteto Ivan Pascarelli, que cuida das galerias e do depósito, as peças estão ali esperando o momento de sua transferência para o Pará.
“As obras serão higienizadas e mandadas para lá, em breve. Não há outro espaço para guardá-las.”

A entrega das peças ao Estado do Pará, foi, segundo Souza, um ato de “esperteza” do secretário de Cultura do Estado do Pará, Paulo Chaves Fernandes.
“Quando descobrimos as obras, ele estava justamente visitando o palácio. Ofereceu-se imediatamente para cuidar da coleção e eu autorizei. Outras secretarias se ofereceram depois, mas já tinha me apalavrado com ele”, contou.

Souza acha que a coleção não fará falta ao Rio. “Todos sabem que o Rio está bem servido com as melhores obras desses artistas. E, se para nós são obras medianas, para eles é uma ótima aquisição.”

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