Arquivos da categoria: Geopolítica

A não tão Grã-Bretanha

Foi assustador chegar na Inglaterra exatamente no momento em que a crise mundial estourou. Eu paguei R$ 3.70 numa libra quando fui. Nos primeiros dias da crise, o valor subiu e eu só me ferrei. Depois, as coisas esfriaram e, quando voltei, a libra estava valendo R$ 3.20, só para se ter uma idéia. Nas ruas, vi negócios fechando todas as semanas. Grandes redes de varejo, pequenas livrarias com décadas de idade e um clima de incerteza.

Os jornais, claro, refletiam esse gloom. Escândalos políticos e uma vigília sobre qualquer um que parecesse esbanjar dinheiro se tornaram coisa comum nos diários. A coisa não estava mesmo boa pro lado dos brits.

Esse artigo da Newsweek só tenta resumir em algumas páginas o que a Economist está dizendo há muito tempo. Deve ser por isso que a Economist só ganha influência enquanto a Newsweek se dissolve diante dos nossos olhos. Um artigo de Alex Massie, exclusivo do site da revista, tenta equilibrar o tom sombrio do artigo de de capa. Empilha alguns números e relativiza a crise. Diz um monte de coisas certas, mas perde autoridade pelo tom meio revanchista.

Mas, de qualquer modo, se você quer uma visão geral e resumida do ocaso anunciado do Grã-Bretanha, vale ler.

Crise Bancária e Gripe Suína: A Era das Pandemias

Mundo estranho. Quando eu cheguei aqui no final de setembro do ano passado, o mundo estava estupefato. Havia uma crise que consistia no seguinte: vários bancos estavam virtualmente quebrados, podres por dentro, mas olhando daqui, ninguém podia dizer quem seriam exatamente os contaminados. Alguns deles, com problemas pequenos, já eram declarados vítimas prontas para falir. O mal se espalhou pelo mundo e a cada dia a gente ia lendo sobre um novo banco aqui ou ali que havia quebrado. Ou como a Islândia foi contaminada e caiu. Todo mundo respirou fundo e tomou cuidado pra não ser mais uma vítima.

Hum. Qualquer semelhança entre a Gripe Suína e a Crise Bancária do ano passado não é mera coincidência. O mundo ficou pequeno e é muito fácil algo que acontece no México afetar a vida de pessoas na Austrália, na França, na Inglaterra e no Brasil. Na era da informação, as pandemias são de crise econômica, de vírus mutante da gripe, de desconfiança. Tudo informação, sendo transmitida por diferentes veículos. Só espero que essa sequência de RNA safada não consiga se espalhar do jeito que está todo mundo temendo.

Onde eu sento?

foto_oficial_g20
(a foto oficial do encontro, uma cabeçada)

O assunto mais comentado do grande jantar do G20 não foi a crise mundial, foi quem sentaria perto de quem. Mais especificamente, quem ia ficar perto de Barack Obama, o presidente americano.

Veja o mapa da mesa:

mapa_mesa_g20


(clique na imagem para ver melhor, vai)

E o cardápio foi do Jamie Oliver. Deve ter sido engraçado.

É. Pode até ter sido, mas nas ruas, não teve graça nenhuma. O pau comeu e, nas confusão dos confrontos entre manifestantes e a polícia, um homem morreu. Amanhã é que a coisa acontece de verdade e espera-se um acordo de US$ 1.000.000.000.000 (um trilhão de doletas) que seriam injetados no sistema financeiro. Esse é, definitivamente, um ano emocionante. E não é engraçado.

O aceno de Obama

Hoje, o presidente americano, Barack Obama, enviou uma mensagem ao povo e aos líderes iranianos (no G1 e no Guardian). Digo ao povo e aos líderes porque você só lança um vídeo que o mundo todo pode ver quando está interessado em mandar uma mensagem mais ampla.

Funciona assim: eu estou falando com os líderes, mas ao falar para eles publicamente estou falando para todo mundo que estou aberto a uma nova fase. A mensagem ganha novo significado. Ao mesmo tempo, como muitos iranianos podem ver a mesma mensagem que os líderes (eu não sei quantos, vou perguntar pros meus dois amigos iranianos aqui no curso), cria-se um clima de pressão pública natural. Em alguns casos, positiva. Noutros, negativa. Da mesma forma que o povo iraniano pode gostar e pressionar seu governo na direção de um diálogo, é possível que eles achem que tudo não passa de um golpe e simplesmente queiram que o governo endureça ainda mais com os americanos.

Assim, é claro que não existe movimento isolado, inocente. Os americanos, como ninguém, entendem o significado e o peso de mensagens. Mas eu estou interessado em saber as opiniões dentro do país. Afinal, a última vez que um democrata demonstrou algum tipo de “elasticidade” diante dos iranianos, perdeu a reeleição e foi visto como fraco. Foi Jimmy Carter, que entregou o governo a Ronald Reagan em 1982.

O discurso de posse: nota oito com louvor

O discurso de posse do presidente Obama decepcionou muita gente por ter sido menos emocionante do que os dos grandes momentos da campanha (o G1 tem a versão original e uma tradução).

Ainda bem. É nota oito. Com louvor.

Foi um discurso lúcido, inteligente e que tentou mostrar que a América se coloca em uma posição tolerante e multilateral, humanista e olhando pro futuro. Obama falou de força exercida com humildade (é possível?) de um país que não tem vergonha de seu modo de vida, mas sabe que precisa estar consciente do mal que esses estilo de vida pode causar das nações ao seu redor. Muito, muito lúcido.

É tanto cuidado na retórica que dá até medo de que ele acabe hesitante e, infelizmente, fraco como Jimmy Carter. Bush, por seu lado, usava uma retórica medíocre, sem nenhum cuidado para justificar seus passos. Ele ia em frente, quebrando todos os vasos da loja. Um paquiderme desajeitado conduzido por um treinador mal intencionado, seu vice-presidente.

O que me agrada na lucidez é que fica clara a real intenção de Obama de desescalar a retórica. De sair dos exageros de campanha. Achei bem estruturada a forma como ele diz tudo que vai fazer, mas que nada funciona se o país não estiver interessado em se unir. Se as pessoas não se juntarem em torno de seus princípios.

Num momento em que todos esperavam um triunfalismo, figuras coloridas de linguagem. ELe teve a coragem de fazer um discurso mais frio. De economizar nos crowd pleasers. Entenda o funcionamento dos discursos. Os presidente dá sua mensagem e sempre prepara alguma frase para levantar a platéia e angariar aplausos em alguns pontos. Como quando ele lista os desafios que o país tem pela frente, fala, fala, e fala e termina com: América, vamos vencer esses desafios! Aplausos!! Ou quando ele fala aos terroristas e às nações inimigas e avisa: vamos vencer vocês! Aplausos, aplausos. Ele cuidadosamente vai além desses truques e se dá ao luxo de dizer coisas difíceis.

Como por exemplo, avisar que essa nação é dos cristão, muçulmanos, judeus… e ateus (non-believers) também. Provavelmente deve ser a primeira vez que um presidente americano faz isso em um grande discurso. Note como ele é recebido com silêncio quando fala das qualidades da humildade e auto-controle. Silêncio. Mas ele diz o que tem que ser dito, mesmo sabendo que não é exatamente o que vai fazer o povo americano pular de alegria. Um dos sinais da grandeza de um líder está em saber exercer seu poder de forma civilizada, com grandeza.

Existe uma razão para o fato de que o mundo todo assistiu à posse de Barack Obama. Ontem, na faculdade, estávamos fazendo um trabalho de grupo simulando uma consultoria para mudar a estrutura de um jornal e havia momentos de troca de salas e reuniões. Numa sala onde havia um iraniano, dois chineses, uma egípcia, um sul-africano e uma Islandesa (entre os que me lembro), havia também três computadores conectados no live feed da CNN, de olho na posse e no discurso. Nos corredores da faculdade, os telões, que estão sempre sintonizados na BBC News, mostravam a posse, claro. Sendo o líder da nação mais poderosa economica e militarment falando, cada passo da América nos influencia. Temos que nos interessar, claro.

Pois me agradou esse humanismo, essa clareza, essa intenção de dar o exemplo. Será que isso vai se materializar em um bom governo? Que ele vai ficar só na retórica e se perder? Não sei. Mas a gente dá um passo depois do outro. Não há nenhuma razão para achar que ele vai ser fraco porque quer ser justo. Uma coisa nada tem a ver com a outra. Essa retórica de que fazer a coisa certa, gera sempre ações negativas e até impopulares só serve a quem precisa disso pra ir dormir tranquilo enquanto invade países livres e ignora deliberadamente a própria constituição.

Algumas pessoas acham que é só um discurso. Não. Um discurso é, sim, uma carta de intenções clara. Se um discurso fosse sempre algo vazio, os de Bush poderiam ser sempre bacanas e cheios de palavras bonitas. Não eram. Eram peças com a função de justificar seus atos absurdos. Um discurso de um estadista é algo importantíssimo para nos dizer o que ele quer fazer. A realidade se instala e um monte de intenções ficam no caminho. Mas o rumo está lá, nas palavras cuidadosamente escolhidas. Pavimentar um futuro com novas fontes de energia, exercer a força com justiça, trabalhar, reformar as escolas não porque elas precisam de giz, mas porque elas carecem de idéias. São princípios sólidos que mostram que ele sabe os problemas. Se vai conseguir enfrentá-los é que é a grande questão. É o drama que veremos se desenrolar pelos próximos quatro ou oito anos.

A ironia e a tragédia

“Yeela Raanan says she would prefer not to know about the war in Gaza. She doesn’t want to see the pictures of dead children cut down by Israeli shells or read of the allegations of war crimes by her country’s army as it kills Palestinians by the hundreds.

But there is no escape. Raanan can hear the relentless Israeli bombardment by air, sea and land from her home, just three miles from the Gaza border. Hamas rockets keep hitting her community. And somewhere in the maelstrom of Gaza, her 20-year-old son is serving as an Israeli soldier.

If you do open your heart to the fact that 40 completely innocent people in a United Nations school were killed you have a very hard time. It’s difficult to open your heart to that place and also hold on to wanting the soldiers to succeed. It’s a very hard split in personality. I think it’s necessary but it’s a difficult thing to do.” Raanan says Israelis have dehumanised Palestinians to such an extent that they are no longer sensitive about who they kill. “It’s so difficult for them to put themselves in the place of someone who lives in Gaza. I guess you have to be able to dehumanise to be able to accept this type of war,” she said.”


Trecho do artigo, Why Israel’s war is driven by fear, do Guardian sobre o conflito em Gaza.

EU já vi esse filme tantas vezes. Dessa vez não postei nada aqui sobre o assunto, até agora. E leio sobre isso todos os dias em jornais do Brasil, dos Estados Unidos, da Espanha e da Inglaterra. Fico pensando no emaranhado de interesses, medos e ódios envolvidos nesse conflito absurdo e sem fim. Um conflito que levou um povo que sofreu uma das maiores violências do século passado, o Holocausto, a aprovar essas ações de seu exército.

Mas o fato é que não me considero aparelhado para ir além dessa constatação, dessa ironia triste.

As razões, de acordo com o interlocutor, vão variar imensamente. Algumas pessoas vão enxergar disputas religiosas, outras vão chamar atenção para o belicismo e expansionismo irsaelense ou para a absoluta irracionalidade do povo Árabe, que odeia os Judeus e pronto, num nível em que nenhuma negociação parece ser possível. E tem mais, muito mais. Mas é isso. Estou aqui na minha casa, tranquilo, no Brasil, enquanto as pessoas morrem ou têm suas vidas destruídas, suas famílias dizimadas lá longe, numa terra onde eu nunca pisei. Enquanto pessoas se desumanizam para evitar o sentimento de culpa pelas mortes causadas.

Eu só sei do conflito pelos relatos nos jornais e telejornais. Eu não estou lá e sei o (pouco) que sei por meio de um filtro chamado mídia, seja imprensa ou blogs. Daqui, tudo parece solucionável, né? Da minha poltrona, é um absurdo que as coisas não possam ser resolvidas com diálogo. Não são. Não vão ser. É a realidade. Haverá mais conflito, mais mortes. Um cessar fogo, um recuo. E, em alguns meses, outra tragédia, mais mortes e mais pressão. Até que algum fato novo se coloque no caminho. Espero, sinceramente, que esse fato novo seja algo bom e não um elemento externo de força e sangue. Espero, mas tenho poucas esperanças de que o que quer que aconteça não será algo ruim, que nos vai fazer lamentar antes de resolver qualquer coisa.

Geopolítica 2

Incidentes de fronteira são comuns em nossa história, como lembra Miriam Leitão. A Colômbia já entrou em nosso território antes e tudo se resolveu com diplomacia. Simples assim. Ontem, quando cheguei em casa, vi a entrevista de Rafael Correa, presidente do Equador, ao repórter da Globo. No calor da conversa rápida, sua argumentação se desmonta sozinha: “Nossas fronteiras são porosas, todo mundo sabe disso. Pode haver bases das Farc no Equador da mesma forma que no Brasil!”

Ora. Mas se ele mesmo reconhece que as fronteiras são porosas e que é difícil controlá-las, como é que um incidente de fronteira pode virar uma crise com semi-declarações de guerra entre três países?

Difícil, no âmbito desta crise, é avaliar se foi erro ou acerto Bogotá revelar supostas provas do envolvimento da Venezuela e do Equador em relaçõs perigosamente amigáveis com os líderes das Farc. Ao fazer isso, em vez de simplesmente recuar e pedir desculpas, a Bolívia atacou quando devia ter ido para a defesa. Talvez, o melhor seria ter esperado a poeira abaixar  para, então, em outro contexto, revelar o envolvimento de Hugo Chavez e Rafael Correa. Ficou a sensação do marido que pega uma traição ao violar o e-mail da esposa. Justifica uma falta com outra e tudo acaba em um empate moral.

Mas talvez, ter ido ao ataque possa ter sido uma boa idéia. Coloca tudo em perspectiva e deixa Equador e Venezuela em maus lençóis com o resto do continente. Se for comprovado um esquema de fornecimento de dinheiro venezuelano às Farc, a situação de Chavez como um Reagan de esquerda fica indiscutível.

Geopolítica venezuelana

Que Chavez quer ser (ou já é) uma força política e militar na América do Sul eu já saquei. Não precisa ser muito brilhante para entender os movimentos dele. Ao fazer isso, nos últimos anos, ele saiu daquela zona cinzenta em que se localizava antes.

Explico. Ao viajar e encontrar jornalistas venezuelanos, eu tinha pontos de vista bem particulares sobre Hugo Chavez. Ao mesmo tempo em que o achava fanfarrão, minha sensação era de que, por estar em confronto com famílias poderosas que tinham o controle dos meios de comunicação, era difícil saber o que era fato e o que era mito a respeito dele. E daí que tal jornal venezuelano falava mal dele? Se todas as minhas infos chegavam por meio de fontes viciadas, como eu poderia confiar nelas? Me sobrava a atividade de ter longas conversas com meus amigos reporteros venezuelanos.  E os resultados eram engraçados. Quanto mais alta a classe socioeconômica, mais eles o odiavam. Quanto mais, digamos, simples eram os meus colegas, mais eles gostavam do homem.

Acontece que, ao tentar expandir sua abrangência e virar uma força continental, Chavez saiu dessa zona cinzenta. Ele se mete nas questões de outros países, compra armas a dar com o pau, fala e fala e fala. Quer influenciar o processo, quer ser o sucessor de Fidel. Quer um monte de coisas. Tantas que um mandato não seria o suficiente. Criou, então, um sistema para perpetuar-se no poder.

Nos meses anteriores, o envolvimento de Chavez na negociação com as Farc já cheirava mal. Agora a coisa degringolou de vez. E no meio disso tudo, Chavez agora vira um leão numa questão entre Equador e Colômbia. Faça-me o favor. É razoável que todos os países façam pressão para que Bogotá peça desculpas formais e evite uma guerra. Mas que a Venezuela desloque tropas para a fronteira e cante de galo é só um retrato de um presidente sedento pelos holofotes e, eventualmente, por um conflito bélico que lhe confira ares de libertador, de guerreiro de sei lá o quê.

Leitores especialistas em geopolítica, por favor, me expliquem direito onde estamos e para onde vamos!