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Petit comité

Quando ganhou o Oscar por Man on Wire, Philippe Petit teve a manha de fazer um truque com moeda na hora do seu agradecimento. Petit adora mágica. No vídeo abaixo, ele e David Blaine se encontram casualmente nas ruas de Nova York. Blaine, na época pouco conhecido, não sabia quem era Petit. Os dois começam uma elegante disputa…

Humilhante: Dan and Dave Buck

O mundo da mágica sempre teve grandes manipuladores de cartas com movimentos incríveis. Mas nunca houve ninguém como Dan e Dave Buck. Eles são irmãos gêmeos, dois moleques, e o que eles fazem com as cartas é absolutamente inacreditável.

Ontem, por apenas £10 eu pude curtir duas horas de seminário deles ao vivo. E os caras são realmente impressionantes. EU estava ali na primeira fila vendo os movimentos a pouco mais de um ou dois metros e com ângulos desfavoráveis e ainda assim era tudo… mágico. Aí, eles páram e mostram o movimento em “câmera lenta” e você não acredita que eles fizeram aquilo tudo numa fração de segundos.

Mais interessante é que todos os movimentos são releituras de clássicos. Eles vão citando o tempo todo de onde veio cada rotina (como bons nerds, dizem até a página do livro), mas sempre adicionam um toque especial, um refino. Bom, é isso que se espera deles.

O ponto desfavorável do nível absurdo deles é que a platéia não consegue acompanhá-los. Sério. Um monte de mágicos profissionais e amadores na sala simplesmente não consegue repetir a maior parte dos movimentos. Mesmo os mais simples. Em princípio, isso é compreensível, porque cada movimento requer prática mesmo. Você vê como é ali e vai pra casa passar duas semanas treinando aquela rotina até sua mão entender como se faz aquilo. Um dia, do nada, você entende. A coisa fica natural e você mal consegue explicar por quê.

Mas ali, fora eu que sou bem fraquinho nesses movimentos absurdos, eu esperava mais fãs dos Buck que tivessem visto os DVDs e usassem o encontro para tirar dúvidas e tietar. Parece que havia mais gente na minha liga do que eu imaginava.

Uma outra coisa interessante é que muita gente despreza os dois como se eles fossem meros malabaristas em vez de mágicos. Bobagem. Intriga. O que eles fazem é impressionante. Fazer uma carta mudar diante dos seus olhos, a um metro de distância, é um negócio impressionante. Não é uma carta especial. Não é um maço de cartas trucado. É instantâneo. É uma das coisas mais próximas de mágica de verdade que você vai experimentar.

O pensamento mágico

Em O Mundo Assombrado pelos Demônios, Carl Sagan conta que, quando era pequenininho, estava conversando com sua mãe e ela disse que estava acontecendo uma guerra do outro lado do oceano Atlântico. Ele apertou os olhinhos e disse: “Ih! Eu tô vendo eles brigando, mãe!”. Ela, carionhosamente, cortou a viagem dele. “Não, filho. Não está. É impossível ver o que está acontecendo do outro lado do oceano.”

É uma forma de Sagan dizer que sua mãe nunca criou um mundo mágico pra ele.

Pois hoje eu tive um momento sui generis. Um dos meus colegas de mestrado, indiano, veio até o meu apartamento estudar comigo. Estamos sentados à mesa de trabalho, trocando arquivos nos nossos macs via rede sem fio e ele olha pra um dos meus livros sobre mágica. Pensa um pouco e pergunta. “Então. Esses shows de mágica… É tudo truque mesmo? Não tem nada de sobrenatural?”

Fiquei surpreso com a pergunta sincera dele. Meu amigo é inteligente e articulado. Se destaca numa turma com 45 pessoas de todos os cantos do mundo. Mas para ele, mesmo um mágico, o proverbial farsante profissional, poderia ter poderes… mágicos.

Peguei um maço de cartas, fiz um truque rápido em que ele escolhia uma carta e eu embaralhava o maço, cortava pra todos os lados e a carta ia aparecendo em cima, no meio em todos os lugares. Seu rosto se iluminou com fascínio. No final eu avisei: Isso foi um truque. Eu não sou capaz de adivinhar sua carta, nem de movê-la com a força do pensamento. Eu uso uma técnica para fazer isso.

Fiquei fascinado com o pensamento mágico do meu amigo. Como isso é possível?

Para quem curte mágica

Ok. Vamos dizer que você curte mágica. Você pode estar em um de dois grupos: os que adoram ver shows de mágica e os que querem praticar mágica.

São dois grupos beeem diferentes. Os dois gostam de saber os segredos por trás de cada ilusão (ou efeito, ou truque, cada um hoje chama do jeito que quer), mas as motivações e o efeito de cada descoberta são também completamente diversos.

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Ilusionismo iluminista

Mágica pode aparecer de várias formas. Existem as ilusões feitas de pertinho, aquelas que parecem improviso total (e nunca são), as grandes ilusões, a matemágica e, no meio disso tudo, o mentalismo. É a capacidade de um performer de simular, por meio de truques e artimanhas, adivinhações diversas e poderes como telepatia ou telecinese.

Vejamos. David Copperfield é um ilusionista. David Blaine é um… Um… Bom, era pra ser um perito em sleight of hand (movimentos rápidos com as mãos) perfeitos pra mágica de rua. Mas resolveu virar batedor de recordes e perdeu o rumo. A lista poderia se estender aqui, mas vou ficar nos mais conhecidos. E aqui na Inglaterra o cara que está comandando o batatal é o interessante Derren Brown, que faz uma espécie de mentalismo moderno.

É preciso entender, antes de tudo, que mágicos são showmen. Eles inventam não só truques, mas atos, espetáculos inteiros. Truques, ilusões, são parte da equação. Embora sejam a parte mais popular.

Bom, eu tinha visto algumas coisa do Brown. A série Mind Control, episódios de Trick of Mind. Tinha ouvido falar de Roleta Russa, que causou controvérsia na Inglaterra. E ontem consegui ver The System.

O especial passou na TV britânica no dia 18 de fevereiro de 2008 e mostra um suposto sistema criado por Brown capaz de fazer uma pessoa ganhar seis vezes consecutivas apostas em corridas de cavalos. O espectador conhece Khadisha. Ela é uma mulher pobre que recebe dicas de Brown e começa a multiplicar seu dinheiro a cada vitória. Para provar que o improvável não é impossível, Darren Brown chega a mostrar que é possível jogar uma moeda dez vezes e cravar sempre cara. E não é que ele consegue? Sem cortes.

Na reta final, Khadisha pega dinheiro emprestado com familiares e aposta o que tem e o que não tem, confiando no poder do sistema de Brown. É quando ele finalmente resolve contar a verdade…

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Magicoterapia

É engraçado se ver longe de todo mundo, numa situação que não se parece com nada que eu vivi até agora. Eu comecei a trabalhar regularmente com 17, emendei na faculdade, depois no trabalho (que comecei antes de concluir a faculdade e acabou me atrasando na formatura) em que fui emendando uma coisa na outra e agora estou fazendo o mestrado aqui em Londres. Pela primeira vez em não sei quantos anos, não estou trabalhando regularmente. Tenho um monte de leituras pra fazer, trabalhos que me mantém ocupado e tudo mais. Mas é claro que me sobra algum tempo livre.

E nisso, retomei algumas paixões que abandonei sabe-se lá por que. Comprei uma caixa de Lego e gasto algumas horas por semana montando modelos. Uma delícia. Estou retomando algumas leituras de quadrinhos que parei em 2007, quando minha vida ficou tão complicada e confusa com mudanças de emprego, casa e tudo mais. Assim, estou concluindo a leitura de Y – The Last Man, que é genial.

E, ah, mágica. Sempre adorei. Quando era molequinho, fiquei meses namorando um kit de mágicas chamado Stelco Magie, que vinha com uma cartola e tudo. Mais velho, devorei alguns livros e em algum momento nos meus 20 anos, simplesmente abandonei completamente o assunto. Nem tanto… Quando estava na Folha de São Paulo, fui eu o repórter que desmascarou o Mister M, sabia? Fiz uma pesquisa mala, liguei pra todo mundo, achei uma revista com uma foto dele e fui, também, o primeiro a entrevistá-lo. Hoje parece bobagem, mas quando o assunto estourou lá nos EUA e aqui no Brasil, a coisa foi grande.

Quando fui a Las Vegas, em 2005, vi um show fantástico de David Copperfield que terminava com essa ilusão incrível.

Em 2006 comprei uns truques e me interessei de novo pelo assunto. Em 2007, fui acompanhar um truque do Chris Angel (que eu acho um mala sem alça) em Nova York, a convite do canal que exibe o programa dele no Brasil. No mesmo ano, vi um kit bacana numa loja nos Estados Unidos e comprei. Trazia uns truques legais. Comprei também um livro chamado Hiding the Elephant, que contava a história da era de ouro do Ilusionismo, que se desenrolou principalmente aqui em Londres. Mas veio a mudança, umas caixas foram pra um depósito por engano e só voltei a tocar nessas coisas em junho, quando tudo foi colocado no apartamento novo. Aí, em setembro, vim pra cá e… esqueci o kit e o livro.

E daí? Aqui tem umas lojas muito melhores do que as brasileiras, uns sebos com livros por preços ridículos e, afinal, existe a internet. Mergulhei no assunto como uma forma de relaxar de management, marketing, operations… Virou minha nova obsessão. Sei lá, uma coisa divertida pra eu levar daqui. Sem distrações, eu posso ficar teinando o uso do baralho, das moedas. Vira uma higiene mental.

Entre as coisas que eu aprendi a fazer estão truques simples como o da moeda na garrafa e esse aqui que é beeem legal:

Ontem, fui fazer o truque com algumas cervejas nas idéias e errei um passo. Paguei mico, claro. Bárbara e Hiro, gente boa que são, nem me sacanearam. Hoje, meus amigos indianos acharam o máximo. Fazer mágica virou uma terapia, um experimento social.