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Canais aceleram filmes para não precisar cortá-los, 05/12/1999

TNT e Cartoon exibem filmes com a velocidade alterada para fazer com que caibam sem cortes em suas programações
ALEXANDRE MARON, DA SUCURSAL DO RIO
A ROTINA de exibição de filmes na TV não é só de mutilações. Canais como TNT e Cartoon adotam uma outra tática para encaixar programas em suas grades: acelerar a velocidade dos filmes. A aceleração é sutil_ na maioria das vezes, imperceptível para o espectador leigo_, mas é capaz de diminuir a metragem de um filme em mais de dez minutos.

A técnica foi criada, inicialmente, para encaixar filmes que duravam mais de duas horas em fitas de vídeo ou nos laserdiscs (precursores dos DVDs) nos quais cabiam apenas 120 minutos.As edições em laserdisc do primeiro “Guerra nas Estrelas” (121 min) e de “O Império Contra Ataca” (124) foram comprimidas.

O nome da técnica em português é “compressão de tempo”, e o processo começa na telecinagem, a passagem do filme da película para o videoteipe.Um filme exibe 24 quadros por segundo. O que os técnicos fazem para garantir a “compressão” é girar o filme um pouco mais rápido e exibir 26 ou 27 quadros por segundo. Como resultado, as vozes dos personagens ficam mais agudas, e as pessoas parecem mais nervosas e ativas em cena.”Seguramente, essa técnica altera o ritmo de um filme. As pessoas falam e andam mais rápido”, diz Tim Lucas, 43, à Folha, por telefone de seu escritório em Ohio, nos EUA. Ele é crítico de cinema e editor da revista “Video Watchdog”, especializada em pegar falhas e cortes em filmes.

A TNT não usa a técnica somente na hora de exibir os filmes. Os comerciais também sofrem compressão.”Acontece de recebermos um comercial que tenha 34 segundos, e só temos um espaço de 30 segundos na nossa programação. A saída é comprimi-lo”, explica o vice-presidente da TNT, Rick Perez.Segundo Perez, o canal usa a técnica há pelo menos nove anos e nunca recebeu nenhuma reclamação. “A prova de que a técnica é imperceptível é que nunca recebemos nem mesmo elogios. Ninguém nota isso.”

O jornalista gaúcho Carlos Thomaz Albornoz, 27, notou. “Gravei o filme ‘O Silêncio dos Inocentes’ na TNT, que tem 118 minutos, e fiquei intrigado com as vozes e a forma como as pessoas pareciam mais nervosas e andavam mais rápido. No formato que eles usaram para a exibição, o filme ficou pelo menos uns dez minutos mais curto”, conta.

Perez diz que a técnica é comum, e o canal a usa corriqueiramente. “Nós não somos os únicos que a usam. O Cartoon Network (do mesmo grupo da TNT, a Turner) e a Nickelodeon daqui dos EUA também fazem isso.””Como os jovens hoje em dia gostam de uma linguagem visual mais movimentada, não notam.

Acho que é uma afronta ao ritmo mais lento dos filmes clássicos”, afirma Lucas, da “Video Watchdog”.Para ele, só há uma vantagem na exibição dos filmes comprimidos: eles acabam não sofrendo os cortes tão odiados pelos cinéfilos. “Isso ainda é melhor do que os montes de cortes sem sentido que esses canais fazem”, analisa Lucas.

E cortes sem sentido não são exclusividade da TNT, que exibiu o filme “O Vingador do Futuro” sem parte da cena do clímax, na qual o herói encarnado por Arnold Schwarzenegger mata o vilão.”O mais irritante de ver esses filmes na TV é que os caras cortam o que eles acham que é importante, mas que, muitas vezes, é uma cena que o espectador queria ver. É só mais uma prova de que filme é para ser visto no cinema”, diz Beto Brant, diretor do filme “Matadores”.

Um dos mais curiosos é o corte feito no filme “Força em Alerta”, com o brutamontes Steven Seagal. Os censores da Record fizeram questão de retirar uma cena em que a atriz Erika Eleniak mostra os seios, mas deixaram as lutas com facas, os ossos quebrados e personagens sendo atravessados por uma viga.

Outra prova de que o critério duvidoso leva a situações embaraçosas é o filme “48 Horas”, de Walter Hill, com Nick Nolte e Eddie Murphy. A principal motivação do personagem de Nolte em todo o filme é a morte de um amigo. Mas a cena, considerada violenta, foi cortada na versão exibida pela Globo, e o espectador fica sem entender com clareza o motivo de tanta confusão no resto do filme.

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