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Nunca mais a primeira vez

(Ou por que ninguém tem o direito de desrespeitar a obsessão alheia por não saber o que virá)

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Eu não gosto de spoilers, as revelações sobre o que vai acontecer em obras de ficção, sejam livros, filmes, peças teatrais, quadrinhos ou seriados.

Já revelei coisas por acidente, mas tento respeitar as pessoas que não assistiram tal obra. E aqui vai o motivo muito cristalino:

Só existe uma chance de ser surpreendido pela primeira vez.

A única pessoa que tem o direito de abrir mão desse direito é você. Ninguém mais. É a sua vida.

Não interessa que essa e aquela pessoa achem uma bobagem. Não me venham com o papo de que Hamlet ou Romeu e Julieta são incríveis mesmo você sabendo tudo sobre eles. Não é essa a questão. Estamos falando aqui da mais pura de todas as experiências: experimentar Romeu e Julieta pela primeira vez. Sem. Saber. O. Final.

A partir daí, todas as outras vezes vão te oferecer outros insights e sensações. E a única que nenhum deles vai te oferecer novamente? O frescor da primeira vez. Nunca mais.

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Pinterest: tenho mesmo que usar?

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Eu tenho uma conta no Pinterest há bastante tempo. Mas usar que é bom, eu quase nunca usei. Digo, eu vou lá, olho o que foi “pinado” de vez em quando, mas simplesmente não consegui incorporar na minha rotina, na minha forma de navegar.

Só que a rede foi descoberta há algumas semanas pelo público e subitamente eu recebo todos os dias avisos de que fulano está me seguindo. E começa uma espécie de auto-pressão para que eu passe a usar o Pinterest, afinal “o que as pessoas que me seguem no Pinterest vão pensar de mim se eu não “pinar” nada de legal?”

Eu tenho sempre o hábito de experimentar coisas novas. Mas muitas vezes não passo da fase inicial de várias apps, sites e serviços por dois motivos:

1. Na fase inicial muitos serviços são simplesmente mal desenhados e não conseguem se provar úteis. Veja o caso do Path. Uma idéia legal que demorou mais de um ano para achar um caminho e, mesmo asim, não tem grande utilidade. Mas gerou uma app linda que quase ninguém realmente usa.

2. Não há muito espaço para mais e mais coisas no meu cotidiano. Só vai se incorporar o que for muito, muito genial, util.

Assim, alguns serviços eu vou acompanhando de perto para ver quando se tornam úteis. Parece que o momento do Pinterest chegou. Mas, escaldado que sou, vou ser cético e esperar que o negócio realmente decole e prove seu valor.

O “jornal do futuro” não se parece com um jornal

A Folha se relançou como o “jornal do futuro”. Eu tenho aquele carinho meio cego pelo jornal. Ela tem um papel especial na virada que eu dei na minha vida lá no início dos anos 90. Então é com dor no coração que vejo minha velha casa meio perdidona nos novos tempos.

EU nunca consegui me conectar emocionalmente com o Estadão. Acho o jornal bem feito, tem várias coisas que eu gosto. Mas em SP sou folheiro de carteirinha. Mesmo nos momentos estranhos do jornal, como nos últimos anos. Cresci com O Globo no Rio (meu pai era um leitor assíduo e eu herdei o hábito. Hoje sinto falta se não leio o Globo regularmente) e passei a ler a Folha no início dos anos 90, quando começou a ficar mais fácil achá-la nas bancas cariocas do centro. Mas como trabalhei na Folha, fui trainee lá, tenho um carinho enorme.

Acho que foi por isso que a campanha do Jornal do Futuro me soou tão… triste. Porque não havia nada de realmente novo no jornal. Umas mudancinhas cosméticas muito tímidas aqui e ali e um slogan que prometia e não entregava.

Aí surge o Diário de São Paulo e me traz um negócio realmente surpreendente. Não tem um décimo do prestígio de Folha ou Estadão. Mas oferece uma experiência de leitura inesperada para um jornal diário no Brasil.

Vamos admitir que é muito mais fácil mudar um jornal que estava encurralado em sua irrelevância e não tinha muito a perder. Mas o fato é que grandes jornais são um emaranhado de cadernos. Não seria um enorme absurdo implementar mudanças mais radicais em um caderno e ir experimentando e preparando seus leitores para a mutação. Se você acha que isso é impossível e já começou a dizer “não dá”, “não é tão simples assim” e outras manobras defensivas, precisa urgentemente se reciclar. Não é que o século 21 começou ontem. Já se vai uma década. Não há mais desculpa para ficar repetindo o velho indefinidamente.

O jornal do futuro pra mim é o de amanhã. E para que ele chegue, a gente precisa fazer um bom jornal hoje. Ou em vez do seu jornal, vai ter um concorrente embrulhando peixe… amanhã.

A estupidez das multidões

Em seu livro “A Sabedoria das Multidões”, James Surowiecki explica como conectadas pelos novos meios digitais, uma multidão de leigos pode tomar decisões melhores do que certos especialistas. Eu lembro disso quando vejo a história da moça que foi ridicularizada por uma turba de imbecis numa faculdade de São Paulo. Porque essa semana, alguém que viu esse vídeo ao meu lado fez esse comentário sobre a burrice das multidões e mandou uma espécie de alusão a obsessão por “multidões” de quem trabalha com internet e mídias sociais.

Muito legal. Obrigado por exprimir uma opinião e tudo mais. É bonito ter interesse nos assuntos e coisa e tal. Mas corre-se o risco de virar-se um Andrew Keen, que escreveu um livro inteiro (O Culto do Amador) baseado no seu bico por ver que pessoas sem pedigree estavam ganhando importância e suplantando gente como ele. A Sabedoria das Multidões é um livro muito bem sacado, muito bem embasado e muita gente que não leu fala muita besteira sobre ele. Só isso.

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Michael Jackson morreu e o mundo (inteiro) fez seu tributo

Ontem, o mundo acompanhou em tempo real pela internet o destino de Michael Jackson. Eu ficava pulando de site em site pra ver se os grandes e mais respeitados confirmavam o que o TMZ já tinha publicado: Michael Jackson estava morto. Ponto final.

Incapazes de confirmar a história, CNN, New York Times, Guardian, Reuters e dezenas de outros sites respeitáveis tentavam checar as informações antes de dar o comunicado final. A CNN optou por colocar uma foto de Jacko dando tchau, sinal de que o pessoal provavelmente já sabia que o cantor estava morto, mas, por uma questão de princípios, estava esperando múltiplas confirmações de fontes para dar o comunicado oficial.

(Quando informaram, colocaram na conta do Los Angeles Times. O leitor desavisado pode até achar que é uma forma de tirar o corpo fora. Não necessariamente. É outra coisa. É dar crédito a quem informou e confirmou primeiro. É a velha mídia tentando incorporar certos hábitos dos novos tempos.)

Hoje, já começaram os perfis, obituários, edições especiais e toda a parafernália que cerca esse tipo de evento. É a velha mídia tentando faturar o que puder em tempo de vacas magras. Aliás, hoje, o dia seguinte a um evento como esse já parece uma eternidade pra quem acompanhou tudo em tempo real e leu um monte de coisas ou viu vídeos (tudo editado às pessas) nos sites e na TV à noite. A título de contraste, Farrah Fawcett, cuja morte foi anunciada por meses, por conta do câncer, acabou sendo ofuscada pelo fim de um popstar inesquecível.

As empresas jornalísticas sérias tentavam dar uma dimensão da importância do artista e exploravam vários ângulos, alguns impiedosos, sobre como um homem que ganhou tanto dinheiro chegara naquela situação. Afinal, Michael Jackson foi considerado uninsurable pelas grandes seguradoras. Estima-se que o prejuízo da AIG (a empresa que promoveu a volta de MJ) pode chegar a £300 milhões.

Agora, dá-lhe especulações sobre o quanto Jacko estava com a saúde comprometida, desesperado por algum dinheiro que o tirasse da situação financeira desastrosa e, por conta disso, aceitou uma “encomenda” que seria incapaz de entregar. Nos bastidores do showbiz, havia um enorme ceticismo a respeito das performances do cantor. Nas bolsas de apostas, especulava-se quantas apresentações seriam canceladas.

Não foi uma, nem duas. Todas.

Bom, hoje eu passei em frente ao Lyrics theatre, que apresenta o musical Thriller, com vários artistas interpretando sucessos da carreira de Michael Jackson. Ali, várias pessoas depositavam flores, colaram posters e prestavam uma homenagem ao ídolo. Em todo canto, tocava-se Michael Jackson. Nos sites de downloads (legais e ilegais) só dava você sabe quem. Nas lojas que vendiam os ingressos para os shows pelo triplo do preço original, ainda havia alguns cartazes toscos que os donos esqueceram de tirar das vitrines. É uma ressaca.

Eu vivi o auge de Michael Jackson nos anos 80. Não fui ao show no Brasil, mas ia ao daqui de Londres (presente de um amigo que vem me visitar). Quem sempre foi fãnzona de Michael Jackson mesmo é a Mônica, que chegou a ir de São Paulo ao Rio de carro ouvindo os maiores sucessos de Jacko no repeat do CD player.

O Twitter parou. O Google sentiu o baque. De vez em quando a gente é lembrado que, na era do Long Tail, dos microsucessos, ainda existem titãs midiáticos andando sobre a Terra. Jornalistas e blogueiros novidadeiros acabam esquecendo que artistas com muita estrada, apesar de parecerem não fazer mais barulho nenhum, formam públicos enormes que atravessam gerações e são capazes de criar ondas de choque impressionantes.

Eles são poucos. São mesmo uma raça em franca extinção. Ontem, um dos maiores, e dos últimos, se foi.

Akoha Alex Akoha

Rá. Eu tinha que usar esse trocadilho. Como meu nome não é Lola (ainda bem, já imaginou eu me chamando Lola?) vamos ficar com Alex mesmo.

Mas o ponto é que eu executei minha primeira missão do Akoha ontem: Invite Someone to Drink. Fui na festa de aniversário da Manoella, a mulher do Will Prestes, e no meio da noite me ofereci para pagar um drink para ele. O Will ficou desconfiado, achando que era alguma peça que eu estava pregando até que eu mostrei a carta do Akoha pra ele.

Cheguei em casa e, na hora de registrar que executei a missão, eu posso contar por escrito como foi a coisa toda. Aí eu dou o e-mail de quem participou, posso fazer um videozinho e colocar a missão no mapa. Da mesma forma, a pessoa pode registrar a carta que recebeu no site e contar o seu lado da história. Assim, vai ser possível saber por onde andou minha carta de Akoha. É possível que ela Akoha pelo mundo! (ok, eu mereço um soco agora, eu sei Dois trocadilhos toscos no mesmo texto)

Mas achei a idéia muito legal. Hoje vou executar mais uma missão, pelo menos.

Projeto nerd de mestrado: Play Factor

Meu projeto de mestrado é sobre media. E é sobre jogos. Mas não é sobre jogos, video-games, de tabuleiro ou coisa que o valha. Eu tinha que complicar as coisas ao ponto que eu sinto que um dos meus professores não entendeu a idéia até hoje. Mas que culpa tem ele?

Deixa eu ver se eu consigo explicar minha idéia em poucas palavras.

1. Praticamente qualquer sistema de eventos pode ser representado na forma de processos e transformado num jogo. É assim que você tem um classico do tabuleiro como Banco Imobiliário e algo como Spore, simulando, err…, uma forma digital de criacionismo.

2. Temos também duas gerações inteiras que foram formadas com interfaces para tudo: bancos, escola, notícias, escolha a sua. Todas essas interfaces foram influenciadas profundamente pelos jogos eletrônicos.

3. Se eu posso dissecar processos. Posso desmontá-los e representá-los graficamente. Ao fazer isso, posso olhar para esses processos e entendê-los como um jogo que pode ter um ou vários objetivos, competitivos ou colaborativos. Em alguns casos, há uma objetivo que define vitória. Em outros, o objetivo é a sensação de diversão pura. Entender que jogo é esse, que regras estão sendo usadas é algo crucial.

4. Ao remontar tudo, o próximo passo é naturalmente redesenhar os processos e torná-los mais lúdicos e interessantes. Chamar o leitor (a audiência) para dançar, desafiá-lo(la), seja lá como você quiser definir. É isso que vai fazê-lo voltar.

Tem mais, mas pra um posto introdutório. A gente faz isso faz tempo, mas por outros caminhos e sem processos mais estuturados que nos ajudem a fazer a coisa funcionar direito. Quando eu sair do outro lado do meu trabalho de mestrado, espero estar com alguns desses processos alinhavados de forma clara. O nome desse conceito que eu estou desenvolvendo é Play Factor e eu já coloquei um blog em inglês para me auxiliar no desenvolvimento do meu trabalho. Assim, se você quiser acompanhar e opinar, seja bem vindo.

Contando meu karma

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O Cris me mostrou um conceito fascinante de jogo no outro dia e entrei sem pensar duas vezes na fase de testes. Akoha.

Funciona assim: você compra um maço de cartas e cada uma vem com uma “missão”. Todas essas missões envolvem você sair de casa e fazer alguma coisa, interagir com gente de verdade. Pagar um café, um drink, dar um chocolate, doar uma hora de trabalho social. Quando você faz isso, dá a carta para a pessoa, que, intrigada, vai até o site e a registra. Quando ela faz isso, os pontos da carta vão para você (viram seu karma).

O conceito é brilhante em tantos níveis. Vejamos. Você compra cartas, ou seja, eles criaram um modelo de cobrança que faz sentido, porque você recebe um objeto físico pelo seu dinheiro. O jogo virou um bom motivo pra você encontrar seus amigos ou mesmo conhecer um(a) estranho(a) na rua. E não é só, ao fazer isso, você está ajudando os caras a ganharem novos clientes. A pessoa vai chegar em casa, entrar no site e ficar intrigada com aquilo. Não tenho a menor idéia sobre a taxa de conversão dessas pessoas em jogadores. Mas se elas usarem o cartão já vai ser muito legal. As possibilidades são excitantes.

Adote uma… linha de código

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Estou aqui virando a noite fazendo a apresentação de um business plan e chegam vários e-mails do Brasil o tempo todo. É que, com o fuso horário de quatro horas, o pessoal tá dando aquela navegada final antes de deitar e, pra mim, são quatro da matina. Dureza, fio.

Mas vai daí que chegam duas mensagens. Numa, me oferecem labradores pra adoção. Lindos, fofinhos. Eu olho, penso em como faria para dar conta do Darwin, do Sagan e deles e já desisto. É loucura, penso. Passo pro e-mail seguinte e é um outro pedido de adoção. Só que mais incomum.

Os criadores do Miró, uma espécie de itunes com bit torrent open source e gratuito, estão precisando de dinheiro para seguir com o desenvolvimento do programa e tiveram uma idéia tão maluca que pode até dar certo: você adota uma linha de código do programa (são mais de 46 mil) e vira um patrocinador do desenvolvimento. São US$ 4 por mês por tempo indeterminado. O cara propõe que você pague de coração pelo desenvolvimento da ferramenta.

Muito legal, muito engraçado. Mas vamos à frieza dos números. US$ 4 por mês dá US$ 48 por ano. Não é pouco. Uma assinatura pro do Flickr custa US$ 14 por ano. Sinceramente, eu acho que a idéia foi boa, o preço é que é maluco. Mas vamos ver se cola…