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As caixas, as traças e as lembranças

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Mamãe vai se mudar depois de 36 anos. Vai para um apartamento menor. O atual abrigou uma família de cinco pessoas (em diversos momentos, até mais gente). O novo apartamento só precisa de um quarto de hóspedes e um sofá-cama. Mamãe, seu companheiro e, ocasionalmente, nós, as “crianças”.

E, claro, muita coisa vai pro lixo. Resta abrir as caixas do passado e decidir o quê.

Eu abro uma caixa empoeirada e o tal passado do qual só lembro fragmentos pula junto com as traças. Fotos, poemas de adolescência, redações, contos, meus primeiros jornais experimentais, cartazes da loja que eu e o Cristiano abrimos lá no meio dos anos 90, agendas com anotações ridículas (e, por isso, engraçadíssimas), cartões de amores platônicos, de ex-namoradas e da mulher com quem me casei e vivi pelos 20 anos seguintes.

Uma prima de uma ex-namorada me mandava cartões e mais cartões em que dizia o quanto me adorava e se dava ao trabalho de escrever meu nome 100 vezes nas bordas. Era, claro, só amizade. Poemas malucos e escritos de forma completamente bizarra por meninas que se sentiam obrigadas em retribuir meus arroubos românticos. Nota dez pelo esforço. Eu tive meus diversos amores platônicos também. Não-relações nas quais tudo se resume a negar o óbvio. As meninas que eu, não sei por que, fingia não estar interessado quando, na verdade, estava completamente obcecado. Ainda bem que adolescentes crescem. Bom, alguns pelo menos.

Lá estão os contos que eu escrevi na fila do banco, quando trabalhei como office boy e passava horas de um lado para outro da cidade. Ruins, claro. Mas cheios de frescor. Artigos desastrados e desencontrados, sem coordenação básica do raciocínio. O roteiro do curta-metragem que eu quis fazer para exorcizar a morte do meu irmão. Era uma trama de viagem no tempo misturada com realidade virtual. Muita energia, muitas vontades não concretizadas totalmente.

E, claro, nada disso vai pro lixo. Vou me dedicar nos primeiros dois meses de 2014 a reler tudo. Cada papel. Só depois de lidos um por um, alguns vão, sim, pro lixo. Mas outros vão para a lista do que eu quero fazer no resto da minha vida. Refocar, lembra?

Dizem que, aos 40, você inevitavelmente vive uma revisão. Algumas pessoas, como eu, precisam viajar ao passado e se reencontrar. Falar com aquele menino (ou menina) e perguntar pra ele: o que você quer ser quando crescer? Não é que essas respostas vão resolver tudo. Mas elas vão te ajudar a lembrar o que te fez chegar até aqui. Foi aquela energia incrível e uma vontade de arrombar a porta do mundo. Era uma energia tão poderosa que o impulso dela te empurrou por décadas e agora, quando você precisa refazer as perguntas, por que não ir lá para rever o que você deixou pra depois e ainda não realizou? Algumas descobertas incríveis surgem. Estão surgindo.

E eu repito algo que será meu mote em 2014: Preste atenção.