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Especialista desvenda o futuro das HQs, 19/06/2000

Scott McCloud lança “Reinventing Comics” nos EUA, que será comercializado apenas em lojas especializadas

ALEXANDRE MARON
DA SUCURSAL DO RIO
As histórias em quadrinhos nasceram como pinturas nas cavernas e evoluíram até a forma atual. Mas parecem estar reagindo mal aos novos tempos. O estudioso do gênero Scott McCloud, 40, pretende provar que é hora de uma revolução em seu livro, “Reinventing Comics” (Reinventando os Quadrinhos).
O novo livro será lançado esta semana nos Estados Unidos, apenas em lojas especializadas em histórias em quadrinhos. Em agosto, chega às grandes livrarias. No Brasil, ainda não há previsão de publicação.

Na opinião do especialista, a adaptação das HQs ao meio digital, os chamados “cybercomics”, é um processo irreversível. McCloud é autor do livro “Descobrindo os Quadrinhos”. Lançada em 1993, a obra foi editada no Brasil pela Makron Books, mas está esgotada.

O livro é, ao lado de “Quadrinhos e Arte Sequencial”, do mestre Will Eisner, o melhor material de referência na dura tarefa de definir as histórias em quadrinhos como meio e como linguagem.

Tempo e papel
No livro “Descobrindo os Quadrinhos”, McCloud usa uma fórmula simples: HQs são tempo retratado pelo espaço. A definição é elegante. No universo bidimensional dos quadrinhos, um segundo ou cem anos podem passar em alguns milímetros de papel. Nos desenhos animados, por exemplo, um segundo pode expressar mil anos, mas continua sendo tempo expressando tempo.

Com o passar dos anos, McCloud diz que sua obra precisava de alguns ajustes e que era necessário escrever um novo livro para analisar tudo o que aconteceu _entre os dois lançamentos_ por conta do surgimento dos computadores.

Hoje, por exemplo, há artistas que não desenham mais em papel. Fazem a arte direto em computadores em pranchetas especiais. Depois, colorem o desenho e enviam arquivos digitais para as gráficas sem sujar as mãos de nanquim ou grafite.

O próprio McCloud afirma que perdeu uma fonte de renda muito comum entre os artistas, a venda de originais de HQs feitos em papel, porque passou a usar somente seu computador. Após pouco mais de um ano de trabalho, o livro de McCloud apresenta, em 224 páginas, divididas em 12 capítulos, sugestões para tornar as HQs melhores como indústria e como arte.

Revolução tecnológica
“As últimas revoluções que aconteceram nos quadrinhos estavam todas ligadas a computadores. Eu gastei 120 páginas somente para falar da revolução tecnológica”, afirma o autor.

Para McCloud a indústria das HQs, em grave crise nos EUA, precisa reconquistar o público infantil, que encontrou diversão nos videogames e, nesse caso, quadrinhos em computadores são uma boa opção.

Mas ele vai mais longe. Afirma que as HQs precisam conquistar o público feminino, tendo mais leitoras e autoras. Além disso, os quadrinhos devem apresentar mais diversidade cultural e étnica.

Em sua home page oficial, www.scottmccloud.com, o autor apresenta algumas histórias em quadrinhos que, em sua opinião, seriam formas inteligentes de aproveitar as características do ciberespaço.

Para ele, a grande vantagem das HQs digitais é o tamanho infinito do espaço que o artista tem para criar. Ele mostra exemplos de histórias que parecem fluxogramas, quadrinhos indo em diversas direções ligados por linhas que guiam o olhar do leitor.

Para entender a definição, no site do autor há diversos endereços de páginas dedicadas a HQs digitais (veja quadro nesta página).
Outra preocupação de McCloud é quanto à classificação, na nova mídia, do que é e do que não é história em quadrinhos. Um exemplo é a Stan Lee Media, do criador do Homem-Aranha, que ficou conhecida como um estúdio de criação para a Internet.

Na definição estrita de McCloud _tempo mostrado em espaço_, os episódios do site de Lee são desenhos animados e não histórias em quadrinhos. Lee, por sua vez, concorda com McCloud e reconhece que está reunindo o que aprendeu por cerca de 20 anos produzindo desenhos animados para a TV e sua experiência anterior com HQs.

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