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Faltam 22 dias

EM dezembro do ano passado, entreguei meu antigo apartamento e fui morar num temporário em condições meio precárias (cachorros demais, espaço de menos – compensaram as amizades que nasceram ali) que eu achei que durariam, no máximo, uns dois meses.

Na hora em que despachei o caminhão com metade da minha vida (livros, DVDs, móveis…) para o depósito, tocou o telefone e era meu chefe me convocando para uma reunião. Saí esbaforido para a empresa e fui comunicado de que estaria assumindo a Época São Paulo. Isso significaria deixar minha equipe na MONET imediatamente e começar a montar a equipe e a revista. Sem casa, sem redação. Tudo de cabeça para baixo.

Essa foi a tônica da minha vida por meses. Separado das coisas que acumulei e perto das quais me sinto muio bem: meus livros, meus filmes, meus… cacarecos. Só voltei a tê-los por perto em junho, mais de seis meses depois. Abri as caixas ansioso e comecei a encher as prateleiras do escritório e da sala de vídeo. Foi delicioso. Foi também quando tomei a decisão de ir mesmo para Londres. Foi difícil por muitos motivos que vão render posts futuros. Mas decisão tomada, a vida segue.

Agora, faltam só 22 dias para que eu vá morar fora por um ano. Eu olho pra tudo isso e penso: “caramba, vou me separar de vocês de novo”. Tem um monte de livros que eu não consegui ler e que dói saber que não vou nem poder tocar por mais 12 meses. Vão ficar ali, esquecidos, pegando poeira. Também, quem manda comprar mais livros do que sou capaz de ler? A fila virou uma vergonha. QUando entrei na casa nova, ficou mais ridículo. Porque chegaram as caixas com dezenas de livros da fila anterior que se juntaram a dezenas que eu comprei nos últimos seis meses. Por que que a gente é assim?

É estupidez demais levar uns livros comigo. É pesado e eu vou comprar, e ler obrigatoriamente, mais algumas dezenas de livros no próximo ano. A lista preliminar que eu recebi do pessoal do curso inclui uns 20 livros, só para começar. Tem ainda tudo que eu vou acabar comprando por lá, naturalmente. Londres é cheia de livrarias deliciosas nas quais você se perde. E tem os jogos de tabuleiro, os comics, os filmes. Ai, caramba.

E por que eu estou me preocupando com livros quando o pior problema é, sempre, a solidão? É ficar longe da família e dos amigos? Porque os livros, os filmes são os grandes compensadores da solidão. São os companheiros dessa dor. Porque quando me imagino só, me vejo redirecionando essa energia, esse tempo sem ninguém, para a leitura daquela fila enorme de coisas pra ver e ler.

É claro que eu vou ter um monte de novos livros. Mas dói pensar que estou traindo aqueles que estavam lá na prateleira acenando pra mim, dizendo “puxa, é a minha vez!”. Me sinto traindo meus amigos. Depois de deixá-los jogados por meses num depósito frio, agora os abandono. Mas fazer o quê? É a vida que segue seu caminho.

Agora cabem

Quando Michael Mann filmou Fogo contra Fogo (Heat), Al Pacino e Robert De Niro não cabiam no mesmo enquadramento. Sério. Veja o filme de novo. Eles nunca estão inteiros, face a face, no mesmo quadro. É claro aqui, close ali, plano médio com um pedaço de um ator, plano médio do outro e assim vai.

Em setembro, 13 anos depois, os dois fazem um outro filme juntos: As Duas Faces da Lei. Agora estão menores. Suas obras, seus passados, estão imortalizados. Mas o tamanho dos dois, como chamarizes de bilheteria, diminuiu. Agora, eles podem até contracenar. Pode ser que isso seja bom para o cinema. Espero que não seja mais um dos caça-níqueis nos quais ambos (principalmente De Niro) andaram se metendo. Torço.

Os ganhadores do Eisner em Época SP

Alguns meses atrás, quando ainda estava desenvolvendo Época SP, uma das coisas que eu queria era colocar na revista uma HQ que quebrasse os moldes do que se faz em HQs de revistas não quadrinhísticas no Brasil.

Eu queria algo fora do padrão. Mas o era mesmo que eu queria? Entrou em cena o editor de arte da revista, o Marcelo Furquim. Amante de quadrinhos, ele sugeriu Fábio Moon e Gabriel Bá. Os dois são muito, muito bons. Eu tenho três álbuns deles e mais algumas antologias. Coisa fina, de primeira. Concordei na hora, mas achei que eles é que não iam querer.

Conversamos, tivemos algumas idéias e eles fizeram algumas propostas. Toparam trabalhar para nós por menos do que estão acostumados unicamente pela vontade de fazer um projeto diferente. Depois, demoramos mais alguns meses para achar o espaço certo pra eles. A primeira história saiu no número quatro, que chegou às bancas neste sábado, dia 26.

No dia 25, na véspera da chegada da revista às bancas, eles ganharam o Eisner, o prêmio máximo dos quadrinhos. Muito legal. Parabéns, rapazes! :)

Encruzilhadas

De vez em quando, sua vida chega a uma bifurcação. Você trabalha muito, se esforça demais, estuda, pesquisa, perde noites de sono e seus sonhos vão se realizando. Um depois do outro. De repente, dois sonhos se realizam ao mesmo tempo e são mutuamente excludentes. E aí?

E aí que chega a hora de escolher. Você adia, adia, adia… Mas em algum momento precisa pegar uma estrada. Não dá para se dividir.

Seis meses depois

Mais ou menos seis meses atrás eu me mudei para um apartamento temporário enquanto esperava a papelada do meu financiamento na Caixa Econômica Federal se resolver. As coisas se complicaram e eu tive que desfazer o negócio. Recomecei do zero a busca por um apartamento e acabei comprando outro imóvel no mesmo prédio do primeiro.

Nesse meio tempo, ficamos dividindo o apartamento com um amigo. Maior medão de dar errado, mas o Daniel, nosso roomate, é um cara tranquilo. Tudo podia ter dado errado dada a convivência com os nossos cachorros e os dele. Só que foi, fora os pelos e as babas, um período divertido. Sinto que entrei no apartamento com uma amizade e acabamos virando uma pequena família. Vou realmente sentir falta das nossas conversas de fim de noite e dos passeios noturnos com o Darwin e a Paçoca. Mas a vida segue seu rumo.

No dia 23 de junho de 2008, entrei oficialmente no apartamento. Ainda tinha cheiro de tinta, estava uma zona, mas já era o meu novo espaço. O lugar onde eu planejo viver pelo menos pela próxima década.

Estou esgotado depois de emendar o fechamento do número três da Época São Paulo com essa reforma-mudança e ainda alguns problemas pessoais. No meio disso tudo, acabei, pela primeira vez em anos, não indo nenhum dia ao Fashion Week. Mas, realmente, minha vida virou de cabeça pra baixo.

No meu primeiro fim-de-semana instalado, fiquei consertando um monte de pequenas coisas, arrumando meu escritório, jogando coisas e mais coisas fora. Começa a ficar com jeito e gosto de casa. Depois de tanto tempo, temos teto novamente. E tudo parece ter rolado num piscar de olhos. Esse é o defeito e, ao mesmo tempo, a virtude do passado. É mais fácil rir das dificuldades que já foram. O presente, no entanto, com suas reviravoltas, com suas escolhas muitas vezes traiçoeiras, é o que nos consome. No presente, eu perco noites de sono, assaltado pelo estresse. O passado vai sendo comprimido, ajuntado, transformado numa grande massa de lembranças.

Eu olho para trás e mal consigo lembrar dos meus anos de faculdade. Das minhas experiências em outros empregos. Tudo vira um resumo com poucos detalhes. Os nomes, os dias vão perdendo o peso. E a gente segue em frente sem olhar para trás. Ao mesmo tempo, eu lembro com riqueza de detalhes de momentos da minha infância. É como se, depois de uma certa idade, eu tivesse entrado em um modo de apreensão do mundo e da realidade que é menos atento, menos ligado. Enquanto que, na minha infância e parte da adolescência, eu estava atento a tudo.

Sei lá. É meu primeiro post sentado na nova escrivaninha do novo apartamento. Você me perdoa a digressão?

Vamos malhar!! Errr… Não!

Comprei meu Wii Fit.

Não vou virar um atleta por causa dele, mas tenho a sensação de que é um jogo capaz de fazer as pessoas começarem a se mexer mais. Até por uma questão ética, eles não prometem milagres. É porque, sem supervisão, seria criminoso induzirem as pessoas a malharem. Logo, logo, teriam que encarar infartos e contusões graves no histórico da empresa. Not funny.

O problema mesmo foi conseguir brincar com o Darwin (o labrador) e o Sagan (o maltês) querendo participar, pisando na plataforma e desequilibrando tudo. Mas foi um barato.

A inevitável decepção

É impossível ficar completamente satisfeito com qualquer coisa depois de esperar por ela por 19 (!) anos. Ou 15. Ou mesmo 10. Então acho que Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal não tem como vencer nosso mau humor coletivo.

Não. Peraí. Eu estou esperando o filme de coração aberto. Sou um filho do cinema pipoca. Eu me apaixonei por cinema e aprendi a gostar de cinema vendo os filmes americanos dos anos 80. Sou uma cria de Steven Spielberg que se soltou do rebanho. Comecei com ele, vi um monte de porcarias achando tudo lindo e maravilhoso e, quando notei, tinha mudado meu gosto. Mas a paixão inicial, a alfabetização. Eu devo a ele.

Fora os últimos meses, em que minha frequência cinematográfica caiu radicalmente, diversifiquei meus gostos, minhas expectativas e interesses. Quando vi, os filmes de ação não faziam mais o mesmo efeito. Eu não ficava eletrizado como antes. Mas eu continuo tentando, buscando aquela sensação gostosa de sair do cinema com um sorriso, um “uau”. No outro dia, vendo Homem de Ferro. Tive um lampejo disso.

Essa é uma espécie de anti-resenha de Indiana Jones 4. O filme foi exibido para a imprensa e eu não pude vê-lo. Estava atolado de trabalho. Agora, editando outra revista que não é de cultura pop, ver filmes e seriados não é mais minha atividade fim como jornalista. Mas tenho lido as resenhas e, pelo que vi, o resultado é meio cá, meio lá. Ninguém odiou o filme, mas não amou também.

Se você pensar, a expectativa virou um problema extra numa era em que diversas franquias com fãs apaixonados por décadas estão sendo reprocessadas por Hollywood. E a própria máquina hollywoodiana, usando a internet, se encarrega de criar mais interesse e expectativa ao divulgar o filme antes mesmo de produzi-lo.

Diante disso, qualquer filme chega, pelo menos para o público mais ávido, com uma expectativa irreal. É claro que a grande maioria mal sabe que o filme foi feito, nunca ouviu falar do personagem em questão e não se importa com essa máquina de divulgação. Só vê a caixinha na locadora e manda ver. Descobrir um filme bom -e desconhecido- numa prateleira é um prazer que eu nem sei mais como é.

Control + Z

Quem trabalha regularmente com computadores, seja no word, no excell, no open office, no powerpoint, sabe muito bem para que serve control + Z. É o UNDO, desfazer, voltar. Save game. Morri. Volto e tento de novo, um pouquinho diferente, pra ver se consigo desta vez. Talvez seja uma das maiores conquistas do mundo digital. Undo. Errei, porra. De novo!

É quase um superpoder e nossa sociedade atual está apaixonada pelos superpoderes, talvez porque eles estão cada vez mais possíveis.

Quem melhor entendeu isso foi Steven Johnson no sensacional Cultura da Interface (Jorge Zahar). Ele não toca em todos esses tópicos aqui, mas fala de como viver com as interfaces digitais muda nosso modo de pensar e de entender o mundo. Escrever hoje é muito diferente de como era 20, 30 anos atrás. Eu, que tenho 35 anos, comecei escrevendo em uma máquina de escrever olivetti do meu pai (caramba, como eu queria achar essa máquina só pra ter de lembrança…). Depois, usei um TK95, um CP400, um MSX da Gradiente e entrei no mundo dos PCs e dos Macs. Nunca mais toquei numa máquina de escrever, embora a gente pague tributo a elas todos os dias ao usar os teclados dos computadores, não vamos esquecer.

No outro dia, eu estava trocando mensagens no MSN com outras três pessoas ao mesmo tempo. Estávamos tendo uma conversa intensa sobre um monte de tópicos no meio da redação sem que ninguém mais pudesse nos ouvir ou saber do que estávamos falando. É uma forma de telepatia de texto. o grande Arthur Clarke dizia que a tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia. Pense em celulares, palms, computadores, pense nos trajes capazes de resistir ao impacto de uma bala. Nos carros, nas supermotos, nos pequenos aviões etc. Quanto mais portátil, mais invisível, mais a coisa se parece com magia.

No meio disso tudo, gadgets portáteis viraram minha obsessão. Ter um celular com GPS, com o google o tempo todo funcionando, já me tirou e enrascadas (e estourou minhas contas telefonicas). Quando eu era moleque, tive brigas de abalar a amizado por me perder de amigos em shopping centers ou grandes eventos. Hoje isso é impensável. Todo mundo está a um telefonema, um contato eletro-telepático, de distância.

Mas em várias instâncias de nossas vidas a digitalização e o control + Z não chegaram. Nós ainda podemos morrer e, se dissermos uma bobagem na hora errada, é beeem difícil consertar. Um dia, com a gravação de backups periódicos, uma pessoa poderá, perfeitamente, voltar da morte com a perda de algumas horas ou dias de sua memória. Os embriões de tecnologia estão todos aí. Isso tudo vai acontecer mais cedo ou mais tarde.

A parte mais difícil é a de consertar as besteiras que dissemos, que fizemos para as pessoas. Acho difícil que eu possa comprar na Fnac ou nas Lojas Americanas um “apagador de bobagens ditas no calor da discussão”. Não que isso seja impossível de criar. Só acho que é coisa que a gente vai achar somente na Santa Ifigênia do futuro. Será uma tecnologia pirata, possível, mas irregular.

Que eu considero bobagem. Por que? Porque num futuro em que tudo pode ser refeito, repensado, redimensionado. Num futuro em que podemos voltar atrás nos nossos erros, porque não ficaríamos mais permissivos com essas falhas? Se a interface pode influenciar nossas mentes, por que não mudaríamos nosso jeito de ser para algo mais compreensivo com as falhas alheias? Ok, falei besteira. Peço desculpas. Me excedi. A compreensão do cérebro para chegar a essas tecnologias vai, naturalmente, revelando o quanto somos passionais e passíveis de erros. Sabendo disso tudo, conhecendo nossas limitações, nossos desequlíbrios químicos. Fica mais fácil entender o outro. E é mais fácil usar o control + Z. Aquele interno, que depende só da nossa boa vontade.

P.S.: Você nem pode imaginar por que eu comecei a pensar nisso tudo… Li no Omelete que o Flash clássico, Barry Allen, está de volta aos quadrinhos da DC. Para os mais puristas, é um absurdo total. Esse personagem foi uma das poucas mortes “definitivas” da história dos quadrinhos (foi morto em 1985, na Crise). Mas o Flash viaja no tempo e em dimensões paralelas. O que eu sempre achei estranho foi o personagem não voltar. Eu, hein…

O fato é que os quadrinhos lidam com essas idéias intensivamente e têm um termo para isso: ret con. É quando eles recontam alguma história do passado e reescrevem a realidade para se adequar a alguma novidade. Um dos exemplos típicos para o grande público foi quando, em Homem-Aranha 3, enfiaram o Homem de Areia no dia da morte do tio Ben, que nós tínhamos visto no primeiro filme. Ret con ruim.