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A não tão Grã-Bretanha

Foi assustador chegar na Inglaterra exatamente no momento em que a crise mundial estourou. Eu paguei R$ 3.70 numa libra quando fui. Nos primeiros dias da crise, o valor subiu e eu só me ferrei. Depois, as coisas esfriaram e, quando voltei, a libra estava valendo R$ 3.20, só para se ter uma idéia. Nas ruas, vi negócios fechando todas as semanas. Grandes redes de varejo, pequenas livrarias com décadas de idade e um clima de incerteza.

Os jornais, claro, refletiam esse gloom. Escândalos políticos e uma vigília sobre qualquer um que parecesse esbanjar dinheiro se tornaram coisa comum nos diários. A coisa não estava mesmo boa pro lado dos brits.

Esse artigo da Newsweek só tenta resumir em algumas páginas o que a Economist está dizendo há muito tempo. Deve ser por isso que a Economist só ganha influência enquanto a Newsweek se dissolve diante dos nossos olhos. Um artigo de Alex Massie, exclusivo do site da revista, tenta equilibrar o tom sombrio do artigo de de capa. Empilha alguns números e relativiza a crise. Diz um monte de coisas certas, mas perde autoridade pelo tom meio revanchista.

Mas, de qualquer modo, se você quer uma visão geral e resumida do ocaso anunciado do Grã-Bretanha, vale ler.

Michael Jackson morreu e o mundo (inteiro) fez seu tributo

Ontem, o mundo acompanhou em tempo real pela internet o destino de Michael Jackson. Eu ficava pulando de site em site pra ver se os grandes e mais respeitados confirmavam o que o TMZ já tinha publicado: Michael Jackson estava morto. Ponto final.

Incapazes de confirmar a história, CNN, New York Times, Guardian, Reuters e dezenas de outros sites respeitáveis tentavam checar as informações antes de dar o comunicado final. A CNN optou por colocar uma foto de Jacko dando tchau, sinal de que o pessoal provavelmente já sabia que o cantor estava morto, mas, por uma questão de princípios, estava esperando múltiplas confirmações de fontes para dar o comunicado oficial.

(Quando informaram, colocaram na conta do Los Angeles Times. O leitor desavisado pode até achar que é uma forma de tirar o corpo fora. Não necessariamente. É outra coisa. É dar crédito a quem informou e confirmou primeiro. É a velha mídia tentando incorporar certos hábitos dos novos tempos.)

Hoje, já começaram os perfis, obituários, edições especiais e toda a parafernália que cerca esse tipo de evento. É a velha mídia tentando faturar o que puder em tempo de vacas magras. Aliás, hoje, o dia seguinte a um evento como esse já parece uma eternidade pra quem acompanhou tudo em tempo real e leu um monte de coisas ou viu vídeos (tudo editado às pessas) nos sites e na TV à noite. A título de contraste, Farrah Fawcett, cuja morte foi anunciada por meses, por conta do câncer, acabou sendo ofuscada pelo fim de um popstar inesquecível.

As empresas jornalísticas sérias tentavam dar uma dimensão da importância do artista e exploravam vários ângulos, alguns impiedosos, sobre como um homem que ganhou tanto dinheiro chegara naquela situação. Afinal, Michael Jackson foi considerado uninsurable pelas grandes seguradoras. Estima-se que o prejuízo da AIG (a empresa que promoveu a volta de MJ) pode chegar a £300 milhões.

Agora, dá-lhe especulações sobre o quanto Jacko estava com a saúde comprometida, desesperado por algum dinheiro que o tirasse da situação financeira desastrosa e, por conta disso, aceitou uma “encomenda” que seria incapaz de entregar. Nos bastidores do showbiz, havia um enorme ceticismo a respeito das performances do cantor. Nas bolsas de apostas, especulava-se quantas apresentações seriam canceladas.

Não foi uma, nem duas. Todas.

Bom, hoje eu passei em frente ao Lyrics theatre, que apresenta o musical Thriller, com vários artistas interpretando sucessos da carreira de Michael Jackson. Ali, várias pessoas depositavam flores, colaram posters e prestavam uma homenagem ao ídolo. Em todo canto, tocava-se Michael Jackson. Nos sites de downloads (legais e ilegais) só dava você sabe quem. Nas lojas que vendiam os ingressos para os shows pelo triplo do preço original, ainda havia alguns cartazes toscos que os donos esqueceram de tirar das vitrines. É uma ressaca.

Eu vivi o auge de Michael Jackson nos anos 80. Não fui ao show no Brasil, mas ia ao daqui de Londres (presente de um amigo que vem me visitar). Quem sempre foi fãnzona de Michael Jackson mesmo é a Mônica, que chegou a ir de São Paulo ao Rio de carro ouvindo os maiores sucessos de Jacko no repeat do CD player.

O Twitter parou. O Google sentiu o baque. De vez em quando a gente é lembrado que, na era do Long Tail, dos microsucessos, ainda existem titãs midiáticos andando sobre a Terra. Jornalistas e blogueiros novidadeiros acabam esquecendo que artistas com muita estrada, apesar de parecerem não fazer mais barulho nenhum, formam públicos enormes que atravessam gerações e são capazes de criar ondas de choque impressionantes.

Eles são poucos. São mesmo uma raça em franca extinção. Ontem, um dos maiores, e dos últimos, se foi.

Semana, hum, “mágica” em Londres

Outra semana, digamos, mágica. Fui ver o show do Derren Brown (com um blog bom, viu), Enigma, e fiquei impressionado com a forma como ele consegue impor um ritmo alucinante. Brown não gosta de ser classificado como mentalista, mas o fato é que o que ele faz, apesar dos “fogos de artifício”, é mentalismo com todos os ingredientes clássicos.

Hoje, sexta, fui a uma palestra do mágico Pavel Pomezny, totalmente velha guarda. Ele falou do ato de inventar uma ilusão e demonstrou alguns dos seus best sellers. Essas palestras, geralmente realizadas pelas duas lojas de mágica de Londres, International Magic e Davenport’s Magic, são uma chance ótima de conhecer de perto alguns profissionais de primeira linha e, quando dinheiro há, comprar ilusões a preços em conta. Pavel estava vendendo seus últimos ítens pela metade do preço.

Amanhã, tenho outra programada com John Bannon que promete ser muito bacana. Bannon tem uma série de DVDs sobre truques com cartas.

Vale fazer uma observação curiosa, se não cruel. Como as lojas de mágica são, em geral, ambientes velhos e maltratados. Os clientes são supervariados, de todas as idades. Mas as lojas são empoeiradas, desorganizadas. Os preços não são convidativos. Todos os truques que você encontra numa loja podem ser comprados mais baratos num website.

Mas não há o contato humano com os vendedores, certo? Bem, digamos que isso só acontece de verdade na International Magic. O rapaz que atende as pessoas na Davenport não tem traquejo de vendedor. A turma da International Magic é mais afetuosa. Quando eles vêem que o cliente é fiel, não dão desconto, mas oferecem pequenos presentes. Um maço de cartas aqui, um DVD ali. Eu nunca fiz compras grandes e não tive o prazer de ganhar brindes legais, mas já vi gente saindo de lá com muitos brindes. Na Davenport’s, o jogo é duríssimo. Pelo que eu entendi, é uma pena, já que a velha guarda é muito elogiada. Parece que o problema está na nova geração. Bizarro.

Vírus e anti-vírus

Nos últimos anos, pra mim, viral era vídeo, idéia, meme. Ontem caiu a ficha pra mim de que num mundo globalizado viral continua sendo o que sempre foi: vírus que se espalha como… como uma gripe… suína.

Uma pessoa com a suspeita da gripe está aqui no hospital do lado do campus em que eu estou morando. Logo ali. Eu vejo o hospital sempre que saio do apartamento.

Alguns meses atrás, foi lançada aqui uma série chamada Survivors. Era baseada num seriado dos anos 70 e mostrava o que aconteceria se 90% da população mundial fosse aniquilada por uma variante mortal da gripe. A Inglaterra entra em colapso e, nos seis episódios, um grupo de pessoas tenta se estabelecer nesse ambiente desolado.

Voltemos ao mundo real, onde coisas terríveis como pandemia de gripe e aviões derrubando torres em grandes cidades são eventos que não acontecem (?). Como a Inglaterra é uma ilha, as autoridades ficam muito atentas a qualquer movimento desse tipo. Uma doença que se espalhe muito rápido num país com sistemas de transporte eficientes tem mesmo potencial para quase dizimar um país com essas características. As regras para, por exemplo, trazer um animal para a Inglaterra são extremamente rígidas. Seis meses de quarentena, atestados e tudo mais. Por conta disso, nem pude pensar em trazer o Darwin comigo. Acredite, eu teria dado conta dele e teria sido sensacional com esses parques que eu tenho aqui perto.

Os medos não são infundados. Basta andar no metrô, basta circular pelas insuportavelmente lotadas Oxford street, Regent street, Picadilly Circus, Leicester Square. Ali, todo mundo é de fora. Milhares de pessoas vindas de todos os cantos do mundo. Num lugar como esse, espalhar uma doença intensamente contagiosa como uma gripe é brincadeira de criança. Contra isso, todas as câmeras, todos os policiais e regras não valem nada. Mais um motivo pro típico morador das grandes cidades ter medo, muito medo.

Mas, e tem sempre um mas. Voltando ao início deste texto, estamos na era em que os virais são mais do que virus biológicos. São idéias, informação. Então, é hora de pormos isso a nosso favor. Todos têm internet, celulares, TV. Como eu disse, câmeras e guardinhas não adiantam muito. Mas, de novo, a multidão, tão propícia a pegar vírus e se aniquilada, pode ser a solução. A informação sobre como se proteger ou a identificação rápida de focos possíveis de contaminação podem evitar uma tragédia. A informação, o compartilhamento, podem ser o anti-vírus que a gente precisa contra um vírus letal. E ler esse post (que eu descobri com a ajuda do @doni, no Twitter) também ajuda muito.

Londres: Seis meses

Engraçado pensar que eu cheguei aqui, seis meses atrás. Cheguei exatamente no momento em que a crise econômica explodiu. Nesta semana, o clima estava tenso. Como vai acontecer o maior encontro de líderes mundiais desde 1946 na semana que vem justamente aqui, a polícia, o MI6 e todo e qualquer órgão de segurança do governo inglês estão em alerta extra-vermelho. Toda hora fecha linha do metrô por causa de algum alerta de “segurança”. Os britânicos, que já são intensamente repressivos, ficaram mais paranóicos ainda. Seis meses.

Acho que engordei um pouco, depois emagreci. Foi de acordo com meu humor. No inverno, eu tive indícios fortes de SAD (Seasonal Affective Disorder) ou winter blues. Não cheguei a ficar derrubado, mas fui atacado por um desânimo forte. Algo que é bem incomum pra mim. Veja você que eu costumo acordar assoviando e faço café da manhã no maior bom humor. Levo café na cama e tudo. Sempre fui assim. Bom, digamos que apesar da cozinha do meu flat ser a dois passos de distância, eu simplesmente tive dias em que não queria nem chegar perto.

Eu como besteira, mas também levo muito a sério comer salada e frutas todos os dias. TODOS os dias. Juro. Compro uvas e bananas, folhas variadas, tomate, pepino, brócolis e couve-flor, cenoura e beterraba. Junto tudo numa saladinha com azeite, vinagre e sal. Compro frango e tempero com vinho branco barato, alho, cebola, pimenta e tomilho. Asso por uma hora e meia no forno, sem manteiga nem óleo e fica fantástico. Compro camarões e tempero com limão, coentro, pimenta, sal e cebola. Cozinho tudo numa panela com azeite, cebola e alho. Depois junto com alguma coisa que pode ser arroz, cuz-cuz ou mesmo massa de macarrão.

Mas como pipoca feita com manteiga. Um dos meus pontos fracos. E a cada par de semanas, rola uma obsessão. Já foram os cookies, depois o arroz doce, aí veio o pudim de chocolate. Nos momentos mais negros eu dou uma exagerada. Mas essa semana, por exemplo. Mal cheguei perto de doce. As frutas resolveram bem. Mentira, comi um waffle com chocolate belga meio-amargo ontem.

Se eu já era um maníaco por café, a coisa aqui virou uma loucura total. Eu faço café todos os dias e muito mais forte do que as pessoas por aqui estão acostumadas. Mas um dos meus grupos veio fazer trabalho aqui comigo e elogiou muito meu café. Virou meio que uma curiosidade para eles essa tinta preta que eu adoro.

E os amigos? Essa loucura aqui de ter amigos de todos os cantos. É meio fascinante sair com iranianos, indianos, sérvios, alemães, libaneses, chineses, russos, malásios, gregos, egípcios, americanos… e britânicos. Todo mundo junto falando besteira, brincando com os estereótipos alheios: todo grego é gay (ou lésbica), russos comem criancinhas, indianos transformam tudo em musical colorido e brega, brasileiros rebolam e só falam em futebol (bom, eu não pude ser de muita ajuda na parte do rebolado). No fim, acho que o que não deu muito certo foi mesmo a integração com os chineses. A língua os afastou do resto das pessoas. Eles aqui na minha turma, com algumas honrosas exceções, falam o inglês muito mal e acabam se isolando por não conseguir manter uma conversa natural. Os poucos com quem eu tive mais contato foram extremamente simpáticos e atenciosos. Tudo bem que um deles nunca tinha ouvido falar no Brasil… Ah, e eu quase cortei relações com meu amigo iraniano, o Nima, porque ele ousou dizer que Maradona foi melhor do que Pelé. Fala sério.

Seis meses. Uma saudade enorme. Da minha casa, da minha família querida. Da minha sobrinha gostosa e dos meus cachorrinhos. Dos meus amigos do Rio e de São Paulo. Caramba, não conheci os filhos dos Brunos nem do Antônio. Vou confessar que já sonhei várias vezes que estava passeando com o Darwin. E, da mesma forma, sonhei que não encontrava ele de jeito nenhum. O impacto que um cachorro pode ter na sua vida…

Uma das poucas coisas que eu fiz aqui foi uns videozinhos para a minha sobrinha. Clarinha, a neném mais famosa da internerd brasileira. Afinal, é a filha do Cris e da Anna. E é minha sobrinha pequenininha. Comprei dois fantoches e fiz alguns vídeos em que me comunicava com ela com a ajuda dos bonecos. Depois, passei a fazer mágicas (e a Clara adora). Um dos bonecos é um macaco. Clara não curtiu muito. Coloquei um pástico vermelho na boca do bicho, um laço vermelho no orelha e pronto: meu macaco fantoche virou um traveco fantoche. Clarinha passou a adorar a, hum, boneca, rebatizada de Ritinha. Seis. Meses.

Faltam cinco meses agora. Eu volto no dia 19 de setembro ao Brasil. Uns dias antes ou depois. Falta menos do que já foi. Então, hoje é um marco importante. Passei da metade. Acredite, não está sendo fácil. Não está sendo ruim. Ao contrário. É uma experiência sensacional parar tudo pra pensar sua profissão, seu meio, sua empresa, seu futuro. Os últimos anos me deram uma autoconfiança importantíssima para a próxima fase da minha vida profissional. Eu criei revistas e enfrentei crises de vários tipos. Aprendi a gerenciar grupos na marra. Errando e acertando, mas sendo sempre direto e honesto com quem trabalhou comigo. E parar por esse tempo me ajudou a olhar para trás e ser crítico comigo mesmo. Ver vários dos meus erros de gestão, de planejamento. Ao mesmo tempo, fiquei orgulhoso dos meus acertos, claro. Felizmente foram muitos. Acho que tive um saldo positivo.

E me surgiram muitas idéias. Um monte de coisas legais que vão marcar os próximos anos da minha vida. E conheci algumas pessoas interessantes e muito criativas com quem quero trabalhar no futuro próximos. Vamos ver que projetos eu vou colocar em movimento.

O bicho-papão vai te pegar!

A Inglaterra é um lugar curioso. Aqui eu realmente me sinto vigiado o tempo todo. Nunca vi tantas câmeras. Fui obrigado a me registrar na polícia, tudo gera uma identidade com uma foto. A gente pode argumentar as vantagens das câmeras como uma forma de “viagem no tempo” que ajuda a resolver um crime, por exemplo. Ou ainda pensar que as câmeras, mesmo não funcionando, desencorajam o crime. As pessoas se sentem vigiadas e fazem as coisas bonitinhas. De um jeito ou de outro, com as vantagens na mesa, continuo achando a coisa toda assustadora.

Mas a publicidade da TV Licence é uma espécie de quebra da falsa harmonia do argumento pró-Big Brother. É o momento em que o véu de normalidade e proteção cai por terra e eles revelam o espírito opressor.

A TV Licence é a taxa que todo mundo que tem uma TV é obrigado a pagar aqui no Reino Unido. Esse dinheiro é o que sustenta a BBC, um dos mais honestos, orgulhosos e sérios serviços jornalísticos do mundo. Sim. O jornalismo, o quarto poder, aquele que alimenta a democracia e a liberdade de expressão. Acho que a ironia é indiscutível. Veja mais um exemplo de como funciona a publicidade opressora da TV Licence nessa sequência que apresenta um anúncio num website.

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Eu já tinha falado disso antes, quando vi um cartaz no metrô. Não tenho TV em casa e, por isso, não pago a TV Licence. Um dia, a qualquer momento, um fiscal do governo, pode bater na minha porta para ver se eu tenho ou não um aparelho. É bizarro. Todos os meus amigos dizem que nunca viram nem ouviram falar de ninguém processado por conta de uma licença de TV. Ou seja, é o bicho-papão!!

Eu queria ter uma TV para jogar video-game, mas confesso que fico intimidado. E se um fiscal bate aqui e eu tenho que explicar que a TV não funciona para pegar sinal de canais de televisão? Eu posso ser processado e ter que pagar pelo menos £1000 em multa, fora custos com advogados. Você pode checar meu armário pra mim? Ah! E olha embaixo da cama, por favor. Obrigado.

Shukran!

Minha amiga libanesa não se conforma com o fato de que eu não sei falar uma palavra em árabe. Maya (esse é o nome dela) me presenteou com uma caixinha de doces maravilhosos.

Ok, alguém me corrija se eu estiver errado, mas, pelo que eu sei (ou seja, quase nada), a palavra correta para agradecer seria shukran. Tá certo?