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Mais pobres doam mais a campanha, 19/02/2000

São responsáveis por 95% da arrecadação

ALEXANDRE MARON
da Sucursal do Rio
A Ação da Cidadania contra a Fome, movimento criado em 1993 pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho (que morreu em agosto de 97), mudou radicalmente sua face. Quando surgiu, o comitê recolhia 95% das doações entre pessoas das classes média e alta. A situação se inverteu e hoje 95% do que é arrecadado vêm das comunidades de baixa renda.

“A solidariedade é concreta e cotidiana na pobreza. Nas comunidades pobres, quando há comida em um barraco, é comum dividi-la com o vizinho que tem fome”, afirma o secretário-geral da Ação, Maurício Andrade, 48.

Em 1994, o movimento chegou a contar com 5.000 comitês espalhados por todo o Brasil. A cidade do Rio, centro da campanha, contava com 120 unidades, cerca de 2% do total. Hoje esse número caiu para menos de 1.000 comitês, mas a participação do Rio subiu vertiginosamente. Agora, a cidade tem 400 comitês (40% do total), com apenas 13 em bairros nobres como Barra, Leblon ou Ipanema. Em 94, eram 30.

Todo o resto se localiza nos bolsões de pobreza e no interior do Estado. Regiões como a favela da Rocinha, o Complexo da Maré e o lixão de Duque de Caxias.

Para Andrade, a história da Ação da Cidadania se divide em três momentos. A primeira fase aconteceu nos anos de 1993 e 94, que ele considera o auge da exposição do movimento. “Naquela fase, a campanha contra a fome virou moda. Uma pesquisa do Ibope revelou que 60% das pessoas sabiam da nossa existência e, dentro desse grupo, 70% contribuíam de alguma forma.”

Em seguida, de 1995 até a morte de Herbert de Souza, a Ação passou por um momento de estabilização. “Betinho se preocupava com a personalização criada em torno dele. Sempre deixou claro que precisávamos agir com independência, criando novas campanhas, o ‘Natal sem Fome’, e o CD ‘Brasil São Outros 500’ são bons exemplos”, conta Andrade.

Desde agosto de 1997, a Ação vem procurando uma nova cara. Daniel Souza, 33, filho de Betinho, deixou de participar esporadicamente para se envolver mais ativamente nas empreitadas culturais da Ação da Cidadania, com campanhas ligadas ao emprego e à educação. No final de 1999, foi lançado o site www.clickfome. com.br, no qual o internauta clica no logotipo de um patrocinador, que faz uma doação à Ação.

Outra campanha, o projeto Recicle uma Vida, mostrou quinta-feira os primeiros resultados práticos. A Ação da Cidadania doou 50 bolsas-escola de R$ 136 a famílias de comunidades carentes, para manter crianças nas escolas.

O dinheiro foi levantado vendendo às indústrias cerca de 30 mil cartuchos de impressoras doados em dezenas de urnas espalhadas por toda a cidade. O material é reciclado e a renda vai para o programa. Agora, a Ação negocia com as indústrias que produzem aparelhos celulares e pretende colher baterias para ampliar as fontes de arrecadação.


Subretranca: Dona-de-casa cria comitê, 19/02/2000

da Sucursal do Rio
A dona-de-casa Jucélia Maria de Melo Coutinho, 43, é a nova cara dos colaboradores da Ação da Cidadania contra a Fome. Ela comanda o comitê Lagoinha Abandonada, próximo à favela do Barbante, na Ilha do Governador.

“Criei o comitê há dois anos e dei esse nome porque fomos abandonados pelos políticos. Há muita lama, barro e esgoto correndo a céu aberto”, afirma.

Jucélia é casada e tem um filho, que está desempregado. O marido, eletricista, vive de biscates. Juntando as vendas de roupas que ela faz, a família consegue ganhar por mês cerca de R$ 300.

Jucélia divide os trabalhos de casa com as visitas de pessoas da comunidade carente. Eles vêm pedir para pagar passagens de ônibus até o trabalho, dinheiro para fotos usadas em documentos importantes no momento de conseguir emprego e remédios.

Inicialmente, o marido ficou desconfiado com a idéia da mulher de abrir um comitê da Ação da Cidadania, mas acabou gostando da iniciativa. “Ele ficou muito emocionado na quinta, quando fomos assistir à entrega de cheques das bolsas-escola.”

Com essa campanha da Ação _que arrecada dinheiro com a venda de cartuchos de impressora usados_, Jucélia pôde ajudar pessoas como a dona-de-casa Marli Geraldo Mendonça, 49, que mora na favela do Barbante e tem sete filhos. Para garantir algum dinheiro, Marli se dispõe a trabalhar em obras e até mesmo a fazer trabalhos pesados como carregar tijolos e cimento. O resultado não passa dos R$ 90 por mês. (AM)

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