Ainda no espírito: o século 21 será A Era das Máquinas Espirituais?

O livro The Age of Spiritual Machines não é realmente uma novidade, mas é algo que merece ser lido pelas pessoas que estão fascinadas ou assustadas com tantas mudanças.

A idéia de Kurzweil (que, repito, não é tão nova, mas nunca foi tão bem explicada) é tão inebriante e tão assustadora que o chefão de tecnologia da Sun, um mané qualquer chamado Bill Joy, escreveu um artigo histórico para a Wired dizendo ter medo de que suas invenções (entre elas parte do desenvolvimento da linguagem Java) ajudem a ditar a extinção da raça humana.

Mas o interessante é que o livro de Kurzweil não diz que o mundo vai acabar. Ele diz que os humanos vão abandonar seus corpos biológicos e vão transferir suas mentes para computadores. Assim, diz ele, ganharão a eternidade.

Pior (ou melhor, depende do ponto de vista). Os humanos não seriam o fim da evolução, mas o meio pelo qual surgiria uma nova raça que seria a dos computadores inteligentes. Nós acompanharíamos esse caminho e iríamos nos digitalizar também. O próximo passo da evolução? X-Men perde.

Joy acha isso assustador. Você também?

Mas não é só isso que tira o sono do cientista da Sun. Ele leu um outro livro chamado Engines of Creation, de Eric Drexler, e ficou ainda mais aterrorizado. O tal livro fala das aplicações da nanotecnologia, uma das vedetes do próximo milênio (falo melhor desse livro em um dos meus próximos posts).

Nanotecnologia trabalha com máquinas feitas de átomos. Um exemplo: robôs poderiam ser injetados no corpo humano e combater uma doença. Um contra-exemplo: poderiam ser injetados para matar você.

Pior, como são feitos de átomos e são, em tese, capazes de montar moléculas não há limites para o que eles podem fazer. Quando e se a humanidade (se é que ainda vai se chamar assim) chegar ao estágio de dominação da mecânica quântica, será possível construir qualquer coisa em segundos. Usando nanorobôs, você poderia fazer uma mesa, com base no seu projeto. Eles montariam ela para você, EM MADEIRA.

Da mesma forma, seria possível fazer uma pessoa se desintegrar. Evaporar. Morrer em um segundo. Ou matá-la aos poucos com um monte de nanorobôs que simularim um vírus ou comem você por dentro. Escolha o pacote no supermercado…

Joy faz uma mea culpa por colaborar com a evolução tecnológica. Ele está com medo que toda essa tecnologia caia nas mãos das pessoas erradas e a humanidade fique ameaçada de extinção. Preocupação compreensível, não é? Mas apesar de tudo, o cara continua batendo cartão na Sun. Não parou com suas pesquisas. Será que ele estava mesmo convicto disso tudo ou era só gênero para ter seu artigo publicado pela Wired?

Só nos resta esperar…

Clube da Luta, o livro

Se você não quis ver o filme “Clube da Luta” por causa do evento funesto que aconteceu naquele cinema em São Paulo, perdeu um filme muito bom. Esqueça as discussões rasas a respeito de como um filme violento influencia atitudes violentas e mergulhe em uma trama bem bolada com dois atores que estão no melhor de sua forma artística. Aliás, além das locadoras o filme estréia no Telecine em março.Mas é do livro que eu quero falar. Sem que isso seja uma surpresa, é ainda mais bacana que o filme. Peguei emprestado com o meu amigo Paulo, que é mestre de Kombato, nas palavras dele, a mais avançada forma de defesa-pessoal que existe, dê uma olhada na página dele.

Quem acha que o filme só mostra um monte de brucutus brigando o tempo todo está enganado. O Clube da Luta criado pela dupla de protagonistas da história é parte pequena da história tanto no livro quanto no filme. Digo, é importante, mas não há longas cenas de luta e sangue. Há, isso sim, uma amostra dos efeitos físicos e espirituais que o ato de lutar cria nos homens: hematomas e libertação.

Antes de tudo, vale uma análise bem rápida. “Clube da Luta”, o livro ou o filme, é um delírio ultradireitista. Algumas pessoas vão dizer que, ao querer destruir o sistema que corrói o ser humano moderno, eles agem como um grupo subversivo de esquerda. No entanto, as motivações dos personagens são típicos devaneios de classe média. Mas não vamos simplificar, porque um pouco do que ele sente em relação a esse sistema, a essa “Matrix”, é o mesmo que a gente sente em algum momento de nossas vidas. Cada vez que trabalhamos umas horas a mais, que deixamos de fazer algo que desajávamos muito para esticar no emprego, a frustração faz com que nos sintamos escravos de algo que não tem forma: o sistema. Não é por acaso que toda propaganda de telefone, seguradora e banco mostra você se divertindo com as pessoas que ama, vendo o pôr do sol. É o símbolo dos anseios humanos.

“Clube da Luta” lida com isso. E lida com maestria. Mesmo sendo radical em muitos momentos, o discurso do personagem é muito bem sustentado e você embarca com ele na sua viagem alucinada. O que o personagem alega é que nos tornamos escravos de nossos livros, discos, TVs, móveis, contas bancárias. O que ele defende é a desvinculação de tudo. E a luta é uma das ferramentas para trilhar esse caminho na busca de se desvincular da matrix. Em sua opinião, só quando você perde tudo, só quando chegou ao fundo e abriu mão de cada coisa você está realmente livre e pronto para recomeçar.

Jogue fora os estereótipos burros que você leu por causa daquela tragédia causada por aquele maluco assassino e leia um bom livro contemporâneo. Você não precisa concordar com tudo o que ele diz, mas que ele vai fazer você pensar, ah vai.

The Interface Culture, Steven Johnson

Os saltos tecnológicos realmente importantes são os que geram saltos culturais. Esse livro de um dos criadores da ótima revista digital Feed fala de como as novas tecnologias representam um salto que levará a novas formas de cultura, novos modelos de comunicação. Isso já está acontecendo, mas como estamos no olho do furacão não conseguimos notar direito.Johnson analisa as linguagens que surgiram com a chegada do hipertexto e como a linguagem usual foi influenciada. Dá exemplos de sites nos quais o hipertexto é uma ferramenta de significação e não só de navegação.

O livro segue analisando como nossas formas de pensamento foram mudadas por novos paradigmas como a interface gráfica e a Internet e embasa essas análises em argumentos consistentes e eruditos, o que não é muito comum hoje em dia.

É muito bom porque torna palpáveis fatos que as pessoas em geral não conseguem enxergar. O escritor de hoje, com Internet, dicionários e editores de texto cheios de recursos, não tem o mesmo formato de trabalho e nem de raciocínio que seus antecessores tiveram. Depois de séculos nos quais viu o mundo de uma forma analógica, o homem precisa se ajustar agora a ver esse mesmo mundo sob a luz da nova era digital. Seu jeito de raciocinar, de associar mudou. Segundo Johnson, para melhor.

Mas o que é mais importante é que, se eu escrevi “escritores” acima, como exemplo, “The Interface Culture” fala que todos fomos influenciados por essa tecnologia. É claro, mas você notou?

Se você entende inglês e é um dos muitos fascinados por essa revolução que acontece ao nosso redor, esse é um livro indispensável.
Pode encontrá-lo na Amazon (US$ 12 mais postagem) ou na Livraria Cultura (R$ 32,50).