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Glee é, ainda, o momento de sorrir na semana


Gwyneth quer ser cool em Glee

Segundo ano de seriado de sucesso é fogo. Depois de acertar e virar um hit, os criadores tentam adicionar novos elementos sem alienar o que conseguiram construir. A audiência quer mais do mesmo e… Sabe-se lá o que mais.

Glee, um seriado que mostra um grupo de outsiders da escola encontrando seu lugar no mundo através da manifestação artística (no caso, a música), quebrou uma série de dogmas da TV americana. É um seriado musical semanal exibido na TV aberta que traz, entre outros temas espinhosos, um personagem abertamente gay descobrindo o amor na adolescência. Como é muito bem feita (apesar de irregular nos números musicais e nas coreografias), vem ganhando algumas participações especiais de astros de cinema e TV que querem mostrar seu talento como cantores. Semana que vem Gwyneth Paltrow inicia uma participação especial em dois episódios.

A volta da série foi mais ou menos, para falar a verdade. Os escritores investiram em episódios temáticos em torno de um ou outro artista e isso fica velho rápido, além de confinar os personagens que PEDEM para seguir em frente com suas histórias.

Aí, veio o episódio em que o pai de Kurt, o menino gay da escola, sofre um colapso e entra em coma e a série começou a dar sinais de vida inteligente de novo. Esta semana, quando Kurt descobre seu primeiro amor verdadeiro, a série embicou para um rumo interessante. Os personagens retomaram as rédeas, sabe-se lá por quanto tempo.

Glee é genial quando mostra pessoas completamente diferentes se encontrando na música. As inimizades desaparecem quando os personagens estão cantando, a não ser que a música em questão seja sobre a inimizade do momento. O bad boy, o cadeirante, a cheerleader, a nerd se encontram, se completam, se entendem quando fazem arte juntos.

Mas a série é um produto de TV aberta, então tem lá seus limites. Há soluções irritantemente fáceis e lineares, como quando Kurt descobre que um valentão que o importuna é gay também. Tadinho, é um brutamontes gay e confuso, por isso pratica bullying. Solução fácil. Se o mundo fosse simples asssim.

Outra situação nonsense sai da treinadora do time de futebol (Murphy tentando subverter todo e qualquer chavão que surge na sua frente). Ela é masculinizada, não é bonita e os meninos partilham uma técnica para segurar a, digamos, empolgação nos amassos com as namoradas: para aguentarem o suplício de não poderem transar com as meninas, pensam na treinadora. Como ela é feia isso os ajuda a esfriar. Claro que a treinadora descobre tudo e se sente humilhada. E ganha um selinho de consolação do professor pseudo-Timberlake. Tudo se acerta de um jeito meio inconsistente.

Héteros convictos, se acalmem, mas acho que vocês precisam ser avisados que, antes de tudo, Glee é uma série gay feita para todo mundo. É uma espécie de visão colorida pasteurizada e caretinha em certos momentos, para tentar segurar a ira conservadora. Então toma muito cuidado na hora de mostrar sexo ou bebidas alco[olicas entre adolescentes. Seu criador, Ryan Murphy é gay assumidíssimo e daqueles que gostam de provocar. Fazia isso semanalmente em Nip-Tuck, até a série perder o rumo e ficar tão freak que beirava o insuportável. Reconhecendo seu tom de farsa e seu olhar gay, Glee brinca com estereótipos do mundo masculino o tempo todo.

Um dos seus principais alvos é o time de futebol da escola, que é a coisa mais esculhambada do mundo. Na série, tudo pode acontecer, mas é difícil imaginar um time que aceite um jovem como Kurt e, mais incrível, vença um jogo DANÇANDO uma coreografia inventada por ele. Engraçado, mas alegórico demais.

Em seguida, o menino cadeirante resolve jogar no time de futebol da escola. E é aceito!! E funciona. E eles vencem jogos com ele e por causa dele.

Glee é uma espécie de dimensão paralela colorida, musical e luminosa. Que continue maluquinha e inverossímil e que deixe seus personagens irem em frente. É boa normalmente, é melhor ainda quando solta a franga.

Charles Darwin (2006-2010)

Aniversário do Darwin from alexmaron on Vimeo.

No domingo, montamos uma festinha na pracinha onde o Darwin cresceu. Ali, conheci grande parte do circulo de amigos que tenho hoje fora do trabalho. Gente apaixonada, como eu e a Mônica, pelos seus cachorros.

Ontem, o Darwin morreu durante a cirurgia delicada em que retiraram um tumor alojado no peito, exatamente no lugar de onde foi amputada a sua pata dianteira direita. Foi uma cirurgia complexa e longa. No final, ele não resistiu.

Não posso dizer mais nada para ele agora. Felizmente, eu disse muitas vezes o quanto o amava. Eu o beijei e o aninhei. Eu passei noites em claro ao lado dele e fui passear no meio da madrugada, quando senti que ele precisava fazer xixi e não dava pra esperar. Talvez ele não entendesse o que significava “eu te amo”, mas tenho certeza de que ele sacava o que era aquele pacote completo de carinho.

Quando o nosso maltês morreu subitamente em abril, quando, no dia seguinte, descobrimos que o Darwin tinha câncer, eu senti aquela determinação ignorante de que, com tempo para agir, com a determinação de lutar, ele ia ser salvo. Quebrei a cara. A gente perdeu todas as brigas. Não tínhamos a menor chance. Nunca tivemos. Só quando acabou isso ficou claro.

Agora eu olho esses momentos no vídeo e sinto a agonia do passado perdido. Tento lembrar do que eu senti quando o carreguei na hora dos parabéns só três dias atrás. Me escapa. Me dói que escape. Ficaram as imagens e a minha tentativa de lembrar as sensações. Faz pouco tempo, que eu podia tê-lo nos braços e sentir sua respiração e as batidas do seu coração. Agora tenho os vídeos e as muitas fotos do meu ogrinho.

Não vou dourar a pílula. Ficou um vazio enorme, sim. And the rest… The rest is silence.

Maus, I Will Survive e a sorte dos sobreviventes do holocausto

Não achei engraçado nem desrespeitoso, como tenho certeza que muita gente vai dizer que é. Achei… Curioso.

De tudo que eu vi e li sobre o Holocausto acho que o que mais me tocou foi Maus, álbum do Art Spiegelman que me demoliu emocionalmente. O pai do protagonista conta toda sua saga de sobrevivência às atrocidades do regime nazista. No final, não lembro se é ele que fala sobre como as pessoas olham o valorizam como um lutador que sobreviveu por que se negou a morrer ou porque era especial.

Não. Diz o personagem. Sobreviveu porque teve sorte. Outras pessoas tiveram garra, tiveram fibra, foram inteligentes e simplesmente morreram ao acaso, ao bel prazer de algum louco homicida.

Querer muito viver não era o suficiente. Sobreviver ao terror nazista, à insanidade daquele regime era, na enorme maioria das vezes, obra do acaso. Esse bem-humorado “I Will Survive” no vídeo acima soa então como uma bobagem, mesmo que a gente tente achar alguma interpretação edificante na letra da música. O clipe é até bem intencionado, até quer ser engraçado, mas para mim erra o alvo.

Atualização: O Leandro avisa nos comentários que é justamente esse comentário que eu citei, da sorte pura, que surge num outro vídeo relacionado: http://www.youtube.com/watch?v=DpfID7pLe7M