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Jobs e Gates: Los Pirata

Ontem, em homenagem ao cara, eu revi Pirates of Silicon Valley, que conta a história de Steve Jobs e Bill Gates até aquele histórico anúncio em que Jobs afirma a uma multidão transtornada de Macmaníacos que a rivalidade entre Microsoft e Apple tinha chegado ao fim, debaixo de um investimento salvador de US$ 150 milhões de dólares. É a dramatização do momento abaixo, para ser mais exato.

O filme é de 1998 e foi feito a toque de caixa para o canal TNT. Eu fui para Los Angeles conhecer e entrevistar todo mundo, então é um daqueles filmes que sempre me traz recordações bacanas. E olhe que, pra dizer a verdade, está longe de ser grande coisa. O diretor erra a mão em certas escolhas, os atores, mesmo fazendo um bom trabalho, estão mal dirigidos e cometem excessos meio ridículos em alguns momentos, a maquiagem com barbinhas e perucas é patética.

Mas, cacimba, imagino Aron Sorkin escrevendo essa história. Uau. Seria incrível. Olhando no contexto da década que veio a seguir é muito mais impressionante: Gates (que teve um papel importante na salvação da Apple) se aposentou e virou um benfeitor multibilionário. Jobs, se tornou o CEO mais bem sucedido da história (como eu disse aqui antes, eclipsando o grande Jack Welch, wow), capaz de revolucionar ou pelo menos sacudir a telefonia, a indústria da música (e do entretenimento) e o mercado editorial, sem falar na própria indústria dos computadores pessoais.

Jobs legitimamente curtiu o trabalho de Noah Wyle nesse filme e o convidou para uma brincadeira na Mac World de 1999. Veja:

Jobs (1955-2011) não era “só” um empresário

Desculpem meus muitos amigos que disseram isso hoje, mas afirmar que Steve Jobs foi “só” um empresário é de uma miopia sem par. A reação das pessoas ontem, espontânea, é só um sinal do impacto do que ele fez.

Ele não era meu amigo, nem meu irmão mais velho. Esses espaços estão felizmente bem ocupados por gente de verdade. Não raciocino em cima dessas bobagens.

Desde moleque eu só pude ler ou ver filmes e documentários sobre caras como Howard Hughes. Mas eu sou, fui, contemporâneo de Steve Jobs. E de gente fora de série como Bill Gates, Jeff Bezos, Larry Page, Serge Brin, Mark Zuckerberg, Evan Williams. Mas Jobs, até aqui, foi o maior realizador entre todos eles. Foi o cara que fundou e dirigiu a empresa que efetivamente revolucionou o meu mundo, a indústria da mídia de forma geral, por dentro e por fora. Reinventou indústrias, aparelhos, segmentos. O cara que fez Jack Welch, o homem que foi tido como o grande gestor do século 20, declarar sua admiração.

Jobs nunca se conformou com o que estava ali, ao seu alcance, e quis mais. E mais. Mais, mais, mais. Pro melhor e pro pior. Até mesmo na sobrevida de seu câncer, extrapolou todas as expectativas. Tinha todo o dinheiro do mundo a seu dispor. Vontade, determinação e recursos. Se alguém podia, de alguma forma, escapar. Se isso fosse possível. Jobs seria essa pessoa. Ao sucumbir à doença, ainda me ensinou uma lição extra sobre a finitude. Quando eu era menino, achava firmemente que um dia íamos vencer a morte. Ainda está longe e momento.

Eu não vou recitar, de novo, o discurso de Stanford. Nem repetir suas frases. Muito menos listar seus feitos um por um. Ou fracassos. Isso você encontra em outros lugares. Steve Jobs foi o cara que transformou meus anseios básicos da adolescência de ficção científica em realidade palpável.

Talvez seja dele a culpa da crise de identidade que eu vivo hoje (mais conhecida como… crise dos 40?). É um momento em que várias das grandes questões e idéias malucas e que pareciam irrealizáveis estão quicando e sendo resolvidas. E mais rapidamente do que eu esperava.

Então aí está. Será que Steve ajudou a me tornar obsoleto?

Enfim, tchau, Steve.

Minha tarde com Anselmo Duarte

“Tudo o que eu sabia desde menino é que não queria ser operário, como minhas irmãs. Queria fazer cinema. Quando criança, construí um projetor de slides com uma lata e uma lente.
Eu mexia com cinema como hobby e nunca pretendi ser ator, porque era tímido. O que eu sempre quis foi fazer filme, ser diretor. Só me tornei ator porque achei que seria a porta de entrada.”

Anselmo Duarte (1920-2009)

Parece que foi em outra vida. Em 2000, próximo ao aniversário de Anselmo Duarte, eu consegui convencê-lo a dar uma entrevista sobre sua vida. Ele estava fazendo 80 anos e, um tanto rabugento, não estava com o menor humor para comemorar.

Duarte foi um daqueles fora de série esmagados por não se alinhar com as correntes que dominavam a cultura brasileira. Como não era amigo dos intelectuais de esquerda do cinema nacional, foi ignorado e excluído. Depois da Glória da Palma de Ouro em Cannes, ainda não repetida por outro cineasta brasileiro, nunca mais conseguiu emplacar filmes a altura de seu talento.

Nas conversas por telefone antes do encontro, já demonstrava seus ressentimentos. No dia do encontro, foi um anfitrião simpático. Passeou pela vizinhança, mostrou o belo e confortável apartamento e, como o típico homem que já não tem mais medo de nada porque já viveu de tudo, falou sem reservas. Estou procurando a fita aqui para tentar digitalizar e colocar a disposição no blog.

A entrevista com ele, publicada pela folha em Abril de 2000, está AQUI

Entrevistei pelo menos três personalidades que julgo importantes e que morreram nos últimos anos. As outras duas são o Dr. Rinaldo Delamare, autor do Livro do Bebê, e o desenhista Flavio Colin, autor de milhares de histórias em quadrinhos que embalaram a minha geração. E eu não acho essas fitas.

Michael Jackson morreu e o mundo (inteiro) fez seu tributo

Ontem, o mundo acompanhou em tempo real pela internet o destino de Michael Jackson. Eu ficava pulando de site em site pra ver se os grandes e mais respeitados confirmavam o que o TMZ já tinha publicado: Michael Jackson estava morto. Ponto final.

Incapazes de confirmar a história, CNN, New York Times, Guardian, Reuters e dezenas de outros sites respeitáveis tentavam checar as informações antes de dar o comunicado final. A CNN optou por colocar uma foto de Jacko dando tchau, sinal de que o pessoal provavelmente já sabia que o cantor estava morto, mas, por uma questão de princípios, estava esperando múltiplas confirmações de fontes para dar o comunicado oficial.

(Quando informaram, colocaram na conta do Los Angeles Times. O leitor desavisado pode até achar que é uma forma de tirar o corpo fora. Não necessariamente. É outra coisa. É dar crédito a quem informou e confirmou primeiro. É a velha mídia tentando incorporar certos hábitos dos novos tempos.)

Hoje, já começaram os perfis, obituários, edições especiais e toda a parafernália que cerca esse tipo de evento. É a velha mídia tentando faturar o que puder em tempo de vacas magras. Aliás, hoje, o dia seguinte a um evento como esse já parece uma eternidade pra quem acompanhou tudo em tempo real e leu um monte de coisas ou viu vídeos (tudo editado às pessas) nos sites e na TV à noite. A título de contraste, Farrah Fawcett, cuja morte foi anunciada por meses, por conta do câncer, acabou sendo ofuscada pelo fim de um popstar inesquecível.

As empresas jornalísticas sérias tentavam dar uma dimensão da importância do artista e exploravam vários ângulos, alguns impiedosos, sobre como um homem que ganhou tanto dinheiro chegara naquela situação. Afinal, Michael Jackson foi considerado uninsurable pelas grandes seguradoras. Estima-se que o prejuízo da AIG (a empresa que promoveu a volta de MJ) pode chegar a £300 milhões.

Agora, dá-lhe especulações sobre o quanto Jacko estava com a saúde comprometida, desesperado por algum dinheiro que o tirasse da situação financeira desastrosa e, por conta disso, aceitou uma “encomenda” que seria incapaz de entregar. Nos bastidores do showbiz, havia um enorme ceticismo a respeito das performances do cantor. Nas bolsas de apostas, especulava-se quantas apresentações seriam canceladas.

Não foi uma, nem duas. Todas.

Bom, hoje eu passei em frente ao Lyrics theatre, que apresenta o musical Thriller, com vários artistas interpretando sucessos da carreira de Michael Jackson. Ali, várias pessoas depositavam flores, colaram posters e prestavam uma homenagem ao ídolo. Em todo canto, tocava-se Michael Jackson. Nos sites de downloads (legais e ilegais) só dava você sabe quem. Nas lojas que vendiam os ingressos para os shows pelo triplo do preço original, ainda havia alguns cartazes toscos que os donos esqueceram de tirar das vitrines. É uma ressaca.

Eu vivi o auge de Michael Jackson nos anos 80. Não fui ao show no Brasil, mas ia ao daqui de Londres (presente de um amigo que vem me visitar). Quem sempre foi fãnzona de Michael Jackson mesmo é a Mônica, que chegou a ir de São Paulo ao Rio de carro ouvindo os maiores sucessos de Jacko no repeat do CD player.

O Twitter parou. O Google sentiu o baque. De vez em quando a gente é lembrado que, na era do Long Tail, dos microsucessos, ainda existem titãs midiáticos andando sobre a Terra. Jornalistas e blogueiros novidadeiros acabam esquecendo que artistas com muita estrada, apesar de parecerem não fazer mais barulho nenhum, formam públicos enormes que atravessam gerações e são capazes de criar ondas de choque impressionantes.

Eles são poucos. São mesmo uma raça em franca extinção. Ontem, um dos maiores, e dos últimos, se foi.

Arthur Clarke (16.12.1917-19.03.2008)

Ele morreu e, como meus maiores ídolos (Sagan, Asimov…), não quis funeral religioso.

É bom, porque adoram inventar que grandes ateus da história humana ficaram religiosos perto do fim. O que não é verdade.

Arthur Clarke foi grande. Mudou minha vida, junto com alguns outros autores relevantes de ficção e divulgação científica. Quando eu era adolescente, cheio de idéias subversivas de que o mundo não era exatamente como andavam me dizendo que era, foram ele, Asimov, Sagan, Stephen Jay Gould e alguns outros cientistas e escritores que me ajudaram a entender que eu não estava só. Que aquelas idéias não eram tão estranhas e absurdas. Tendo sido criado numa família católica, eles foram minha vela na escuridão.

Todos foram embora. Ontem foi a vez de Clarke, o último deles. Deixou um legado indiscutível.

A profecia concretizada

pauloautran.jpgPouco menos de um ano atrás, em um almoço de trabalho, Hector Babenco falou de seu filme, depois de mostrar algumas cenas, e fez uma observação que me incomodou profundamente: “Este pode ser o último filme de Paulo Autran, porque ele está tão velhinho. Eu fiz tudo pra trabalhar com ele. Era um sonho.”

É óbvio que Babenco queria falar de seu carinho pelo ator e da sensação que tinha de ter trabalhado com ele. Mas soou tão, sei lá, seco, deselegante profetizar a morte de uma outra pessoa que fiquei com uma impressão ruim por meses. Quando Autran morreu ontem, confesso que tive uma raiva meio irracional de Babenco, como se ele fosse culpado do câncer do ator. Mas é que aquela afirmação, aquela sentença, ficou martelando no meu cérebro.

De Paulo Autran só tive a sorte de ver duas peças: Visitando o Sr. Green e O Avarento, seu último trabalho. Adorei a primeira e fiquei um pouco entediado com a segunda. Já vi montagens mais inspiradas de Moliére por aí e, afinal, não era o ator na potência máxima. Mas mesmo claramento cansado e sem mobilidade, aos 85 anos, era por ele que estavam todos naquela sala

Por fim, uma referência que ele provavelmente jamais aprovaria. Uma das coisas que eu adoro no John Constantine dos quadrinhos é aquela prática de rir da morte e de aproveitar tudo que a vida lhe dava. Constantine recebe um novo pulmão e, nos quadrinhos, aproveita a deixa para fumar. Afinal, se o grande motivo pra não fumar seria ficar doente, não precisava se preocupar, zerou tudo. No filme, feito pela Hollywood antitabagista, larga o cigarro. Autran fez pontes de safena e, no último ano, lutou contra um câncer de pulmão. Diante da proximidade da morte, se recusou a abandonar o prazer que, provavelmente, o matou. Fumou e fumou, porque a vida é curta. Mesmo para um gênio de 85 anos.