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Nunca mais a primeira vez

(Ou por que ninguém tem o direito de desrespeitar a obsessão alheia por não saber o que virá)

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Eu não gosto de spoilers, as revelações sobre o que vai acontecer em obras de ficção, sejam livros, filmes, peças teatrais, quadrinhos ou seriados.

Já revelei coisas por acidente, mas tento respeitar as pessoas que não assistiram tal obra. E aqui vai o motivo muito cristalino:

Só existe uma chance de ser surpreendido pela primeira vez.

A única pessoa que tem o direito de abrir mão desse direito é você. Ninguém mais. É a sua vida.

Não interessa que essa e aquela pessoa achem uma bobagem. Não me venham com o papo de que Hamlet ou Romeu e Julieta são incríveis mesmo você sabendo tudo sobre eles. Não é essa a questão. Estamos falando aqui da mais pura de todas as experiências: experimentar Romeu e Julieta pela primeira vez. Sem. Saber. O. Final.

A partir daí, todas as outras vezes vão te oferecer outros insights e sensações. E a única que nenhum deles vai te oferecer novamente? O frescor da primeira vez. Nunca mais.

A estupidez das multidões

Em seu livro “A Sabedoria das Multidões”, James Surowiecki explica como conectadas pelos novos meios digitais, uma multidão de leigos pode tomar decisões melhores do que certos especialistas. Eu lembro disso quando vejo a história da moça que foi ridicularizada por uma turba de imbecis numa faculdade de São Paulo. Porque essa semana, alguém que viu esse vídeo ao meu lado fez esse comentário sobre a burrice das multidões e mandou uma espécie de alusão a obsessão por “multidões” de quem trabalha com internet e mídias sociais.

Muito legal. Obrigado por exprimir uma opinião e tudo mais. É bonito ter interesse nos assuntos e coisa e tal. Mas corre-se o risco de virar-se um Andrew Keen, que escreveu um livro inteiro (O Culto do Amador) baseado no seu bico por ver que pessoas sem pedigree estavam ganhando importância e suplantando gente como ele. A Sabedoria das Multidões é um livro muito bem sacado, muito bem embasado e muita gente que não leu fala muita besteira sobre ele. Só isso.

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O bicho-papão vai te pegar!

A Inglaterra é um lugar curioso. Aqui eu realmente me sinto vigiado o tempo todo. Nunca vi tantas câmeras. Fui obrigado a me registrar na polícia, tudo gera uma identidade com uma foto. A gente pode argumentar as vantagens das câmeras como uma forma de “viagem no tempo” que ajuda a resolver um crime, por exemplo. Ou ainda pensar que as câmeras, mesmo não funcionando, desencorajam o crime. As pessoas se sentem vigiadas e fazem as coisas bonitinhas. De um jeito ou de outro, com as vantagens na mesa, continuo achando a coisa toda assustadora.

Mas a publicidade da TV Licence é uma espécie de quebra da falsa harmonia do argumento pró-Big Brother. É o momento em que o véu de normalidade e proteção cai por terra e eles revelam o espírito opressor.

A TV Licence é a taxa que todo mundo que tem uma TV é obrigado a pagar aqui no Reino Unido. Esse dinheiro é o que sustenta a BBC, um dos mais honestos, orgulhosos e sérios serviços jornalísticos do mundo. Sim. O jornalismo, o quarto poder, aquele que alimenta a democracia e a liberdade de expressão. Acho que a ironia é indiscutível. Veja mais um exemplo de como funciona a publicidade opressora da TV Licence nessa sequência que apresenta um anúncio num website.

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Eu já tinha falado disso antes, quando vi um cartaz no metrô. Não tenho TV em casa e, por isso, não pago a TV Licence. Um dia, a qualquer momento, um fiscal do governo, pode bater na minha porta para ver se eu tenho ou não um aparelho. É bizarro. Todos os meus amigos dizem que nunca viram nem ouviram falar de ninguém processado por conta de uma licença de TV. Ou seja, é o bicho-papão!!

Eu queria ter uma TV para jogar video-game, mas confesso que fico intimidado. E se um fiscal bate aqui e eu tenho que explicar que a TV não funciona para pegar sinal de canais de televisão? Eu posso ser processado e ter que pagar pelo menos £1000 em multa, fora custos com advogados. Você pode checar meu armário pra mim? Ah! E olha embaixo da cama, por favor. Obrigado.

Constituição? Ora, temos os termos de uso!

EU sou louco. Passo dias sem blogar e, então, quebrando as regras do bom senso, mando logo uns cinco posts em sequência. Aí, fico mais uns dias sem tocar no bloguinho.

Estava quase fechando a lojinha quando dei de cara com esse artigo interessante do Dan Kennedy, do Guardian. Ele fala sobre como estamos confiando nossa liberdade de expressão a uma única empresa e que o modelo liberal do Google, que, quando pressionado pela justiça local em vários países do mundo, entrega o que for necessário. O Google é muito mais liberal do que certos governos de alguns países nos quais é usado.

Mas não é só isso. Até um jornal que usa, por exemplo, o You Tube, pode se ver em apuros se a empresa considerar que o tal vídeo fere seus termos de uso. E você sabe. Dane-se a constituição. Você abriu mão de ser cidadão, virou consumidor, amigo (eu, de novo, bato nessa tecla). Termos de uso bate fácil na constituição a não ser que você tenha muita determinação e faça um enorme barulho.

É uma questão de modelo de negócio. Eles são bacanas e liberais enquanto isso não lhes cria problemas. E, cá entre nós, eles são uma empresa. Lucro, lembra? O que não podemos é esperar que eles sempre façam a coisa certa.

De quem é a culpa?

(Vídeo dica do CrisDias)

Se o Brasil é um país capitalista, com um mercado livre, é certo proibir certo tipo de propaganda? Bom, eu volto sempre ao tal contrato social. Há que se ter regras para decidir o que é ético e o que quebra princípios básicos. Então, propaganda de cigarros era mesmo uma aberração. Ou será que não? Afinal, temos propaganda do Mac Donalds, cujos produtos causam hipertensão e apenas contribuem para a epidemia (ou pandemia?) de obesidade. Temos propaganda de cerveja, não é mesmo? Temos propaganda de remédios, que, se usados de forma irresponsável, podem fazer mal. Bom, mas remédios e comida têm outra função: curar e alimentar. Cigarros, noves fora o prazer que proporcionam, apenas fazem mal. Há que se ter uma lógica a permear essas decisões. Há que se ter um princípio justo. E há que se ter, é claro, discussão.

Eu não sei se o princípio desse documentário está certo. Mas, putz, isso me preocupa e eu sou, pelo menos em princípio, favorável ao estabelecimento de regras para a veiculação de publicidade desse tipo. Acho ridículo proibir simplesmente, porque brinquedos são o que são, brinquedos. Não têm função destrutiva. E os fabricantes têm o direito de avisar ao público, por meio de publicidade, que estão vendendo este ou aquele produto. É um princípio básico e inalienável do livre mercado. É tão simples que muitas pessoas esquecem.

Só acho que os próprios publicitários deveriam se mexer e estabelecer seus princípios. O que acontece em geral é que o governo geralmente se mexe quando o abuso passa muito dos limites. E o que estamos vendo é um problema duplo: pais que se omitem e deixam a TV cuidar dos filhos e uma publicidade predatória. Então, só atacar o problema regulando a publicidade não vai resolver nada. Mas fazer alguma coisa, é melhor do que ficar assistindo. Esse princípio básico de agir a despeito de não ser a solução perfeita é o que norteia diversas campanhas. O argumento a favor da omissão só serve aos publicitários, que continuam fazendo a festa. A pressão de uma legislação é exatamente o dispositivo social que causa as mudanças. Não que funcione sempre, mas é alguma coisa.

É da sua conta?

O Diário de Bordo aponta para esse fantástico vídeo do Keith Olbermann, da MSNBC. Fantástico, emocionado, talvez longo demais para a TV, mas muito legal. Ele fala da proposition 8, que baniu o casamento gay da Califórnia. É simplesmente inaceitável, inacreditável que alguma pessoa tenha a coragem de achar que pode dizer o que uma outra pessoa poderia ou não fazer com sua vida pessoal. Esse é um ponto que eu nem aceito mais discutir. E olhe que eu conheço algumas pessoas assim. Tenho dó da cegueira alheia.

O Pablo Villaça ainda teve a manha de colocar uma transcrição traduzida no site. Vale uma lida.

Não era para ser um mundo melhor?

Vou simplificar o que todo mundo quer complicar.

Quando o pessoal fala em blogs, em nova mídia e tudo que vem com ela, uma dos motivos de festa sempre foi o de que todo mundo ia ter voz num mundo em que a tal velha mídia não tinha mais a mesma credibilidade.

Aí, surgem os anúncios, os posts pagos e o pessoal corre atrás de centavos como o burrico tentando pegar a cenoura. Não dá, né, pessoal. Tem que ser diferente. É preciso lutar por algo melhor do que isso. Me deprime ver blogueiros bons, com textos ótimos, vendendo os temas de seus textos a quem pagar mais.

Podem espernear, podem reclamar, podem chamar quem torce o nariz de purista. O fato é que não foi com isso que a gente sonhou. Um mundo sem posts vendidos é bem melhor. Ou vocês vão continuar fingindo que não é?

E então? O que você faz quando pode fazer qualquer coisa? Os melhores blogs? Os mais inovadores? Com os melhores textos e idéias? Ou apenas aquilo que seus, hum, patrocindadores permitem?

Vamos em frente? O meio blog quer mais do que estamos entregando.

Atrasado, mas sem perder a ternura

Essa polêmica entre a Veja e o John Lee Anderson, biógrafo do Che Guevara, com revistas como The New Yorker no currículo, é muito, muito interessante. Demorei para postar aqui por pura falta de tempo de coletar todos os links. Mas foi até bom, porque os desdobramentos foram até o dia 18 de novembro.

A revista publicou uma capa algumas semanas atrás tão alucinada e histérica que até eu que nunca fui fã de Che Guevara fiquei chocado. Aliás, a Veja simplesmente tomou por hábito chamar as pessoas de fedorentas e sujismundas, como se esse tipo de qualificação fosse discussão para a maior revista semanal do Brasil. O título da “reportagem” (assim, com aspas) é “Há quarenta anos morria o homem e nascia a farsa”. Aproveite para ver uma reportagem da mesma Veja feita dez anos atrás. Diz muito a respeito do que a revista se tornou.

Começa quando Pedro Doria  mostra a carta de Lee Anderson para Diogo Schelp, da Veja.

Em seguida, surgem a resposta de Schelp e os gritos histéricos de Reinaldo Azevedo.

Logo surge a tréplica de Lee Anderson, demolidora.

O comentário de Doria, logo em seguida, é irretocável.

Eu vi outro filme

No G1: Fenômeno ‘Tropa de elite’ chega à moda e kit Bope custa R$ 230

Eu vi um filme cheio de crítica e ironia ao sistema apodrecido que torna impossível para um policial ser honesto e cumprir o seu dever de forma adequada. Um monte de gente enxergou uma apologia da tortura e do fascismo.

Entendi a narração do capitão Nascimento como uma espécie de eco ao ditadorzinho que existe dentro de nós. Enquanto o acompanhamos, nos vemos, em muitos momentos, concordando com ele e com a truculência e com a tortura e com várias idéias grosseiras, simplistas e violentas que ele segue. São pensamentos obscuros e assustadores.

Então, há uma forte discussão sobre o filme não conseguir dar sua mensagem de forma adequada e acabar não sendo entendido como deveria. Mas então, depois de ter visto Ônibus 174, como alguém poderia achar que Tropa é um filme que defende e apoia a truculência e o desrespeito à lei? Seria uma guinada radical, um abandono do diretor a todas as suas idéias e ideais.

E no meio disso tudo, as pessoas adoram o personagem. Eu queria acreditar que adoram o capitão porque ele, em essência, é um homem bom em circunstâncias impossíveis. Porque  ele quer fazer a coisa certa. Pelo menos a coisa que ele acha ser certa. Diz muito a respeito do Rio estár como está as pessoas idolatrarem o capitão Nascimento.

Ou eu devo ter visto outro filme…

Tem boi na linha…

The Pudding, anote esse nome. Um site no qual os caras deixam você fazer uma ligação grátis, via VOIP, para qualquer telefone desde que você aceite a idéia de que um robô vai ouvir o que você diz e criar anúncios, com base nessas palavras-chave, que vão surgir no seu navegador enquanto você fala. É um adsense sonoro.

Você acha que uma ligação grátis vale isso? Prefere pagar pela sua privacidade? Isso é paranóia de dinossauro?