Elysium desaba num proselitismo doentio

Semana passada, tive uns engulhos quando descobri que um grupo religioso resolveu criar um vídeo chamado Porta da Frente em uma espécie de combate ao Porta dos Fundos. Naturalmente, foi patético.

Meses antes, eu fiz piada com esse vídeo.

Feito para “combater” esse outro, que fazia piada com os defeitos do Rio de Janeiro.

Fiz piada, de novo, porque o vídeo de contra-ataque é invariavelmente menos inspirado do que o original (que nesse caso era uma paródia de outro vídeo, mas por ter derivado na direção certa, manteve a graça).

Estou fazendo essa introdução torta para explicar porque fiquei tão irritado com um filme que eu queria tanto gostar: Elysium.

Um diretor talentosíssimo (District 9 é brilhante for so many reasons) que tem uma linguagem visual fantástica e que se perde ao esquecer o roteiro para fazer sua pregação. E entenda. Não interessa que eu concorde completamente com o conceito de saúde universal. Não importa a ideologia do momento. O que importa num filme como esse é a boa história que é deixada de lado para a pregação apaixonada de uma idéia. E o resultado? Minha cara de surpresa com a lógica desabando.

Então, a sensação é de que, no terceiro ato, Blomkamp não se preocupou com contar uma boa história. Azar o nosso, que estávamos investidos nos personagens. O filme passa a se resolver com acasos preguiçosos irritantes. Degringola feio. O filme se divide, então, em duas partes  que não se conversam. Não consigo entender de onde saiu aquilo. Não consigo engolir o completo abandono da lógica e de qualquer tentativa de nos entregar uma trama que faça sentido.

Então, gastei essas linhas para dizer somente que Elysium desabou pra mim porque virou Porta da Frente. Só faltou Matt Damon terminar o filme cantarolando “Rio lindo de vive-er, sou louco de amor por você-ê…”.

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Carta para a Marina

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Minha linda, pequenina, fofinha, Marizoca.

Você ainda não pode ler isso. Ainda pouco sabe o que a gente diz. Mas um dia você vai poder entender o que eu estou escrevendo e espero te arrancar um sorriso. Mais um. Desses que eu gosto tanto de ver.

Olhar para você me acalma, Marininha. E hoje, nesse momento em que te escrevo, poucas coisas me acalmam. Mas vai melhorar. E eu só acho que vai melhorar porque olho pra você. E esse momento, o de olhar pro seu rostinho, é de esperança no futuro. Porque um futuro com você e com a sua irmã só pode ser melhor. E se não for, me dá vontade de lutar para que seja. Porque tem que ser melhor. Entende?

Seu sorriso me aquece o coração. E, tenho que confessar, poucas coisas hoje me aquecem o coração. É o momento. Vai passar.

Tem outra coisa que eu sinto quando olho para você. Vontade de envelhecer. Essa vontade eu nunca tive (não que faça alguma diferença querer ou não). Mas é que, para ver você e sua irmã crescerem, virarem tudo que vocês podem ser, eu preciso envelhecer. E se esse é o preço. Puxa, paciência.

Esta é a primeira de muitas cartas, ou e-mails, ou mensagens, ou posts do Facebook ou de qualquer outro meio que for inventado. Você só vai conseguir ler isso mais tarde, quando for alfabetizada. Só vai entender mesmo… Um dia. Quando você olhar para sua filha ou sua sobrinha amada e sentir o que eu estou sentindo. Quando seu coração se aquecer como o meu.

Aí você vai entender porque eu escrevo uma cartinha tão simples com lágrimas nos olhos. Não é tristeza não. É felicidade. É porque eu sei que é só o começo.

É o primeiro parabéns. De muitos anos de vida.

Te amo

Tio Alê

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Jornalismo: os inimigos, as ferramentas e a catedral

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O segundo maior inimigo do jornalismo é o mau jornalismo. Ele corrói a imagem da profissão e é usado… pelo maior inimigo. O mau jornalismo não afeta essas figuras nefastas, porque não se preocupa com elas. Se importa com o que não importa.

Divididos seremos conquistados. Os governos autoritários, os criminosos ou, simplesmente, os egoístas que lutam contra o bem comum são sempre os maiores inimigos do jornalismo. E precisam dele fraco.

O jornalismo não enfraquece só quando as empresas ficam vulneráveis economicamente, porque o jornalismo não é empresa. Ele enfraquece quando as pessoas não conseguem entender seu valor, perdem de vista para que ele serve e não entendem que ele as serve. E em algumas situações, a culpa é justamente dos jornalistas e das instituições que se deixaram levar pelas tentações do segundo maior inimigo ou se dobraram aos interesses do primeiro. Ou os dois.

O jornalismo é algo acima das instituições, é uma forma de ver o mundo, de questioná-lo e de buscar a história. É um filho direto do iluminismo, do pensamento científico. E, como tal, pode ser praticado por quem quer a verdade, a igualdade e o bem comum. As três coisas. Nunca menos. Menos é o terreno do mau jornalismo.

As pessoas costumam confundir o jornalismo com suas ferramentas. Assim como um lápis não faz um escritor, um bisturi não faz um cirurgião e uma guitarra não faz um músico, o jornalismo é construído na prática e no uso das ferramentas dentro de um arcabouço ideológico específico: verdade, igualdade, bem comum. O que se produz e para quem é produzido faz toda a diferença. Porque o jornalismo só existe de verdade quando expõe, revela e ilumina.

Não existe jornalismo de uma noite. Ele é uma catedral construída com sangue, suor e credibilidade. E essa credibilidade só é construída a partir das engrenagens sociais. O jornalismo não pode ser uma ilha. Isolado fica fraco. E fraco, é presa do maior inimigo, que está sempre à espreita.

O jornalismo tem um compromisso com sua missão e com sua existência. É missão do jornalismo continuar existindo, porque ele precisa saber sua missão e querer preservá-la. Se não souber e se não lutar é meio jornalismo. E meio jornalismo é mau jornalismo.

Isso, claro, é a MINHA opinião. Ainda bem que o jornalismo não precisa de mim para defini-lo.

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Os jogos e as ferramentas que mudam o mundo

Décadas atrás, jogos eram os de tabuleiro. Era relativamente fácil ter um e modificar suas regras, desenhas novas cartas e peças, escrever regras personalizadas (as regras da casa). Os video-games surgiram com a popularização da informática e foram se infiltrando em nossa cultura até se tornar uma forma de expressão artística poderosa. Agora, com a chegada do console indie, o Ouya, os jogos eletrônicos entram numa nova fase, cheia de possibilidades.

Leia mais na minha coluna no site da Galileu, A Explosão Criativa dos Jogos Independentes.

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As 100 Melhores Coisas para quem?

Capa da Entertainment Weekly
Capa da Entertainment Weekly

A Entertainment Weekly lançou esta semana sua edição especial com os 100 melhores filmes, livros, filmes e álbuns de todos os tempos. Obviamente, tudo muito longe da unanimidade. Mas como são listas editadas por uma das poucas boas revistas de cultura pop que sobraram, vale pelo menos dar uma olhada para discordar.

No site, eles colocaram links para seus top 10 de cada categoria:

Top 10 filmes da EW: 1. Cidadão Kane, 2. O Poderoso Chefão, 3. Casablanca, 4. Bonnie e Clyde, 5. Psicose, 6. A Felicidade Não se Compra, 7. Caminhos Perigosos, 8. Em Busca do Ouro, 9. Nashville, 10. E o Vento Levou. Tem mais 90 lá.

O filme mais recente do top 10 é de 1975? No top 20, o mais recente é Pulp Fiction, de 1994.

Nas séries, temos no top 10: 1. The Wire, 2. Simpsons, 3. Seinfeld, 4. Mary Tyler Moore, 5. Sopranos, 6. Allin the Family, 7. The Andy Griffith Show, 8. Buffy, 9. Mad Men, 10. Your Show of Shows.

Top 10 Álbuns(Música): 1. Revolver (Beatles), 2. Purple Rain (Prince), 3. Exile on Main Street (Rolling Stones), 4. Thriller (Michael Jackson), 5. London Calling (Clash), 6. Blood on the Tracks (Bob Dylan), 7. Lady Soul (Aretha Franklin), 8. My Beautiful Dark Twisted Fantasy (Kanye West), 9. Pet Sounds (Beach Boys), 10. Nevermind (Nirvana)

Top 10 Livros: 1. Anna Karenina (Leo Tolstoi), 1. O Grande Gatsby (F. Scott Fitzgerald), 3. Orgulho e Preconceito (Jane Austen), 4. Grandes Esperanças (Charles Dickens), 5. Cem Anos de Solidão (Gabriel Garcia Marquez), 6. My Antonia (Willa Carter), 7. A série Harry Potter (J.K. Rowling), 8. A quadrilogia
do Coelho (John Updike), 9. Amada (Tony Morrison), 10. A Menina e o Porquinho (E.B. White)

Quantos você viu, leu, ouviu? Quem faltou? Quem sobrou?

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A coluna no site da Galileu

Como eu disse mais atrás. Voltei de um mestrado e deixei de lado o velho ofício de escrever. Uma das resoluções de 2013 era voltar para ser feliz. Aqui estou.

Até aqui, minha principal atividade foi escrever uma coluna semanal no site da Galileu.  Ali, falo de como a cultura pop infuencia e é ifluenciada. O mote é: O POP de impacto e o impacto do pop.

Na semana passada, escrevi sobre a iTunização da política. O momento em que, vivendo em um mundo em que tudo começa a ser por demanda, as pessoas resolvem que suas plataformas polícias também devem ser personalizadas e param de simplesmente aderir ao que partidos organizados propões em bloco.

Nas semanas anteriores, escrevi sobre:

Transmídia – Em A tecnologia e as novas possibilidades narrativasDefiance é um jogo ou um seriado? Os dois.

Realidade Aumentada – Em Vendo o mundo como o Homem de Ferro

Narrativas Pessoais – Em A vida como narrativa: um filme, uma série, uma timeline? (que tem um pouco de transmídia também, mas com outro foco)

Leia e comente. :-)

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Feliciano representa seus eleitores

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Marco Feliciano tem a atitude dos espertalhões. Está usando seus opositores como combustível para construir uma ligação ainda mais forte com seus eleitores. É do jogo. Desistir de protestar contra ele é dar-lhe a chance de continuar fazendo o que sabe: escolher cirurgicamente projetos absurdos sabendo que a polêmica gerada por eles só vai aumentar seu eleitorado nas próximas eleições. Ele mesmo disse que, quem protesta não vota nele. É a lógica do legislativo, que trabalha para sua base, em contraste o executivo, que precisa governar para todos.

É como eu disse no outro dia. Alguém sempre representa está sendo representado. E quem tem mais gente por trás, tem força. Por mais odioso que seja, Feliciano representa as crenças e interesses de seus eleitores (até certo ponto). Suas demandas, por mais irritantes e retrógradas, são as do grupo que o elegeu. A hipocrisia e as declarações oportunistas que torcem a lógica são um bônus.

A questão mais importante é saber por que muitas das pessoas que se manifestaram contra ele desistiram. Os números de manifestantes contra Feliciano foram minguando, minguando e ele sentiu que o pior tinha passado. Sentiu-se seguro. E, mais importante, usa a atenção de projetos absurdos, estúpidos, preconceituosos como a “cura gay” para ficar em uma evidência desproporcional à sua estatura. Ele sabe que o projeto não vai passar, mas sabe também que, até lá, será alvo de protestos dos grupos que seus eleitores repudiam. Logo, só reforça os laços com seus eleitores.

Quando as manifestações contra ele diminuíram, Feliciano venceu o round. Como será a história a partir daqui?

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O umbiguismo é muito poderoso

 

Não me assusto com opiniões absurdamente divergentes. Essas estão no direito individual e vão disputar seu espaço na discussão democrática (de repente, o termo “discussão democrática” ficou surradinho).

O que me assusta é a total ignorância a respeito do fato de que existem outras opiniões e que elas merecem ser apreciadas, do mesmo jeito que a sua. É o total desconhecimento da existência do outro. Ou a desqualificação automática do que o outro tem a dizer.

É assustador o momento em que uma pessoa declara “O Brasil não é aquilo, é ISSO” de forma categórica. Agora sim chegou a verdade. A sua verdade é a verdade verdadeira. O resto está, simplesmente, MUITO errado. E, pior, esse umbiguismo não é retórica. É uma afirmação convicta. Vem do fundo do coração.

A mentira retórica é nojenta, mas é uma construção racional. A pessoa está mentindo, mas pelo menos entende o que está fazendo e, deliberadamente, torce o discurso para ganhar uma discussão.

Mas há quem acredite no que está dizendo de coração, não importa o quanto esteja desconectado do mundo, o quanto seja egoísta e irreal. Acreditar em algo é poderoso.

Nota: Não vou personalizar essa discussão. Mas vamos levar em conta que a pessoa que veiculou o vídeo acima o fez de livre e espontânea vontade e permitiu que seu  fosse “embutido” (“embedded”) em sites externos.

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Para sorrir de novo

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Quando eu voltei do período sabático em 2009, quando fiz o mestrado, decidi me afastar das reportagens, artigos e entrevistas e focar em entender todo o contexto de uma empresa de comunicação.

Esses têm sido quase quatro anos muito ricos em aprendizado. Mas a verdade verdadeira é que ficar sem fazer aquilo que mais amo cobrou seu preço. No final do ano passado, eu me sentia completamente miserável. Tomado pelas obrigações mais executivas e operacionais, não escrevi os livros que queria, deixei o blog de lado, parei com podcasts. Era como se eu tivesse começado uma outra vida e abandonado a velha.

Era hora de mudar isso. Agora já se vão mais ou menos dois meses em que estou escrevendo uma coluna no site da Galileu. São textos em que tento contextualizar a cultura pop e mostrar que ela está inserida no mundo atual de forma mais profunda do que as pessoas muitas vezes percebem. Ao contrário da visão simplista de muitas pessoas, que acham alienante e sem rumo, ela tem uma relevância enorme porque dialoga com o presente, pro melhor e pro pior.

Os dois livros ganharam sinopse e estrutura. Vão evoluir mais durante as minhas férias, no final de julho.

Os podcasts, em áudio e vídeo, vão rolar até o fim do ano. Mas uma das idéias dá um certo trabalho.

É isso. Para sorrir de novo.

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