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Liberdade seletiva?

No vídeo, o reitor se enrola e cita Hitler. Acabou a discussão!

O reitor da Universidade de Columbia se meteu em uma daquelas saias justas históricas. Alguns dias atrás, ele desconvidou de uma palestra Jim Gilchrist, líder da controversa organização Minuteman Project, formada por radicais anti-imigração ilegal nos Estados Unidos.

Foi incômodo, mas fez pouco barulho. Só que agora, a universidade vai receber o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad para algo parecido. Logo ele que é considerado inimigo pelo governo americano, por ser líder de umas das nações definidas pela gestão Bush como fora-da-lei.

A Fox comprou a briga de Gilchrist, do Minutemen, e colocou o reitor na parede. Numa entrevista, ele se complicou ainda mais. Afirmou que, se Hitler estivesse vivo, o convidaria para uma palestra na Universidade de Columbia. Foi o suficiente para ser chamado de anti-semita, louco, comunista safado, só para esquentar. Afinal o presidente do Irã odeia Israel e classifica o Holocausto de mito.

Dizem que uma discussão acaba quando se coloca Hitler na pauta. Aqui, parece ter apenas começado. O caso é bem mais complexo do que a Fox faz parecer. A universidade não vetou simplesmente a participação de Gilchrist. O movimento foi resultado de um pedido de grupos políticos de esquerda dentro de Columbia.

Da mesma forma, eu não tenho dúvida de que é imensamente mais interessante para os estudantes da prestigiosa universidade conversar com o presidente de uma nação vilanizada e vista por muitos analistas como um possível próximo alvo do Bushismo para uma invasão (pouco provável no cenário do vexame do Iraque).

A sensação é de que a Fox aproveitou um assunto menor para inflamar os radicais de direita americanos. Afinal, como é que os caras vão querer determinar quem a universidade recebe ou deixa de receber?

Sinceramente, eu acho que eles deviam deixar o tal do Gilchrist falar e pronto. Na pior das hipóteses, seria uma palestra anódina de um radical. Na melhor, ele seria ridicularizado. Agora, ganhou importância. Mas, como eu também acho que o que é certo a gente faz porque é certo e pronto. Ele devia ter a chance de falar suas bobagens. Ponto final. Agora, palestra do presidente iraninano é um filé mignon! Eu adoraria estar lá para falar com um personagem controverso como esse. E entrevistaria Hitler também. É de uma ignorância enorme achar que um tirano não deve ser analisado e suas idéias não devem ser dissecadas. Esse tipo de idéia é que é uma ameaça terrível à liberdade de expressão. Eu não preciso gostar do líder nazista nem concordar com ele para entrevistá-lo. A mesma coisa com qualquer outra personalidade controversa (e assassina) da história da humanidade.

E, por fim, é uma daquelas ironias americanas que um inimigo do país possa entrar no território dos Estados Unidos e fazer palestras.

Mas o que importa é saber o que você acha disso tudo. O reitor errou? A Fox exagerou? Diz aí.

Free speech?

Impressionante esse vídeo em que um estudante universitário é arrastado pela polícia do campus da Universidade da Flórida depois de fazer perguntas incômodas bradando um livro de Greg Pallast para o senador John Kerry, candidato derrotado à presidência dos EUA em 2004. Inflamado, ele pergunta a Kerry por que ele não contestou o resultado das eleições e porque não trabalhou pelo impeachment de Bush.

Sempre vai aparecer alguém que vai dizer que ele é tão irritado e amalucado que merecia ser preso. Afinal, não tem educação, não é mesmo? Eu adoro quando o ditadorzinho dentro das pessoas resolve se manifestar. Não se prende ninguém por fazer perguntas. Pelo menos em um país verdadeiramente livre.

Agora as versões surgem desencontradas e a imprensa chama o cara de “piadista” e ainda diz que, quando saiu da frente das câmeras, começou a sorrir e foi numa boa para o xadrez. No You Tube, há diversos vídeos da prisão feitos de lugares diferentes do auditório. É quase perfeito demais para ser verdade.

Será que ele realmente fez aquilo de propósito buscando os holofotes? Será que foi tudo calcucado? Ou foram procurar alguma forma de desqualificar o rapaz?

Vale acompanhar a história. O blog dele (supostamente alimentado por um amigo) traz uma coleção de artigos sobre a prisão e os desdobramentos.

Laissez faire, laissez aller, laissez passer

Uns dois anos atrás, eu me irritava solenement quando ia no site da Entertainment Weekly e o conteúdo estava fechado. Um dia, eles se tocaram do quanto isso era bobagem e abriram tudo. Felicidade total.

Ontem, segunda-feira, o New York Times fez o mesmo.

Por que, oras? Eles fizeram uma conta. O número de pessoas que chegava ao seu site por meio dos buscadores como Google e Yahoo era enorme. Só que, como eles batiam com a cara na barreira para quem não paga pelo acesso, acabavam desistindo e indo embora. O jornal viu que podia ganhar mais dinheiro ali com pageviews e cliques em anúncios do que estava conseguindo arrecadar com o acesso restrito assinado. Bingo. Abriu as portas de quase tudo, com exceção de alguns períodos específicos.

Quando eu, em qualquer discussão com colegas, falo que o negócio é abrir o conteúdo, ninguém me ouve. Será que agora vão me levar a sério? Ou a Wired, a EW, a Time e o New York Times, entre muitos outros, estão errados?

Blogueiro-propaganda?

Já que os blogueiros estão discutindo monetização intensamente, vale colocar um assunto na mesa. Como todo mundo ainda está pensando em como fazer isso de uma forma digna, honesta e que dê algum lucro que seja, os modelos ainda estão embaralhados, em construção. Então o espírito aqui é aberto, de debate mesmo. Nada de inferir, de acusar ninguém, porque isso seria ridículo e injusto.

Uma das coisas que está acontecendo muito é a transformação dos blogueiros em garotos propaganda de marcas e campanhas. As empresas lançam campanhas e os blogueiros, em troca de algum tipo de remuneração, falam delas em seus blogs. Em alguns casos, colocam um banner das empresas.

O blog é o blogueiro e vice-versa

Essa pra mim é a face mais fascinante (e intrigante) desse novo modelo. O blog é o blogueiro e o blogueiro é o blog. Então há uma clara fusão entre os dois e, em alguns casos, não fica claro se o blogueiro deve vender espaço de publicidade ou se deve fazer merchandising, por exemplo (ou os dois?). Quais são os limites e as práticas corretas nestes casos? Não sei ainda.

Na mídia tradicional, a boa prática é separar o espaço reservado para a publicidade. Essa separação precisa ser clara e os bons exemplos de como fazer isso estão no Adsense, no Submarino e Mercado Livre, apenas como exemplo. Eles oferecem anúncios em formatos bem diferenciados do visual básico do site. Assim, é possível colocar os anúncios sem confundir o leitor.

Igreja-Estado vira Cozinha-Escritório

Essa divisão radical entre o “departamento” comercial e a “redação” foi chamada pela mídia tradicional de separação entre Igreja e Estado. O departamento comercial não pode influenciar a redação. Apenas vende páginas de publicidade e evita que editores escolham pautas em função de interesses que não sejam o do leitor. Isso, claro, numa empresa séria.

A minha sensação é que o que hoje parece uma prática normal e válida pode comprometer a sonhada credibilidade de um pro-blogger. Os que querem construir sua imagem e acumular mais prestígio precisam se manter longe da postura “blogueiro-propaganda” e ficar no campo da separação entre igreja-estado. Mas, como estamos falando de blogs, eu chamaria de cozinha (onde ele fala do que quer e pensa) e escritório (onde ele resolve os anúncios).

O que é ser blogueiro-propaganda, afinal? É ganhar dinheiro para colocar badges de sites, por exemplo. Um badge não é um banner. Quando uma pessoa o vê, precisa saber quando aquele badge é uma curtição ou indicação do blogueiro e quando aquilo é uma propaganda do site que o badge representa. Esse tipo de escolha confunde o leitor. É como usar roupas da Nike sem dizer que está sendo pago pela empresa para usá-las em público. Atores fazem isso direto. Mas atores não são blogueiros, que vivem de seu prestígio e de sua credibilidade. É por isso que jornalista sério não pode fazer publicidade

Se o pro-blogger quer se diferenciar dos miguxos, por exemplo, será que é certo entrar em promoções-corrente do tipo clique aqui que eu ganho isso ou aquilo? De novo, confunde o leitor.

Aqui no site, eu já fiz algumas experiências de colocar banners aqui do lado. Sempre que faço isso, tento deixar claro que é publicidade. Acertei em alguns casos e errei em outros. Estou aprendendo como todo mundo.

De novo, para que fique bem claro, a idéia aqui é meio que discutir algo que tenho visto em vários blogs. Não quero atacar quem tenha feito isso. Acho que é normal, estamos todos descobrindo os limites e algumas práticas estão no terreno cinza mesmo.

O que importa é saber o que você acha disso. Diga lá.

Copiar e colar e consertar… ou não?

Já se vão, deixa eu ver, 30 dias desde que o Estado de São Paulo publicou uma notícia falsa (será que tirou? Será que corrigiu?) em seu site, conta o Alex Primo.

Até agora, nada de  retratação, embora o Terra tenha sido, digamos, mais ágil.

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Todo jornalista sabe que, para errar, basta começar a escrever. Nossa profissão vive uma luta diária contra o erro e, para isso, foram estabelecidos vários padrões básicos de checagem e de qualidade que os bons órgãos de imprensa sabem que precisam seguir. Quando criou a campanha e estabeleceu a piada do macaco que copia e cola, o Estadão comprou uma briga inglória contra um tipo novo de leitor e mostrou que, ao seguir os conselhos da empresa digital mais conservadora que existe, estava indo na direção errada. O debate soa como uma medida de marketing e só. É pouco. E então? Será que o jornalão corrige o rumo?

A fogueira e a biografia

Os dias passaram e eu nem falei do absurdo da história da biografia de Roberto Carlos.

É engraçado, porque defendo até o fim o direito do cantor de defender sua honra e imagem, seja lá o que isso queira dizer. Mas é impressionante como a Justiça brasileira é incapaz de lidar com casos em que a privacidade e a liberdade de expressão entram em choque. Eu tenho certeza de que há momentos em que a imprensa especializada na vida de celebridades exagera na dose. Mas isso precisa ser decidido do jeito certo. Calúnias precisam ser tratadas como calúnias. E a privacidade de figuras públicas precisa ser tratada do jeito certo.
O fato é que as biografias de pessoas públicas, principalmente as não-autorizadas, têm um valor histórico inestimável. E quem somos nós, eu ou você, para definir o que é relevante no grande contexto das coisas. Eu nem li o livro. Não me interessei por ele. Mas fico imaginando o que se faria se as biografias de Churchill, Hitler, Getulio Vargas, John Lennon fossem proibidas. No Brasil, até a fantástica biografia do Garrincha, escrita com carinho pelo Ruy Castro, teve problemas. Fala sério, esse país não sai do nível da província nunca?
Figura pública tem uma forma completamente diferente de abordar sua privacidade. Quanto mais relevante for a pessoa, menos privada fica a sua vida. Menos controle sobre isso a pessoa terá. A gente pode passar dias, semanas, anos discutindo os limites disso. OU pelo menos era o que a Justiça devia fazer.

Em vez disso, quanto mais são revelados detalhes da tenebrosa e patética audiência que decidiu a questão, mais se vê que o buraco é mais embaixo. Teve juiz tietando o cantor, dando CD musical para ele e até editora abandonando seu autor completamente e deixando de lutar pelo que é certo. Casos como esse precisam ir até o fim, para que existam precedentes e jurisprudência a respeito. Decididos assim, desse jeito patético e vexaminoso, só causam vergonha.

Será que Roberto Carlos acha mesmo que vai controlar tudo que é publicado sobre ele? Seu verbete na wikipedia? Os PDFs piratas do livro que já trafegam nas redes de troca de arquivos? O que será que o cantor vai fazer com os quase 11 mil livros que a editora DEU pra ele? São 11 mil volumes, pessoal. Quantos quilos tem isso? Será que dá uma fogueira bonita?

SERÁ QUE ELE VAI QUEIMAR LIVROS? Como é que isso fica na biografia dele? Aquela que passa de boca em boca, que vai ser escrita por aí e que ele não vai controlar? A biografia que vai contar como uma estrela solitária, em sua fase outonal, ajudou a apagar os registros que, pelo menos por alguns meses, lhe conferiram uma relevância que ele já não tinha há tempos. Afinal, o livro foi lançado apenas alguns dias antes de RC lançar não um disco inédito, mas uma coletânea de grandes momentos do passado. Já que um grande disco dele é coisa que não se vê há décadas. Apenas história.

Agora, cá entre nós… Alguém precisa lançar uma campanha “Roberto, leia um dos seus 11 mil livros”.

As perguntas que têm que ser feitas

Matt Lauer é o cara que expôs a arrogância de Tom Cruise em rede nacional e, definitivamente, anunciou a decadência do astro. Se os pulos no sofá da Oprah foram bizarros, ver Cruise chamando Lauer de ignorante foi uma daquelas cenas que definem tudo a respeito de uma pessoa.

No último dia 11, ele foi ao salão oval e entrevistou George Bush a respeito das denúncias de que o governo americano permitiu que os militares e a CIA torturassem informantes. Sem alternativas no campo da argumentação, porque, afinal, as torturas aconteceram, Bush tenta itimidar Lauer, que chega a invadir o espaço do presidente e tocá-lo num tom de “espere aí!”. Eu nunca tinha visto isso. Provavelmente, nos bastidores, Lauer deve ser mais um bastardo, vaidoso e arrivista. Mas a TV precisa de mais bastardos como ele…

Será que ele é? É.

Eu adoro o slogan de Aliens: No Espaço, ninguém vai ouvir você gritar (ou algo do tipo, minha memória falha).

Pois podemos adaptar para: No espaço, ninguém vai ouvir o seu piti. Ou ainda, parafraseando Carl Sagan, “somos todos feitos de purpurina de estrelas”.

Ok, ok, brincadeirinhas machistas a parte, o ator George Takei, que fazia o senhor Sulu, em “Jornada nas Estrelas” saiu do armário (e sem portinhas automáticas…), ou seja, é gay.

Parece que as bibas do passado estão decididas a se revelar. Alguns meses atrás, Richard Chamberlain, um galã dos anos 70 e 80, revelou que é homossexual. Ninguém ligou, mas tudo bem.

Takei tem quase 70 anos e sabe-se lá o que o levou a revelar esse graaande segredo a essa altura. Mas o que importa é que ele falou. E é importante ter pessoas conhecidas revelando suas opções sexuais. Ajuda a diminuir o estigma. Tem uns artistas brasileiros que fariam muito bem se falassem em público sobre isso.