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O jornal do futuro é mais ou menos assim

Há muita espuma e muita discussão sobre como os jornais vão sobreviver às intensas mudanças nos hábitos e gostos dos leitores por conta dos avanços tecnológicos.

Pouca gente sai da discussão à ação. Coloque aí o NYT, o Finacial Times e o Guardian. O último é justamente o menor dos três, mas, audacioso, vem crescendo e ganhando força. A Internet fez bem ao Guardian e o Guardian é bom demais justamente na Internet.

Essa campanha, genial, é só a ponta do iceberg. Se você quer saber mais sobre a abordagem do Guardian ao que eles chamam de Open Journalism, precisa acompanhar tudo na seção que ele construíram especialmente para discutir o tema.

O “jornal do futuro” não se parece com um jornal

A Folha se relançou como o “jornal do futuro”. Eu tenho aquele carinho meio cego pelo jornal. Ela tem um papel especial na virada que eu dei na minha vida lá no início dos anos 90. Então é com dor no coração que vejo minha velha casa meio perdidona nos novos tempos.

EU nunca consegui me conectar emocionalmente com o Estadão. Acho o jornal bem feito, tem várias coisas que eu gosto. Mas em SP sou folheiro de carteirinha. Mesmo nos momentos estranhos do jornal, como nos últimos anos. Cresci com O Globo no Rio (meu pai era um leitor assíduo e eu herdei o hábito. Hoje sinto falta se não leio o Globo regularmente) e passei a ler a Folha no início dos anos 90, quando começou a ficar mais fácil achá-la nas bancas cariocas do centro. Mas como trabalhei na Folha, fui trainee lá, tenho um carinho enorme.

Acho que foi por isso que a campanha do Jornal do Futuro me soou tão… triste. Porque não havia nada de realmente novo no jornal. Umas mudancinhas cosméticas muito tímidas aqui e ali e um slogan que prometia e não entregava.

Aí surge o Diário de São Paulo e me traz um negócio realmente surpreendente. Não tem um décimo do prestígio de Folha ou Estadão. Mas oferece uma experiência de leitura inesperada para um jornal diário no Brasil.

Vamos admitir que é muito mais fácil mudar um jornal que estava encurralado em sua irrelevância e não tinha muito a perder. Mas o fato é que grandes jornais são um emaranhado de cadernos. Não seria um enorme absurdo implementar mudanças mais radicais em um caderno e ir experimentando e preparando seus leitores para a mutação. Se você acha que isso é impossível e já começou a dizer “não dá”, “não é tão simples assim” e outras manobras defensivas, precisa urgentemente se reciclar. Não é que o século 21 começou ontem. Já se vai uma década. Não há mais desculpa para ficar repetindo o velho indefinidamente.

O jornal do futuro pra mim é o de amanhã. E para que ele chegue, a gente precisa fazer um bom jornal hoje. Ou em vez do seu jornal, vai ter um concorrente embrulhando peixe… amanhã.

Michael Jackson morreu e o mundo (inteiro) fez seu tributo

Ontem, o mundo acompanhou em tempo real pela internet o destino de Michael Jackson. Eu ficava pulando de site em site pra ver se os grandes e mais respeitados confirmavam o que o TMZ já tinha publicado: Michael Jackson estava morto. Ponto final.

Incapazes de confirmar a história, CNN, New York Times, Guardian, Reuters e dezenas de outros sites respeitáveis tentavam checar as informações antes de dar o comunicado final. A CNN optou por colocar uma foto de Jacko dando tchau, sinal de que o pessoal provavelmente já sabia que o cantor estava morto, mas, por uma questão de princípios, estava esperando múltiplas confirmações de fontes para dar o comunicado oficial.

(Quando informaram, colocaram na conta do Los Angeles Times. O leitor desavisado pode até achar que é uma forma de tirar o corpo fora. Não necessariamente. É outra coisa. É dar crédito a quem informou e confirmou primeiro. É a velha mídia tentando incorporar certos hábitos dos novos tempos.)

Hoje, já começaram os perfis, obituários, edições especiais e toda a parafernália que cerca esse tipo de evento. É a velha mídia tentando faturar o que puder em tempo de vacas magras. Aliás, hoje, o dia seguinte a um evento como esse já parece uma eternidade pra quem acompanhou tudo em tempo real e leu um monte de coisas ou viu vídeos (tudo editado às pessas) nos sites e na TV à noite. A título de contraste, Farrah Fawcett, cuja morte foi anunciada por meses, por conta do câncer, acabou sendo ofuscada pelo fim de um popstar inesquecível.

As empresas jornalísticas sérias tentavam dar uma dimensão da importância do artista e exploravam vários ângulos, alguns impiedosos, sobre como um homem que ganhou tanto dinheiro chegara naquela situação. Afinal, Michael Jackson foi considerado uninsurable pelas grandes seguradoras. Estima-se que o prejuízo da AIG (a empresa que promoveu a volta de MJ) pode chegar a £300 milhões.

Agora, dá-lhe especulações sobre o quanto Jacko estava com a saúde comprometida, desesperado por algum dinheiro que o tirasse da situação financeira desastrosa e, por conta disso, aceitou uma “encomenda” que seria incapaz de entregar. Nos bastidores do showbiz, havia um enorme ceticismo a respeito das performances do cantor. Nas bolsas de apostas, especulava-se quantas apresentações seriam canceladas.

Não foi uma, nem duas. Todas.

Bom, hoje eu passei em frente ao Lyrics theatre, que apresenta o musical Thriller, com vários artistas interpretando sucessos da carreira de Michael Jackson. Ali, várias pessoas depositavam flores, colaram posters e prestavam uma homenagem ao ídolo. Em todo canto, tocava-se Michael Jackson. Nos sites de downloads (legais e ilegais) só dava você sabe quem. Nas lojas que vendiam os ingressos para os shows pelo triplo do preço original, ainda havia alguns cartazes toscos que os donos esqueceram de tirar das vitrines. É uma ressaca.

Eu vivi o auge de Michael Jackson nos anos 80. Não fui ao show no Brasil, mas ia ao daqui de Londres (presente de um amigo que vem me visitar). Quem sempre foi fãnzona de Michael Jackson mesmo é a Mônica, que chegou a ir de São Paulo ao Rio de carro ouvindo os maiores sucessos de Jacko no repeat do CD player.

O Twitter parou. O Google sentiu o baque. De vez em quando a gente é lembrado que, na era do Long Tail, dos microsucessos, ainda existem titãs midiáticos andando sobre a Terra. Jornalistas e blogueiros novidadeiros acabam esquecendo que artistas com muita estrada, apesar de parecerem não fazer mais barulho nenhum, formam públicos enormes que atravessam gerações e são capazes de criar ondas de choque impressionantes.

Eles são poucos. São mesmo uma raça em franca extinção. Ontem, um dos maiores, e dos últimos, se foi.

Não era para ser um mundo melhor?

Vou simplificar o que todo mundo quer complicar.

Quando o pessoal fala em blogs, em nova mídia e tudo que vem com ela, uma dos motivos de festa sempre foi o de que todo mundo ia ter voz num mundo em que a tal velha mídia não tinha mais a mesma credibilidade.

Aí, surgem os anúncios, os posts pagos e o pessoal corre atrás de centavos como o burrico tentando pegar a cenoura. Não dá, né, pessoal. Tem que ser diferente. É preciso lutar por algo melhor do que isso. Me deprime ver blogueiros bons, com textos ótimos, vendendo os temas de seus textos a quem pagar mais.

Podem espernear, podem reclamar, podem chamar quem torce o nariz de purista. O fato é que não foi com isso que a gente sonhou. Um mundo sem posts vendidos é bem melhor. Ou vocês vão continuar fingindo que não é?

E então? O que você faz quando pode fazer qualquer coisa? Os melhores blogs? Os mais inovadores? Com os melhores textos e idéias? Ou apenas aquilo que seus, hum, patrocindadores permitem?

Vamos em frente? O meio blog quer mais do que estamos entregando.