Recebi alguns e-mails sobre os posts anteriores a respeito de realidade virtual (que passo a denominar RV de agora em diante) e vale fazer algumas observações pertinentes.O que é uma RV? Bom podemos dizer que é um ambiente que não existe em nosso mundo físico, de átomos, mas sim em um mundo lógico.
As pessoas costumam associar alguns conceitos a tecnologia e um deles é a RV. Mas isso é um erro crasso.
Desde que o ser humano começou a contar histórias, surgiu a realidade virtual. Sim, qual é a surpresa? Ao criar uma história e situá-la em um mundo fictício qualquer, estamos criando uma realidade virtual. Pela definição, um mundo que não existe fisicamente, mas existe em termos lógicos.
Assim, todos os livros são uma realidade virtual. Todas novelas de rádio, todos os filmes. São realidades ficcionais, ou não, isso não importa, que não existem em nosso mundo. Claro que você pode alegar que os mundos virtuais de um filme existem como cenários, mas é procurar cabelo em ovo, mesmo porque os cenários não são nada perto da ilusão que criam no filme.
Podemos citar os sonhos também. Eles são a RV mais perfeita que conhecemos até aqui. O Eduardo Rocha me contou como seu pai sonha, dormindo e acordado, com um passado distante. Há pessoas que dizem poder controlar seus sonhos e ser capazes de criar cenários e situações ali. São os sonhos lúcidos.
Quando eu tinha lá os meus 14 anos, descobri um livro chamado enrola e desenrola. Ali tinha uma história contada para parecer que era você o protagonista e havia diversas opções que você ia escolhendo a cada página. Dali, você pulava para outras páginas de forma não linear.
É um passo à frente. Opção.
É preciso que você entenda antes de tudo que um livro é uma máquina. Uma revista, um jornal, também. São máquinas que usam como motor para funcionar habilidades que, presumivelmente, nossos corpos e nossas mentes possuem. São máquinas completadas por nós.
Um carro também. O fato de ele ter um motor torna isso mais claro. Mas não é diferente. Não funciona sem que alguém o dirija. Em algum tempo, computadores deverão dirigir carros, mas isso é outra história.
Saindo da digressão…
Anos depois de conhecer o enrola e desenrola, eu conheci o RPG. Pela milésima vez, a sigla vem de roleplaying game, é um jogo no qual você cria um personagem e uma outra pessoa cria uma série de situações e pergunta para você o que seu personagem faria se estivesse ali. Parece complicado, mas não é. E funciona que é uma beleza.
Surgiu em 1970 e alguma coisa e eu só o descobri no final da década de oitenta com um grupo de heróicos amigos. Onde eu quero chegar é que até aí, nesses tipos de diversão, não havia computador na equação, sacou?
O computador entra na história para turbinar as coisas. Alguns anos depois de eu começar a jogar RPG, surgiram jogos de computador como Wolfenstein e Doom. Até ali, quando eu falava em RV as pessoas diziam que eu estava viajando. Mas eles nada mais são do que o primeiro passo nessa direção.
A meta de RV é criar o que os sonhos lúcidos prometem. Um mundo virtual sob seu controle. Ali, você poderia ser mais rápido do que um trem, e poderia saltar mais alto que um prédio. Ali, poderei ter a mulher que quiser, na cama que escolherei.
A mulher que quiser (ou o homem, depende do sexo ou da preferência sexual) os seres humanos já imaginam há séculos com a masturbação. Uma modalidade de RV bem interativa, se é que você me entende. Saltar prédios, correr muito rápido, são coisas que os videogames trazem para a classe média moderna. Aliás fazer coisas impossíveis é bem possível em sonhos. Mas é difícil controlá-los. E feitos impossíveis são comuns em RPGs, não vou esquecer.
As pessoas querem mais. Elas querem sentir as coisas como se fosse tudo verdade. Elas querem ter o controle e querem ter as sensaçòes. E isso, o século 21 promete atingir com o uso de computadores. A única atuação dessas maquininhas é no papel de tornar esse sonho milenar realidade.
O que foi mudando ao longo dos séculos foi o nosso grau de interação com os mundos virtuais. Antes, nós só podíamos acompanhar o que estava acontecendo sem que nada pudéssemos fazer. éramos Cassandras.
Lembro de um episódio do desenho da Betty Boop que eu vi quando era criança. O cachorrinho dela se apaixonava por uma cachorrinha. Ela nào dava bola para ele até que caia em um rio ele a salvava.
Eu fiquei com ódio da personagem. De como ela só foi capaz de amá-lo por gratidão. Pedi ao meu irmão Fernando que me ajudasse a mudar o final do desenho.
Nando é onze anos mais velho do que eu, que tinha uns sete anos na época. Sem computadores para ajudar, ele montou uma maquete tosca com algumas folhas de papel ofício, caneta colorida e cola. Fez o cachorrinho, a cadelinha, o rio e uma cachoeira.
Tudo pronto, encenou o que acontecera no desenho, só que, em minha versão, o cachorrinho a deixava morrer afogada. Desculpem pela minha crueldade juvenil.
Meu mano, que controlava também aquela RV, fez o cachorro ficar triste. Me disse que ele precisava dela. Que gostava dela e que às vezes a gente precisa lutar quando quer alguém. Refizemos a simulação de novo, só que nada de rio. Em minha versão, ele e ela se apaixonavam antes, sem que ela precisasse se afogar em um rio para entender que ele a amava.
Desculpem, outra digressão.
Voltando, ao longo dos anos, esses mundos virtuais foram invadindo os nossos sentidos e agora estamos chegando à última fronteira. Dos capacetes, passaremos a enganar nossos sentidos. Assim como muitas vezes não sabemos que estamos sonhando, não vamos conseguir distinguir a RV da realidade.
E o mundo físico e o lógico vão se fundir. Quem viver, verá.