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Português estranho

É impressão minha ou tem alguma estranha no estilo de redação do CineClick, um site do UOL. Hoje fui ler uma nota sobre Rambo 5 (!) e tinha construções como:

“Sim, estamos a fazer outro ‘Rambo’, mas o problema é saber se vamos fazê-lo na América ou em um país estrangeiro”, revelou o ator

No Brasil, não falamos assim. “Estar a fazer “é uma construção tipicamente lusa. E tem mais…

Sobre todas estas ideias, Stallone disse que “gostaria de aproveitar Rambo para outro gênero, experimentar um pouco com o personagem”, explicou. “Seria definitivamente não ser outro filme de guerra. Eu não posso ir mais longe do que aquilo com que eu tenha já feito”, finalizou.

Hello? Tem tantos erros de construção nessa frase que eu nem sei por onde começar. Eu hein.

A morte dos jornais, de novo e de novo

Não é nenhuma surpresa que os jornais como os conhecemos estão morrendo. Esse artigo da Atlantic diz que o NYT poderia acabar em maio de 2009 (Não vai, não vai, tem outras opções antes de quebrar, calma). A Wired, por sua vez, oferece cinco idéias do que o Google poderia fazer para ajudar. Por que o Google? Bem, porque muita gente atribui ao Google, junto ao Craigslist, parte da culpa pelo fracasso dos jornais no século 21. É meio ridículo culpar empresas por inovação, mas o pessoal está desesperado…

Mas este ano vamos ver jornais abandonando dias menos lucrativos, deixando de ser diários e focando em outro tipo de relação com os leitores. E nisso, vai ficar difícil dizer a diferença entre jornais e revistas semanais. Segura que lá vem confusão.

Constituição? Ora, temos os termos de uso!

EU sou louco. Passo dias sem blogar e, então, quebrando as regras do bom senso, mando logo uns cinco posts em sequência. Aí, fico mais uns dias sem tocar no bloguinho.

Estava quase fechando a lojinha quando dei de cara com esse artigo interessante do Dan Kennedy, do Guardian. Ele fala sobre como estamos confiando nossa liberdade de expressão a uma única empresa e que o modelo liberal do Google, que, quando pressionado pela justiça local em vários países do mundo, entrega o que for necessário. O Google é muito mais liberal do que certos governos de alguns países nos quais é usado.

Mas não é só isso. Até um jornal que usa, por exemplo, o You Tube, pode se ver em apuros se a empresa considerar que o tal vídeo fere seus termos de uso. E você sabe. Dane-se a constituição. Você abriu mão de ser cidadão, virou consumidor, amigo (eu, de novo, bato nessa tecla). Termos de uso bate fácil na constituição a não ser que você tenha muita determinação e faça um enorme barulho.

É uma questão de modelo de negócio. Eles são bacanas e liberais enquanto isso não lhes cria problemas. E, cá entre nós, eles são uma empresa. Lucro, lembra? O que não podemos é esperar que eles sempre façam a coisa certa.

Quem joga sapatos?

Seguindo com a história dos sapatos lançados em cima do presidente Bush, um artigo do Times explica que, embora a ofensa tenha parecido patética para nós, tem lá seu peso para a cultura local. O artigo é mais engraçado do que bom, mas tem alguns momentos bacanas.

De qualquer modo, uma observação importante é que, se o tal sapatudo tivesse feito algo parecido durante a era Saddam Hussein, provavelmente teria sido trucidado.

(Eu falei sobre isso nos comentários do post anterior, mas vale repetir aqui. Como jornalista, me incomoda muito que um “colega” tenha quebrado o protocolo da profissão e tenha feito isso. Para que a imprensa possa ser livre e trafegar em todo tipo de ambiente, capaz de trazer informações para o público, é preciso cultivar a neutralidade a todo custo. Jogar sapatos e outros gêneros de protestos são um absurdo. O trabalho dele era ter feito uma pergunta decente, ter deixado o presidente em uma saia justa, eventualmente. Isso seria fazer seu trabalho como jornalista. Sapatadas são engraçadas e geram repercussão, mas não são parte da missão da profissão.)

iamnews quer ser o futuro no presente (atualizado)

Nir Ofir teve um sonho. Ou melhor, estava escrevendo um livro de ficção científica sobre um mundo no qual todos colaboravam numa grande rede de informações, a Iamnews (algo como “eu sou notícia”). Aí ele se tocou que toda a tecnologia estava de pé e que isso não precisava ser ficção científica. O futuro chegou, meu chapa.

Claro que a coisa toda é mais complexa do que os modelos de jornalismo cidadão que JÁ EXISTEM. Ele bolou um modelo de negócio, pôs de pé um business plan e fundou a empresa Iamnews.com. Quer fornecer notícias, ganhar dinheiro com publicidade e dividir os lucros com os colaboradores. Se acertar, pode virar uma plataforma de publicação poderosa (O TechCrunch fala detalhadamente da apresentação).

Está em busca de investidores. Um monte de gente achou a idéia legal, dentre as várias expostas no TechCrunch50. Será que vai pegar?

A beleza real. Mesmo. De verdade. Juro.

O The Point é um site em que as pessoas criam campanhas, idéias, propostas e tentam juntar uma massa crítica capaz de tornar aquilo realidade. O nome do site vem do termo tipping point, que deu nome ao livro do Malcolm Gladwell.

Hoje, recebi uma newsletter dos caras me chamando atenção para essa campanha: Show Our Beauty: A Challenge to Women’s Magazines

Essa campanha é engraçada porque foca no Photoshop, mas se esquece que, embora poderoso, o programa de retoque de imagens é mais um recurso de pós-produção. Será que poderíamos fazer uma revista inteira sem alteração nos corpos femininos? Mas, se isso é tão importante, vamos excluir a maquiagem embelezadora! Vamos publicar imagens de pessoas sem batom, sem nenhum recurso clássico. Por que, se o negócio é a real beleza, por que não ir até o fim e ver no que dá?

No caso de uma revista como a Época São Paulo, isso não é um grande problema. Naturalmente, em vários momentos, a gente publica retratos de pessoas não maquiadas. A maior parte do tratamento de imagem serve para equilibrar cores, luz, regular tudo para que a imagem impressa na gráfica seja mais fiel ao que foi registrado pelo fotógrafo. Ou ainda, dentro do contexto de alguma reportagem, se comunique com algum conceito específico. Mas para as revistas femininas, isso é um dilema real. Como falar de beleza para mulheres abdicando dos retoques?

Olha, eu confesso que eu compraria pelo menos um exemplar dessa revista sem retoques para ver como ficou. Mas existe um não-jornalista que queira ler isso? Você compraria uma revista assim?

As inovações que surgem da necessidade

O Urblog é uma experiência nova. Usa ferramentas velhas, idéias que sempre estiveram por aí, mas iluminadas por uma nova lógica. É reportagem pura. É resultado da curiosidade da repórter, que sai pela rua sem pauta definida e fica atenta ao que está acontecendo.

Sua meta é produzir vídeos, fotos, textos que retratem histórias da cidade. Duas semanas depois de entrar no ar, está sendo interessantíssimo ver (e ouvir) como a Juliana Vilas está encarando esse desafio.

Uma das primeira inovações flagrantes do formato é decorrente da ausência de edição direta. Sem esse recurso (já que está na rua, sem notebook), a Ju resolveu o problema gravando vídeos mais curtos e os colocando em sequência. O resultado é uma edição que acontece na cabeça do espectador, emoldurada pela quebra dos vídeos, pelos requadros, pela sequência da colocação na página do blog.

Acompanhe o blog. Mais inovações virão por aí. 😉

Celular na mão, gastando sola de sapato

Blogs, em geral, são feitos numa sala, numa cafeteria, numa lan house. Foram feitos assim nos últimos tempos, mas isso não precisa ser uma regra.

No final do ano passado, eu comprei um N95, celular com câmera de video, câmera fotográfica, microfone, internet rápida e o escambau (Importante: comprei o celular do meu bolso. Não recebo nenhum tostão da Nokia, viu?). Fiz alguns testes, quebrei a cabeça e montei meu kit de repórter móvel (só para descobrir que já tinham feito isso antes, podia ter economizado tempo e dinheiro).

Eu estava assumindo o projeto de criação da Época São Paulo e queria muito criar um blog com sabor de rua. Juntamos as duas coisas e inventamos o Urblog. Conseguimos um patrocinador (a Nokia) e colocamos o negócio no ar no último sábado.

A idéia é simples. Uma jornalista sai por aí de ônibus, de trem, de metrô. Ali na hora, ela escolhe um assunto legal, um personagem, uma curiosidade, um momento. Ela filma, fotografa, ela grava uma entrevista em áudio. Dali ela posta direto no blog usando, se precisar, um teclado portátil. Dali saem histórias da cidade. É jornalismo móvel na veia, facilitado pela tecnologia, mas sempre jornalismo.

É claro que a repórter Juliana Villas tem que ler jornal e se informar. Isso ajuda na escolha do caminho do dia. Mas o blog não corre atrás da notícia quente, do hard news. Corre atrás de personagens e situações. Tem que ter faro, tem que estar com o olhar atento.

E o celular é só um facilitador. Um instrumento importante mas que não faz a pauta, não faz história. Em alguns momentos, o que importa é o repórter estar ali. Não vai tirar foto, nem conseguir o audio perfeito. Vai só contar uma história e pronto. Direto da rua.

A imbecilidade

Eu olho nos seus olhos e te conto meu maior drama. O evento que me assombra todas as noites, que me faz acordar suado. O evento que eu revivo em pesadelos, que eu fantasio sempre o que seria da minha vida se aquilo não tivesse acontecido, se eu tivesse feito diferente, se, se, se…

Guilherme Fiuza, jornalista-blogueiro contou em seu blog o drama que viveu em 1990, quando seu filho morreu ao cair do oitavo andar. Ele revelou isso justamente para jogar alguma luz sobre a estupidez, a imbecilidade de pessoas que acham que conceitos básicos da civilização, como o princípio da presunção da inocência até prova em contrário, são absurdos. A investigação sobre a morte de Isabella está longe do fim. Há muito chão a se cobrir antes que o pai e a madrasta sejam considerados culpados ou inocentes, se é que serão indiciados. É só a mais pura ignorância condená-los sem conhecimento de causa, dos fatos, com base apenas em um delegado que gosta de aparecer e em uma imprensa sensacionalista e irresponsável.

Mas diante de tudo, diante do relato duro de Fiuza, há quem tenha tido a cara de pau de mandar comentários como “foi mal, mas você foi negligente com seu filho”. Não vou nem entrar em mais detalhes. É preciso ter um QI muito baixo para, diante dos fatos, fazer um comentário como esse. Além de ser inadequado falar algo assim, simplesmente porque é, a pessoa ainda diz isso sem saber nada sobre o fato. Fiuza não diz em que condições seu filho morreu. Ainda assim, um imbecil, um ignorante, um sei lá o quê, consegue fazer um comentário desses. Eu fico pensando se pessoas assim diriam isso na lata, olho no olho. Ou se, talvez, isso seja mais um subproduto da anonimidade dos fóruns dos blogs e websites.

E esse tipo de pessoa insuportável, ignorante, ignóbil ainda faz uma obsevação de que a suposição de inocência salvo prova seria uma bobagem, porque apenas ajuda criminosos a escaparem. Nessas horas, eu só consigo pensar que preciso ir morar numa bolha, numa ilha deserta, num lugar no qual não precise viver no mesmo planeta que gente assim. Nem respirar o mesmo ar.