Arquivos da categoria: Política

Feliciano representa seus eleitores

Marco_Feliciano

Marco Feliciano tem a atitude dos espertalhões. Está usando seus opositores como combustível para construir uma ligação ainda mais forte com seus eleitores. É do jogo. Desistir de protestar contra ele é dar-lhe a chance de continuar fazendo o que sabe: escolher cirurgicamente projetos absurdos sabendo que a polêmica gerada por eles só vai aumentar seu eleitorado nas próximas eleições. Ele mesmo disse que, quem protesta não vota nele. É a lógica do legislativo, que trabalha para sua base, em contraste o executivo, que precisa governar para todos.

É como eu disse no outro dia. Alguém sempre representa está sendo representado. E quem tem mais gente por trás, tem força. Por mais odioso que seja, Feliciano representa as crenças e interesses de seus eleitores (até certo ponto). Suas demandas, por mais irritantes e retrógradas, são as do grupo que o elegeu. A hipocrisia e as declarações oportunistas que torcem a lógica são um bônus.

A questão mais importante é saber por que muitas das pessoas que se manifestaram contra ele desistiram. Os números de manifestantes contra Feliciano foram minguando, minguando e ele sentiu que o pior tinha passado. Sentiu-se seguro. E, mais importante, usa a atenção de projetos absurdos, estúpidos, preconceituosos como a “cura gay” para ficar em uma evidência desproporcional à sua estatura. Ele sabe que o projeto não vai passar, mas sabe também que, até lá, será alvo de protestos dos grupos que seus eleitores repudiam. Logo, só reforça os laços com seus eleitores.

Quando as manifestações contra ele diminuíram, Feliciano venceu o round. Como será a história a partir daqui?

O umbiguismo é muito poderoso

 

Não me assusto com opiniões absurdamente divergentes. Essas estão no direito individual e vão disputar seu espaço na discussão democrática (de repente, o termo “discussão democrática” ficou surradinho).

O que me assusta é a total ignorância a respeito do fato de que existem outras opiniões e que elas merecem ser apreciadas, do mesmo jeito que a sua. É o total desconhecimento da existência do outro. Ou a desqualificação automática do que o outro tem a dizer.

É assustador o momento em que uma pessoa declara “O Brasil não é aquilo, é ISSO” de forma categórica. Agora sim chegou a verdade. A sua verdade é a verdade verdadeira. O resto está, simplesmente, MUITO errado. E, pior, esse umbiguismo não é retórica. É uma afirmação convicta. Vem do fundo do coração.

A mentira retórica é nojenta, mas é uma construção racional. A pessoa está mentindo, mas pelo menos entende o que está fazendo e, deliberadamente, torce o discurso para ganhar uma discussão.

Mas há quem acredite no que está dizendo de coração, não importa o quanto esteja desconectado do mundo, o quanto seja egoísta e irreal. Acreditar em algo é poderoso.

Nota: Não vou personalizar essa discussão. Mas vamos levar em conta que a pessoa que veiculou o vídeo acima o fez de livre e espontânea vontade e permitiu que seu  fosse “embutido” (“embedded”) em sites externos.

Me engana que eu desgosto

É desolador ver Weslian Roriz (PSC) falando. Não só por ela, mas pelo cenário que ela, indiretamente, revela.

Uma coisa é não ter o domínio da habilidade de falar para a câmera. Alguns bons políticos não eram bons oradores, principalmente teleoradores.

Também não é só pelas promessas vazias, desprovidas de substância e reflexão. NAs frases que andam em círculos porque a candidata parece não ter idéias.

É que ao olhar para Weslian Roriz, você vê que a grande diferença entre ela e a maioria dos candidatos é o treino. Suas promessas são tão fictícias quanto a de outros que falam melhor e dominam a narrativa da TV. Ela só não sabe enrolar tão bem quanto eles. Sua inabilidade absoluta a expõe, mas expõe também a falta de qualidade em outras praças, não só no DF.

É constrangedor, mas periga desviar nossa atenção para os outros Weslians mais espertinhos que estão nos cercando e nos governando. Os otários, incultos e despreparados são eles ou nós?

Olimpíadas do Rio 2016: Lula teve méritos, mas não sejamos inocentes

Pele-and-Lula-celebrate-R-001

Lula, Nuzman, Pelé e uma cabeçada comemoram a vitória da candidatura do Rio para as Olimpíadas de 2016

Vale dizer, Lula tem méritos enormes no triunfo da candidatura do Rio. Mas não vamos ser inocentes. A coisa toda é relevante para os planos eleitorais do PT.

Não estou aqui nem recriminando. O político que ignorar o valor de uma vitória como essa é um tolo. Basta ler o New York Times e o Chicago Tribune para ver o impacto negativo (explorado, claro, pelos vorazes Republicanos) do fracasso da visita de Obama ao COI para defender a candidatura de Chicago.

Lula foi astuto, como aliás, sempre tem sido. Tomou para si o mérito da vitória da candidatura carioca e ofuscou outros políticos, como Sérgio Cabral Filho e Eduardo Paes. Pessoas mais ativamente envolvidas na montagem de toda a estrutura da campanha da cidade.

Continue reading

A não tão Grã-Bretanha

Foi assustador chegar na Inglaterra exatamente no momento em que a crise mundial estourou. Eu paguei R$ 3.70 numa libra quando fui. Nos primeiros dias da crise, o valor subiu e eu só me ferrei. Depois, as coisas esfriaram e, quando voltei, a libra estava valendo R$ 3.20, só para se ter uma idéia. Nas ruas, vi negócios fechando todas as semanas. Grandes redes de varejo, pequenas livrarias com décadas de idade e um clima de incerteza.

Os jornais, claro, refletiam esse gloom. Escândalos políticos e uma vigília sobre qualquer um que parecesse esbanjar dinheiro se tornaram coisa comum nos diários. A coisa não estava mesmo boa pro lado dos brits.

Esse artigo da Newsweek só tenta resumir em algumas páginas o que a Economist está dizendo há muito tempo. Deve ser por isso que a Economist só ganha influência enquanto a Newsweek se dissolve diante dos nossos olhos. Um artigo de Alex Massie, exclusivo do site da revista, tenta equilibrar o tom sombrio do artigo de de capa. Empilha alguns números e relativiza a crise. Diz um monte de coisas certas, mas perde autoridade pelo tom meio revanchista.

Mas, de qualquer modo, se você quer uma visão geral e resumida do ocaso anunciado do Grã-Bretanha, vale ler.

Alguém leva mesmo a Fox News a sério?

Dos Estados Unidos, eu só me interesso por dois canais; Comedy Central e Fox News. Eu gosto de rir, oras!!! A Fox News é tão absurda que parece o The Onion. Não tem vergonha de apresentar os comentaristas e entrevistados mais absurdos. Esse, no vídeo a seguir, afirma que a única chance da América é se Osama Bin Laden lançar um novo ataque em solo americano.

Ouch!

(Vi no Twitter do Clay Shirky)

O discurso de posse: nota oito com louvor

O discurso de posse do presidente Obama decepcionou muita gente por ter sido menos emocionante do que os dos grandes momentos da campanha (o G1 tem a versão original e uma tradução).

Ainda bem. É nota oito. Com louvor.

Foi um discurso lúcido, inteligente e que tentou mostrar que a América se coloca em uma posição tolerante e multilateral, humanista e olhando pro futuro. Obama falou de força exercida com humildade (é possível?) de um país que não tem vergonha de seu modo de vida, mas sabe que precisa estar consciente do mal que esses estilo de vida pode causar das nações ao seu redor. Muito, muito lúcido.

É tanto cuidado na retórica que dá até medo de que ele acabe hesitante e, infelizmente, fraco como Jimmy Carter. Bush, por seu lado, usava uma retórica medíocre, sem nenhum cuidado para justificar seus passos. Ele ia em frente, quebrando todos os vasos da loja. Um paquiderme desajeitado conduzido por um treinador mal intencionado, seu vice-presidente.

O que me agrada na lucidez é que fica clara a real intenção de Obama de desescalar a retórica. De sair dos exageros de campanha. Achei bem estruturada a forma como ele diz tudo que vai fazer, mas que nada funciona se o país não estiver interessado em se unir. Se as pessoas não se juntarem em torno de seus princípios.

Num momento em que todos esperavam um triunfalismo, figuras coloridas de linguagem. ELe teve a coragem de fazer um discurso mais frio. De economizar nos crowd pleasers. Entenda o funcionamento dos discursos. Os presidente dá sua mensagem e sempre prepara alguma frase para levantar a platéia e angariar aplausos em alguns pontos. Como quando ele lista os desafios que o país tem pela frente, fala, fala, e fala e termina com: América, vamos vencer esses desafios! Aplausos!! Ou quando ele fala aos terroristas e às nações inimigas e avisa: vamos vencer vocês! Aplausos, aplausos. Ele cuidadosamente vai além desses truques e se dá ao luxo de dizer coisas difíceis.

Como por exemplo, avisar que essa nação é dos cristão, muçulmanos, judeus… e ateus (non-believers) também. Provavelmente deve ser a primeira vez que um presidente americano faz isso em um grande discurso. Note como ele é recebido com silêncio quando fala das qualidades da humildade e auto-controle. Silêncio. Mas ele diz o que tem que ser dito, mesmo sabendo que não é exatamente o que vai fazer o povo americano pular de alegria. Um dos sinais da grandeza de um líder está em saber exercer seu poder de forma civilizada, com grandeza.

Existe uma razão para o fato de que o mundo todo assistiu à posse de Barack Obama. Ontem, na faculdade, estávamos fazendo um trabalho de grupo simulando uma consultoria para mudar a estrutura de um jornal e havia momentos de troca de salas e reuniões. Numa sala onde havia um iraniano, dois chineses, uma egípcia, um sul-africano e uma Islandesa (entre os que me lembro), havia também três computadores conectados no live feed da CNN, de olho na posse e no discurso. Nos corredores da faculdade, os telões, que estão sempre sintonizados na BBC News, mostravam a posse, claro. Sendo o líder da nação mais poderosa economica e militarment falando, cada passo da América nos influencia. Temos que nos interessar, claro.

Pois me agradou esse humanismo, essa clareza, essa intenção de dar o exemplo. Será que isso vai se materializar em um bom governo? Que ele vai ficar só na retórica e se perder? Não sei. Mas a gente dá um passo depois do outro. Não há nenhuma razão para achar que ele vai ser fraco porque quer ser justo. Uma coisa nada tem a ver com a outra. Essa retórica de que fazer a coisa certa, gera sempre ações negativas e até impopulares só serve a quem precisa disso pra ir dormir tranquilo enquanto invade países livres e ignora deliberadamente a própria constituição.

Algumas pessoas acham que é só um discurso. Não. Um discurso é, sim, uma carta de intenções clara. Se um discurso fosse sempre algo vazio, os de Bush poderiam ser sempre bacanas e cheios de palavras bonitas. Não eram. Eram peças com a função de justificar seus atos absurdos. Um discurso de um estadista é algo importantíssimo para nos dizer o que ele quer fazer. A realidade se instala e um monte de intenções ficam no caminho. Mas o rumo está lá, nas palavras cuidadosamente escolhidas. Pavimentar um futuro com novas fontes de energia, exercer a força com justiça, trabalhar, reformar as escolas não porque elas precisam de giz, mas porque elas carecem de idéias. São princípios sólidos que mostram que ele sabe os problemas. Se vai conseguir enfrentá-los é que é a grande questão. É o drama que veremos se desenrolar pelos próximos quatro ou oito anos.

Os donos do mundo

Vi no Jezebel (imagem: Getty)

Os donos do mundo se encontram na sala oval.

A única coisa que me ocorre é que, em 13 dias, o cara ao centro estará fora dali e não vai voltar. Eu, que mesmo tendo um visto válido fui deportado uma vez por uma tecnicalidade maluca da américa pós-11 de setembro, sinto um prazer especial em vê-lo indo embora. Espero que os Estados Unidos mudem de rumo. Mas, no fim, muda na superfície. O presidente americano é, para todos os efeitos, um senhor da guerra. Uns são mais, outros são menos. Mas a essência do papel não muda.

Ao mesmo tempo, a cada mandato, a cada novo presidente, o poder se desvanece. O pode militar pode continuar existindo, mas a capacidade de cada novo presidente de mudar as coisas é menor. O mundo se descentraliza e um governante, sozinho, não consegue mais resolver os problemas como antigamente. Resta torcer para que Obama, o cara que entendeu como poucos o poder da mobilização, saiba fazer isso estando no poder. Não perca essa ferramenta de vista. Teremos anos curiosos pela frente e vamos ver qual será o tamanho da decepção. Não com os sonhos vendidos por ele, esses eram só isso, sonhos. Mas do quanto um cara inteligente e aparentemente esclarecido vai ser capaz de fazer as coisas certas quando tiver a chance.