Em seu livro “A Sabedoria das Multidões”, James Surowiecki explica como conectadas pelos novos meios digitais, uma multidão de leigos pode tomar decisões melhores do que certos especialistas. Eu lembro disso quando vejo a história da moça que foi ridicularizada por uma turba de imbecis numa faculdade de São Paulo. Porque essa semana, alguém que viu esse vídeo ao meu lado fez esse comentário sobre a burrice das multidões e mandou uma espécie de alusão a obsessão por “multidões” de quem trabalha com internet e mídias sociais.
Muito legal. Obrigado por exprimir uma opinião e tudo mais. É bonito ter interesse nos assuntos e coisa e tal. Mas corre-se o risco de virar-se um Andrew Keen, que escreveu um livro inteiro (O Culto do Amador) baseado no seu bico por ver que pessoas sem pedigree estavam ganhando importância e suplantando gente como ele. A Sabedoria das Multidões é um livro muito bem sacado, muito bem embasado e muita gente que não leu fala muita besteira sobre ele. Só isso.
A Inglaterra é um lugar curioso. Aqui eu realmente me sinto vigiado o tempo todo. Nunca vi tantas câmeras. Fui obrigado a me registrar na polícia, tudo gera uma identidade com uma foto. A gente pode argumentar as vantagens das câmeras como uma forma de “viagem no tempo” que ajuda a resolver um crime, por exemplo. Ou ainda pensar que as câmeras, mesmo não funcionando, desencorajam o crime. As pessoas se sentem vigiadas e fazem as coisas bonitinhas. De um jeito ou de outro, com as vantagens na mesa, continuo achando a coisa toda assustadora.
Mas a publicidade da TV Licence é uma espécie de quebra da falsa harmonia do argumento pró-Big Brother. É o momento em que o véu de normalidade e proteção cai por terra e eles revelam o espírito opressor.
A TV Licence é a taxa que todo mundo que tem uma TV é obrigado a pagar aqui no Reino Unido. Esse dinheiro é o que sustenta a BBC, um dos mais honestos, orgulhosos e sérios serviços jornalísticos do mundo. Sim. O jornalismo, o quarto poder, aquele que alimenta a democracia e a liberdade de expressão. Acho que a ironia é indiscutível. Veja mais um exemplo de como funciona a publicidade opressora da TV Licence nessa sequência que apresenta um anúncio num website.
Eu já tinha falado disso antes, quando vi um cartaz no metrô. Não tenho TV em casa e, por isso, não pago a TV Licence. Um dia, a qualquer momento, um fiscal do governo, pode bater na minha porta para ver se eu tenho ou não um aparelho. É bizarro. Todos os meus amigos dizem que nunca viram nem ouviram falar de ninguém processado por conta de uma licença de TV. Ou seja, é o bicho-papão!!
Eu queria ter uma TV para jogar video-game, mas confesso que fico intimidado. E se um fiscal bate aqui e eu tenho que explicar que a TV não funciona para pegar sinal de canais de televisão? Eu posso ser processado e ter que pagar pelo menos £1000 em multa, fora custos com advogados. Você pode checar meu armário pra mim? Ah! E olha embaixo da cama, por favor. Obrigado.
EU sou louco. Passo dias sem blogar e, então, quebrando as regras do bom senso, mando logo uns cinco posts em sequência. Aí, fico mais uns dias sem tocar no bloguinho.
Estava quase fechando a lojinha quando dei de cara com esse artigo interessante do Dan Kennedy, do Guardian. Ele fala sobre como estamos confiando nossa liberdade de expressão a uma única empresa e que o modelo liberal do Google, que, quando pressionado pela justiça local em vários países do mundo, entrega o que for necessário. O Google é muito mais liberal do que certos governos de alguns países nos quais é usado.
Mas não é só isso. Até um jornal que usa, por exemplo, o You Tube, pode se ver em apuros se a empresa considerar que o tal vídeo fere seus termos de uso. E você sabe. Dane-se a constituição. Você abriu mão de ser cidadão, virou consumidor, amigo (eu, de novo, bato nessa tecla). Termos de uso bate fácil na constituição a não ser que você tenha muita determinação e faça um enorme barulho.
É uma questão de modelo de negócio. Eles são bacanas e liberais enquanto isso não lhes cria problemas. E, cá entre nós, eles são uma empresa. Lucro, lembra? O que não podemos é esperar que eles sempre façam a coisa certa.
Se o Brasil é um país capitalista, com um mercado livre, é certo proibir certo tipo de propaganda? Bom, eu volto sempre ao tal contrato social. Há que se ter regras para decidir o que é ético e o que quebra princípios básicos. Então, propaganda de cigarros era mesmo uma aberração. Ou será que não? Afinal, temos propaganda do Mac Donalds, cujos produtos causam hipertensão e apenas contribuem para a epidemia (ou pandemia?) de obesidade. Temos propaganda de cerveja, não é mesmo? Temos propaganda de remédios, que, se usados de forma irresponsável, podem fazer mal. Bom, mas remédios e comida têm outra função: curar e alimentar. Cigarros, noves fora o prazer que proporcionam, apenas fazem mal. Há que se ter uma lógica a permear essas decisões. Há que se ter um princípio justo. E há que se ter, é claro, discussão.
Eu não sei se o princípio desse documentário está certo. Mas, putz, isso me preocupa e eu sou, pelo menos em princípio, favorável ao estabelecimento de regras para a veiculação de publicidade desse tipo. Acho ridículo proibir simplesmente, porque brinquedos são o que são, brinquedos. Não têm função destrutiva. E os fabricantes têm o direito de avisar ao público, por meio de publicidade, que estão vendendo este ou aquele produto. É um princípio básico e inalienável do livre mercado. É tão simples que muitas pessoas esquecem.
Só acho que os próprios publicitários deveriam se mexer e estabelecer seus princípios. O que acontece em geral é que o governo geralmente se mexe quando o abuso passa muito dos limites. E o que estamos vendo é um problema duplo: pais que se omitem e deixam a TV cuidar dos filhos e uma publicidade predatória. Então, só atacar o problema regulando a publicidade não vai resolver nada. Mas fazer alguma coisa, é melhor do que ficar assistindo. Esse princípio básico de agir a despeito de não ser a solução perfeita é o que norteia diversas campanhas. O argumento a favor da omissão só serve aos publicitários, que continuam fazendo a festa. A pressão de uma legislação é exatamente o dispositivo social que causa as mudanças. Não que funcione sempre, mas é alguma coisa.
O Diário de Bordo aponta para esse fantástico vídeo do Keith Olbermann, da MSNBC. Fantástico, emocionado, talvez longo demais para a TV, mas muito legal. Ele fala da proposition 8, que baniu o casamento gay da Califórnia. É simplesmente inaceitável, inacreditável que alguma pessoa tenha a coragem de achar que pode dizer o que uma outra pessoa poderia ou não fazer com sua vida pessoal. Esse é um ponto que eu nem aceito mais discutir. E olhe que eu conheço algumas pessoas assim. Tenho dó da cegueira alheia.
O Pablo Villaça ainda teve a manha de colocar uma transcrição traduzida no site. Vale uma lida.
Quando o pessoal fala em blogs, em nova mídia e tudo que vem com ela, uma dos motivos de festa sempre foi o de que todo mundo ia ter voz num mundo em que a tal velha mídia não tinha mais a mesma credibilidade.
Aí, surgem os anúncios, os posts pagos e o pessoal corre atrás de centavos como o burrico tentando pegar a cenoura. Não dá, né, pessoal. Tem que ser diferente. É preciso lutar por algo melhor do que isso. Me deprime ver blogueiros bons, com textos ótimos, vendendo os temas de seus textos a quem pagar mais.
Podem espernear, podem reclamar, podem chamar quem torce o nariz de purista. O fato é que não foi com isso que a gente sonhou. Um mundo sem posts vendidos é bem melhor. Ou vocês vão continuar fingindo que não é?
E então? O que você faz quando pode fazer qualquer coisa? Os melhores blogs? Os mais inovadores? Com os melhores textos e idéias? Ou apenas aquilo que seus, hum, patrocindadores permitem?
Vamos em frente? O meio blog quer mais do que estamos entregando.
Essa polêmica entre a Veja e o John Lee Anderson, biógrafo do Che Guevara, com revistas como The New Yorker no currículo, é muito, muito interessante. Demorei para postar aqui por pura falta de tempo de coletar todos os links. Mas foi até bom, porque os desdobramentos foram até o dia 18 de novembro.
A revista publicou uma capa algumas semanas atrás tão alucinada e histérica que até eu que nunca fui fã de Che Guevara fiquei chocado. Aliás, a Veja simplesmente tomou por hábito chamar as pessoas de fedorentas e sujismundas, como se esse tipo de qualificação fosse discussão para a maior revista semanal do Brasil. O título da “reportagem” (assim, com aspas) é “Há quarenta anos morria o homem e nascia a farsa”. Aproveite para ver uma reportagem da mesma Veja feita dez anos atrás. Diz muito a respeito do que a revista se tornou.
Eu vi um filme cheio de crítica e ironia ao sistema apodrecido que torna impossível para um policial ser honesto e cumprir o seu dever de forma adequada. Um monte de gente enxergou uma apologia da tortura e do fascismo.
Entendi a narração do capitão Nascimento como uma espécie de eco ao ditadorzinho que existe dentro de nós. Enquanto o acompanhamos, nos vemos, em muitos momentos, concordando com ele e com a truculência e com a tortura e com várias idéias grosseiras, simplistas e violentas que ele segue. São pensamentos obscuros e assustadores.
Então, há uma forte discussão sobre o filme não conseguir dar sua mensagem de forma adequada e acabar não sendo entendido como deveria. Mas então, depois de ter visto Ônibus 174, como alguém poderia achar que Tropa é um filme que defende e apoia a truculência e o desrespeito à lei? Seria uma guinada radical, um abandono do diretor a todas as suas idéias e ideais.
E no meio disso tudo, as pessoas adoram o personagem. Eu queria acreditar que adoram o capitão porque ele, em essência, é um homem bom em circunstâncias impossíveis. Porque ele quer fazer a coisa certa. Pelo menos a coisa que ele acha ser certa. Diz muito a respeito do Rio estár como está as pessoas idolatrarem o capitão Nascimento.
The Pudding, anote esse nome. Um site no qual os caras deixam você fazer uma ligação grátis, via VOIP, para qualquer telefone desde que você aceite a idéia de que um robô vai ouvir o que você diz e criar anúncios, com base nessas palavras-chave, que vão surgir no seu navegador enquanto você fala. É um adsense sonoro.
Você acha que uma ligação grátis vale isso? Prefere pagar pela sua privacidade? Isso é paranóia de dinossauro?
No vídeo, o reitor se enrola e cita Hitler. Acabou a discussão!
O reitor da Universidade de Columbia se meteu em uma daquelas saias justas históricas. Alguns dias atrás, ele desconvidou de uma palestra Jim Gilchrist, líder da controversa organização Minuteman Project, formada por radicais anti-imigração ilegal nos Estados Unidos.
Foi incômodo, mas fez pouco barulho. Só que agora, a universidade vai receber o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad para algo parecido. Logo ele que é considerado inimigo pelo governo americano, por ser líder de umas das nações definidas pela gestão Bush como fora-da-lei.
A Fox comprou a briga de Gilchrist, do Minutemen, e colocou o reitor na parede. Numa entrevista, ele se complicou ainda mais. Afirmou que, se Hitler estivesse vivo, o convidaria para uma palestra na Universidade de Columbia. Foi o suficiente para ser chamado de anti-semita, louco, comunista safado, só para esquentar. Afinal o presidente do Irã odeia Israel e classifica o Holocausto de mito.
Dizem que uma discussão acaba quando se coloca Hitler na pauta. Aqui, parece ter apenas começado. O caso é bem mais complexo do que a Fox faz parecer. A universidade não vetou simplesmente a participação de Gilchrist. O movimento foi resultado de um pedido de grupos políticos de esquerda dentro de Columbia.
Da mesma forma, eu não tenho dúvida de que é imensamente mais interessante para os estudantes da prestigiosa universidade conversar com o presidente de uma nação vilanizada e vista por muitos analistas como um possível próximo alvo do Bushismo para uma invasão (pouco provável no cenário do vexame do Iraque).
A sensação é de que a Fox aproveitou um assunto menor para inflamar os radicais de direita americanos. Afinal, como é que os caras vão querer determinar quem a universidade recebe ou deixa de receber?
Sinceramente, eu acho que eles deviam deixar o tal do Gilchrist falar e pronto. Na pior das hipóteses, seria uma palestra anódina de um radical. Na melhor, ele seria ridicularizado. Agora, ganhou importância. Mas, como eu também acho que o que é certo a gente faz porque é certo e pronto. Ele devia ter a chance de falar suas bobagens. Ponto final. Agora, palestra do presidente iraninano é um filé mignon! Eu adoraria estar lá para falar com um personagem controverso como esse. E entrevistaria Hitler também. É de uma ignorância enorme achar que um tirano não deve ser analisado e suas idéias não devem ser dissecadas. Esse tipo de idéia é que é uma ameaça terrível à liberdade de expressão. Eu não preciso gostar do líder nazista nem concordar com ele para entrevistá-lo. A mesma coisa com qualquer outra personalidade controversa (e assassina) da história da humanidade.
E, por fim, é uma daquelas ironias americanas que um inimigo do país possa entrar no território dos Estados Unidos e fazer palestras.
Mas o que importa é saber o que você acha disso tudo. O reitor errou? A Fox exagerou? Diz aí.