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O fim de uma era

Eu adoro passeios culturais. Então, mergulhei nos museus aqui de Londres ou simplesmente escolho um tema e vou ver esse ou aquele lugar batendo o pé mesmo. Mas, para quem cresceu numa cultura de consumo, ir a certas lojas também é uma forma de diversão. Pra mim, passear na Virgin sempre foi uma delícia. Cada vez que eu ia aos Estados Unidos para fazer qualquer coisa, rolava uma parada obrigatória na Virgin local (sem nenhum trocadilho, por favor). Em Londres, a mesma coisa.

Quando cheguei aqui em setembro, vi que a Virgin tinha sido vendida e virado Zavvi. Do vermelho, saiu pro verde e preto. Uma pegada forte em videogames e DVDs, seguido de camisetas e outros acessórios e com os CDs coadjuvando forte.

Ainda assim, tinha gosto e cheio de Virgin. Tirei meu cartão de estudante, que me dava 10% de desconto, e aproveitei algumas promoções. Mas, essencialmente, o que eu adoro é ficar bisbilhotando as prateleiras e lendo as caixas. Só isso. Acabo descobrindo uns fimes obscuros, uns documentários estranhos e umas bandas bizarras. Mais do que isso, me reencontro com muitas coisas que, na corrida vida digital, passam por você, rola aquela promessa de voltar naquele assunto e nunca mais. Pois encontrar fisicamente, ler a caixa… Coisa de velho, eu sei. Mas eu sempre adorei.

Voltei na segunda, mergulhei num trabalho que tinha que entregar hoje e não tinha tido a oportunidade de dar um passeio na cidade. Hoje, depois de entregar o trabalho, fui passear um pouco. Vi a Zavvi da Picadilly Circus e rumei pra lá para ver que estava… Fechada. Na véspera do Natal, a empresa entrou em administração de emergência e fechou um monte de lojas. Ao fechar, demitiu vários funcionários que eram atendentes. Hoje, já contam 300 e tantas demissões.

Dito isso tudo, o quanto eu curtia as visita às lojas, essa parte romântica e saudosa, vamos ser francos. Depois da visita, eu raramente levava alguma coisa. Comprei várias caixas de seriados ingleses que eu queria conhecer e pronto. O resto, virava lista de downloads. A verdade é que, por mais que eu adore o ambiente, sentia também uma sensação inquietante de que os dias daquilo ali estavam contados.

O comércio de produtos culturais, como conhecemos, está vivendo uma transformação brutal. De um lado, lojas físicas não têm a menor condição de concorrer em preço com a Amazon. É sempre humilhante ver que os vendedores não têm autonomia pra baixar um preço. Eu digo tchau, entro na Amazon e compro o item com frete grátis. De outro, as pessoas se interessam cada vez menos por ter as coisas. Pra falar a verdade, isso é bom. Eu é que sou maluco com meus milhares de livros e DVDs. Para que tudo isso? Basta ter um HD. Não estou nem falando de cópias ilegais, não. Falo de arquivos comprados legitimamente mesmo, oras.

Dos grandes varejistas de cultura pop, pelas minhas contas só sobrou a HMV. Por quanto tempo? Talvez seja mesmo o caso de que só há espaço para um grande varejista do gênero. O público menor vai naturalmente ocupar esse espaço e manter a empresa funcionando. Ou não. E vamos ficar sem HMV (e Cultura, Saraiva, Fnac…). O que virá a seguir?

De volta a Londres

Cheguei aqui em Londres na noite de segunda, depois de um vôo miserável de 24 horas, porta a porta, contando o atraso infindável da conexão em Washington.

Bom, pelo menos foi divertido ver toda a parafernália de produtos em torno da posse de Barack Obama. São posters, camisetas, canecas, medalhas, tudo que você pode imaginar. O clima em Washington é mesmo de animação pela mudança.

Mas eu me desvio do assunto. O fato é que, depois de um mês de esbórnia, voltei pra cá. E, por mais que eu tenha os amigos, passo a maior parte do tempo sozinho no meu quarto do dormitório da faculdade. O que não significa que eu esteja entediado. Tenho tanta coisa pra ler e para fazer que o termo tédio é algo distante. Cheguei e finalizei correndo uma apresentação para hoje de manhã. Em seguida, essa apresentação dá origem a um relatório de 5 mil palavras para terça que vem, com um monte de pesquisa adicional. Aí, eu tenho outro relatório de 5 mil palavras para a sexta seguinte e um outro de 3 mil para a outra segunda. E, no meio disso, vou receber novos trabalhos na semana que vem, enquanto finalizo esses. O ritmo das leituras, das aulas e dos trabalhos vai acelerando e as coisas vão ficando mais e mais complexas. Mas é gostoso, não posso negar.

Uma coisa engraçada é que estou tendo de novo uma sensação que tinha começado a desaparecer em dezembro, quando voltei ao Brasil: a sensação de “sentir” cães o tempo todo. Eu estou acostumado a tomar cuidado com meus movimentos, porque os cachorros, bichos dengosos que são, tendem a se abulastrar ao seu redor. O efeito disso é que, para não machucá-los, eu peguei o hábito de sempre olhar ao redor antes de levantas da cadeira. Além disso, todos os barulhos ao meu redor tendem a ser de cachorros. Então eu imagino que o Darwin latiu ou se virou enquanto dorme (ele se encosta numa porta de madeira e faz um barulhão, ai, ai). Então, toda hora acho que aquela bolsa preta no canto é o Darwin. Ou alguma coisa no chão, um sapato, é o Sagan.

Já estou voltando

O mês voou. Vim para cá, curti minha família, meus cachorros e não fiz muitas coisas. Eu só queria curtir a casa e fazer nada de especial. Nesse meio tempo, li dois livros inteiros, avancei vários capítulos em mais três que estou lendo simultaneamente, devorei filmes, seriados, gibis. Joguei War e outros jogos de tabuleiro, vi meu labrador quase se afogar numa piscina (how humiliating, Darwin!).

Agora, na última semana, estou com raiva dessa letargia que tomou conta de mim. Por que eu fiquei assim? Será algum tipo de depressão? Agora vou ficar nove meses do outro lado do mundo longe das pessoas que eu mais gosto na face da Terra. Quando chegar em Londres, na segunda, vai estar dando 5 graus negativos.

Não me entenda mal. Não é nenhum drama. Sou uma pessoa de muita sorte. Tenho um trabalho fantástico, família maravilhosa, o curso é bacana, os amigos do curso também são muito simpáticos. Em Londres eu tenho o Hiro, a Baxt, a Nica. Não estou abandonado no mundo. Não passo grandes necessidades e dificuldades. Mas eu sabia o efeito que esse mês ia ter na minha moral. Ficou mais difícil voltar, porque é muito bom estar aqui. E, por mais bacana que seja Londres, a grande, linda, estupenda Londres, ficar aqui é uma delícia também. Aqui tenho os amigos e as coisas pequenas. Aqui eu compro pipoca de canjica na esquina. Acordo e vou tomar café com misto-quente. Aqui é minha casa.

Resta torcer para que metade, não, um terço dos amigos que prometeram ir me visitar, cumpram essa promessa. Vai tornar a minha vida mais legal, posso garantir.

Bebum!

Some informação com vontade de resolver problemas e você cria idéias poderosas. Todo mundo sabe que no fim do ano a galera bebe e muito e depois volta pra casa fazendo besteira. Aqui em Londres, de quinta a domingo, você vê gente cambaleando pela rua direto. Eu já quase fui vomitado duas vezes e estou morando aqui há apenas dois meses!!

Vai daí que o governo considera esse um enorme problema. No outro dia, eu estava passando no metrô e vi, pela primeira vez, um cartaz com uma moça completamente bêbada e jogada e com dizeres que eram algo assim: “Algumas coisas você só faz quando está bêbado. Mas planejar sua volta para casa não precisa ser uma delas.” Legal, legal. A campanha nem é nova. É coisa do ano passado ou antes, pelo que eu sei. Mas eu estou aqui agora, então perdoe meu atraso.

A campanha rolou depois de uma pesquisa que revelou que 50% das pessoas que saem na night londrina se metem em enrascadas, porque bebem e acabam se enrolando no caminho de volta, perdendo objetos, sendo roubadas, se machucando…

O plano é conscientizar as pessoas para que pensem na rota de volta antes e se planejem para evitar problemas. Igualzinho a gente vê no Brasil, né?

Tira a ferrugem

Quase todo dia, eu acordo, vou pra academia que fica a, sério, tres minutos do meu apartamento e faço pelo menos 30 a 40 minutos de esteira. Uma promessa que eu fiz pra mim foi me cuidar, comer vegetais todos os dias e não me deixar cair na dieta de “solteiro” solitário: macarrão instantâneo, comida congelada…

Assim, tenho orgulho de dizer que tenho feito carne moída, arroz, bife. Que tenho cozinhado brocolis e couve-flor, cenoura, abobrinha, pepino e vagenm. Me esforço para comer isso todos os dias. Mas é difícil resistir à batatinhas fritas sabor sal e vinagre. Eu descobri isso numa viagem anterior e me apaixonei. Mas acho que a fissura começa a passar.

Bom, o caso é que, com isso tudo, ainda não tinha jogado futebol. Hoje dei de cara com umas figuras se juntando no gramado aqui do lado da minha casa. Do lado mesmo, tipo dois minutos me arrastando no chão (kidding…). Cada um com uma camisa de time ou seleção. Virei um menino de novo e corri pro quarto pra colocar minha camisa da seleção brasileira. Mas, ops, estava frio demais. Coloquei ela por baixo da camisa quentinha e fui na direção do gramado pensando em como ia pedir pra jogar. Nem precisei. Eu me aproximei e os caras foram supersimpáticos. Me chamaram pra jogar imediatamente e eu estou simplesmente destroçado. Dói tudo. E amanhã, vai ser pior.

Eu estava há muuuuito tempo sem jogar futebol. Então foi uma experiência engraçada. Você quer fazer uma coisa, seu cérebro sabe o que é, mas seu corpo não responde. Além disso, eu tenho 36 anos e a molecada era toda na casa dos 22 a 26 anos. Já viu, né? Mas o prognóstico é animador. Enquanto eu tive fôlego (nos primeiros 10 minutos, shame on me!) eu até que me saí bem. Mas depois, eu me arrastava e chegava atrasado em tudo. Se a gente tiver a sorte de conseguir jogar toda semana, vou começar a me sentir normal já já. Isso, claro, com a ajuda da esteira diária. Futebol uma vez por semana não adianta nada pra forma física.

Pesadelo Orwelliano

A Inglaterra tem sido boa pra mim. Vamos e convenhamos que o inverno ainda não chegou. Que os dias ainda amanhecem seis da manhã e escurecem seis da tarde. Que até que choveu pouco.

Mas o que me impressiona aqui é a forma como o governo é invasivo. Como não tem vergonha de te filmar em todos os cantos e tenta avançar sobre seus dados de navegação na internet e tudo mais que puder.

(na verdade, eu acho que o sistema de circuito fechado de TV, se usado de forma inteligente, com uma legislação draconiana na proteção da privacidade do cidadão pode ser útil. Afinal, ter o video de um lugar no qual um crime aconteceu dois dias atrás é quase como voltar no tempo e presenciar tudo, com provas que definem a condenação de um assassino. Para isso funcionar, seria necessário que os vídeos só pudessem ser vistos se um crime for cometido e exigir a averiguação de um álibi, por exemplo. Mas isso vale outro texto…)

No meio disso tudo, com essa atitude supersaudável, não fiquei surpreso com esse anúncio horrível, que me ecoou na caixola com aquela frase “Resistir é INútil” de um dos filmes do Star Trek: Next Generation. O dos Borgs, acho queo nono da série.

Quem te viu, quem não Tevê

Eu cobri TV paga ou aberta por quase uma década da minha vida. Então, podemos dizer que televisão era algo quase onipresente pra mim. Eu vivia com o aparelho ligado e mantive o videocassete (lembra dele?) pra poder gravar programas que passassem quando eu estava no trabalho. Tenho dois aparelhos parados na minha casa no Brasil.

Aí, veio a Época São Paulo e eu confesso que simplesmente parei de ver TV. Fiquei com um certo enjôo, sabe. Agora, aqui em Harrow, no campus da universidade, eu simplesmente estou hesitando quanto a comprar uma TV. Caramba, meu mestrado é em mídia. Como vou me isolar do mundo?

Acontece que eu vou ter que me acostumar. Aqui, você paga um imposto anual, a TV Licence. São 139 libras esterlinas por ano, dinheiro usado para bancar a TV deles. É coisa seríissima. Se eles te pegam de gracinha, cobram uma multa de 1000 libras fora custas de advogado.

Como eu estou chegando de outro país, o custo de ver TV seria essa graninha mais o que eu gastar numa TV. Vi uma de 15 polegadas por 129 libras. Então são 268 libras dentro do meu orçamento apertado em libras, com despesas fixas aqui e no Brasil.

Sinceramente, não está fazendo falta nenhuma. Meu notebook virou minha TV de vez. No Brasil, eu conectava na TV pra ver alguns seriados. Aqui, eu vejo DVDs ou os programas que eu baixo regularmente.

Então é isso. Bye bye TV. Não sinto nem falta de ti.

Minha Londres

Cheguei aqui faz pouco mais de uma semana. Ainda não atualizei meu mapa com tudo o que eu ando vendo por aqui. Mas planejo fazer isso nos próximos dias. É divertido e me ajuda a encontrar de novo os lugares pelos quais passei. A casa desse mapa, daqui em diante, vai ser numa página só dele chamada Minha Londres.


Exibir mapa ampliado

Uma coisa engraçada. Eu comprei um Moleskine de NY algum tempo atrás. Fiz algumas anotações e parei. Nunca mais toquei no bichinho. Fiquei cheio de culpa. Quando estava vindo pra cá, pensei em comprar um Moleskine de Londres. Peguei, fui até o caixa da livraria. Na última hora, desisti. Sinto muito, Moleskine querido. Adoro produtos físicos. Adoro livros e papel. Sou low tech nessas coisas, até. Mas nesse esquema, posso compartilhar tudo com meus amigos. É mais gostoso.