Arquivos da categoria: Filosofia de Botequim

Me engana que eu desgosto

É desolador ver Weslian Roriz (PSC) falando. Não só por ela, mas pelo cenário que ela, indiretamente, revela.

Uma coisa é não ter o domínio da habilidade de falar para a câmera. Alguns bons políticos não eram bons oradores, principalmente teleoradores.

Também não é só pelas promessas vazias, desprovidas de substância e reflexão. NAs frases que andam em círculos porque a candidata parece não ter idéias.

É que ao olhar para Weslian Roriz, você vê que a grande diferença entre ela e a maioria dos candidatos é o treino. Suas promessas são tão fictícias quanto a de outros que falam melhor e dominam a narrativa da TV. Ela só não sabe enrolar tão bem quanto eles. Sua inabilidade absoluta a expõe, mas expõe também a falta de qualidade em outras praças, não só no DF.

É constrangedor, mas periga desviar nossa atenção para os outros Weslians mais espertinhos que estão nos cercando e nos governando. Os otários, incultos e despreparados são eles ou nós?

O atropelamento que revelou o strike moral

O caso do atropelamento do filho da atriz Cissa Guimarães é exemplar de tudo que está errado na nossa sociedade. É uma tentação explicar os fracassos do Rio por aqui, mas não é justo. O problema é geral. Esse caso poderia se repetir em qualquer canto do país. É um strike moral em todos os níveis. Um fracasso para todos nós.

Primeiro, jovens sem limites atropelam uma pessoa e, tendo a opção de socorrer, fogem. Um absurdo total.

Depois que fazem a besteira, pedem ajuda aos pais, claro. Esses, em vez de dar o exemplo e explicarem que eles precisam enfrentar as consequências de seus atos, acobertam o crime.

Entra a polícia carioca. Essa maravilha. Toda vez que damos de cara com um caso rumoroso descobrimos que, embora a corporação não esteja toda contaminada pela corrupção (como insiste em afirmar o Governador do Rio), ela está curiosamente bem distribuída, de modo a estar presente em várias situações de destaque. Basta puxar um fio e ela aparece. Muito hábeis os corruptos, impressionante.

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O cachorrinho perneta num mundo sem noção

Ter um cachorro de três pernas é uma atração à parte, ao que parece. Nos passeios de todas as noites, eu sou parado o tempo todo com pedidos de explicações sobre o motivo da falta da perna do meu cachorro.

Contexto, contexto. As semanas de recuperação foram legais. O Darwin foi ficando mais forte a cada dia, o paladar voltou. Eu comecei a ter esperanças de que o pior estava para trás e que tínhamos pela frente alguns meses de tranquilidade. Até que, na semana passada, numa das trocas de curativo, eu notei uma bolinha vermelha na cicatriz da cirurgia. Fiquei assustado, mas podia ser só uma bolhinha por conta do esparadrapo. Sabe-se lá.

Era o tumor de volta. Claro. O que mais? Até aqui, sempre que algo pode dar errado. Bem. Dá. Não foi diferente. Entrei em agonia. Fiquei desolado. Eu estava começando a ver a vida voltar ao normal.

Nessas semanas de recuperação, eu ia respondendo às perguntas com uma versão resumida da história do tumor, da amputação etc. E sempre terminava com uma nota de esperança. Mudei meu discurso. Agora eu não me permito mais viver em negação. Eu preciso aceitar que o tempo está contra nós.

Então, em vez de maquiar a situação eu simplesmente conto a história e termino com “É, mas o tumor voltou”. É isso. Aceite o destino estúpido. Tudo agora se resume a levar a briga para outro campo. Ganhar tempo, lutar por qualidade de vida e conforto pro meu pretinho. Então, meu discurso é pra mim também. Me ajuda a aceitar o que vem pela frente. Me ajuda a organizar minha cabeça, minhas expectativas e a colocar as coisas em perspectiva. Realidade.

Hoje, fui passear com o Darwin nos arredores e cruzei com várias pessoas que iam me perguntando, de novo e de novo, o que houve. Uma delas, um motorista de ônibus esperando começar sua próxima viagem, me parou e perguntou porque o Darwin “estava aleijado”.

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Maus, I Will Survive e a sorte dos sobreviventes do holocausto

Não achei engraçado nem desrespeitoso, como tenho certeza que muita gente vai dizer que é. Achei… Curioso.

De tudo que eu vi e li sobre o Holocausto acho que o que mais me tocou foi Maus, álbum do Art Spiegelman que me demoliu emocionalmente. O pai do protagonista conta toda sua saga de sobrevivência às atrocidades do regime nazista. No final, não lembro se é ele que fala sobre como as pessoas olham o valorizam como um lutador que sobreviveu por que se negou a morrer ou porque era especial.

Não. Diz o personagem. Sobreviveu porque teve sorte. Outras pessoas tiveram garra, tiveram fibra, foram inteligentes e simplesmente morreram ao acaso, ao bel prazer de algum louco homicida.

Querer muito viver não era o suficiente. Sobreviver ao terror nazista, à insanidade daquele regime era, na enorme maioria das vezes, obra do acaso. Esse bem-humorado “I Will Survive” no vídeo acima soa então como uma bobagem, mesmo que a gente tente achar alguma interpretação edificante na letra da música. O clipe é até bem intencionado, até quer ser engraçado, mas para mim erra o alvo.

Atualização: O Leandro avisa nos comentários que é justamente esse comentário que eu citei, da sorte pura, que surge num outro vídeo relacionado: http://www.youtube.com/watch?v=DpfID7pLe7M

Adeus, Dunguismo. Não vou sentir sua falta nem por um segundo.

Se foi mais uma Copa. Não vou dizer que não senti nada, porque seria mentira. Mas fiquei pouco frustrado em comparação com outras desclassificações. Eu nunca gostei do time do Dunga, como está claro em meus relatos no Twitter desde sempre. Sempre achei Dunga com uma empáfia desproporcional à suas qualidades práticas. Nunca me senti representado pelo time dele e por alguns dos jogadores em especial. Mas os caras colocavam aquela camisa amarela (ou a azul, como ontem) e eu simplesmente não conseguia não torcer.

Eu odeio jogo feio e odeio, também, quando meu lado joga, além de feio, com destempero. É uma característica minha. Sei que muita gente deve gostar do jeito daquele cabeça de bagre do Felipe Melo jogar. Mas eu não posso achar bonitinho um jogador da seleção mais vitoriosa, aquela que (supostamente) joga bonito e melhor naturalmente, baixando a porrada pra todos os lados e saindo com a cara lavada e dizendo que não foi nada. É me chamar de burro. Felipe Melo, principalmente, não me representa. Eu, aliás, achei a perfeita tradução do que ele é: o Forrest Gump Bizarro. O Mundo Bizarro é uma criação para os quadrinhos do Superman. É um mundo onde tudo é meio que reverso (mais sobre isso na Wikipedia). Então o Super, que é um herói inteligente e bacana, vira um idiota malzão. Se Forrest Gump tinha a sorte de estar sempre no lugar certo participando de alguma coisa posititva da história, Felipe Melo estava em todos os momentos ruins dessa seleção. É tudo culpa dele.

Sério. Meus amigos de vários cantos do mundo estão cansados de me gozar porque o time do Brasil é, para eles, uma droga. É ridículo um indonésio, um americano, um iraniano fazer piada com um brasileiro sobre futebol. Mas eles fizeram. Sabe por que? Porque eles perceberam o óbvio, Dunga é… Isso aí que a gente viu. Até quem tem muito menos tradição (ou nenhuma) percebeu. Mas a CBF deixou esse trem desgovernado seguir em frente.

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Michael Jackson morreu e o mundo (inteiro) fez seu tributo

Ontem, o mundo acompanhou em tempo real pela internet o destino de Michael Jackson. Eu ficava pulando de site em site pra ver se os grandes e mais respeitados confirmavam o que o TMZ já tinha publicado: Michael Jackson estava morto. Ponto final.

Incapazes de confirmar a história, CNN, New York Times, Guardian, Reuters e dezenas de outros sites respeitáveis tentavam checar as informações antes de dar o comunicado final. A CNN optou por colocar uma foto de Jacko dando tchau, sinal de que o pessoal provavelmente já sabia que o cantor estava morto, mas, por uma questão de princípios, estava esperando múltiplas confirmações de fontes para dar o comunicado oficial.

(Quando informaram, colocaram na conta do Los Angeles Times. O leitor desavisado pode até achar que é uma forma de tirar o corpo fora. Não necessariamente. É outra coisa. É dar crédito a quem informou e confirmou primeiro. É a velha mídia tentando incorporar certos hábitos dos novos tempos.)

Hoje, já começaram os perfis, obituários, edições especiais e toda a parafernália que cerca esse tipo de evento. É a velha mídia tentando faturar o que puder em tempo de vacas magras. Aliás, hoje, o dia seguinte a um evento como esse já parece uma eternidade pra quem acompanhou tudo em tempo real e leu um monte de coisas ou viu vídeos (tudo editado às pessas) nos sites e na TV à noite. A título de contraste, Farrah Fawcett, cuja morte foi anunciada por meses, por conta do câncer, acabou sendo ofuscada pelo fim de um popstar inesquecível.

As empresas jornalísticas sérias tentavam dar uma dimensão da importância do artista e exploravam vários ângulos, alguns impiedosos, sobre como um homem que ganhou tanto dinheiro chegara naquela situação. Afinal, Michael Jackson foi considerado uninsurable pelas grandes seguradoras. Estima-se que o prejuízo da AIG (a empresa que promoveu a volta de MJ) pode chegar a £300 milhões.

Agora, dá-lhe especulações sobre o quanto Jacko estava com a saúde comprometida, desesperado por algum dinheiro que o tirasse da situação financeira desastrosa e, por conta disso, aceitou uma “encomenda” que seria incapaz de entregar. Nos bastidores do showbiz, havia um enorme ceticismo a respeito das performances do cantor. Nas bolsas de apostas, especulava-se quantas apresentações seriam canceladas.

Não foi uma, nem duas. Todas.

Bom, hoje eu passei em frente ao Lyrics theatre, que apresenta o musical Thriller, com vários artistas interpretando sucessos da carreira de Michael Jackson. Ali, várias pessoas depositavam flores, colaram posters e prestavam uma homenagem ao ídolo. Em todo canto, tocava-se Michael Jackson. Nos sites de downloads (legais e ilegais) só dava você sabe quem. Nas lojas que vendiam os ingressos para os shows pelo triplo do preço original, ainda havia alguns cartazes toscos que os donos esqueceram de tirar das vitrines. É uma ressaca.

Eu vivi o auge de Michael Jackson nos anos 80. Não fui ao show no Brasil, mas ia ao daqui de Londres (presente de um amigo que vem me visitar). Quem sempre foi fãnzona de Michael Jackson mesmo é a Mônica, que chegou a ir de São Paulo ao Rio de carro ouvindo os maiores sucessos de Jacko no repeat do CD player.

O Twitter parou. O Google sentiu o baque. De vez em quando a gente é lembrado que, na era do Long Tail, dos microsucessos, ainda existem titãs midiáticos andando sobre a Terra. Jornalistas e blogueiros novidadeiros acabam esquecendo que artistas com muita estrada, apesar de parecerem não fazer mais barulho nenhum, formam públicos enormes que atravessam gerações e são capazes de criar ondas de choque impressionantes.

Eles são poucos. São mesmo uma raça em franca extinção. Ontem, um dos maiores, e dos últimos, se foi.

Surpresa: Maísa é uma criança!

Vi no Gafanhoto esse clipe da Maísa no Silvio Santos. Bom, nem vou entrar no mérito da escrotice dele induzir ela ao choro dessa forma e, como o programa é gravado, apresentar a situação em rede nacional de qualquer modo. Como ele é o Silvio Santos, se safa de ser condenado por esses absurdos. Mas o negócio é lembrar que ela é só uma criança. A gente sabe disso, mas até esquece que ela pode ter reações tão… infantis.

Somos mais iguais do que gostaríamos

Os brasileiros têm um problema de auto-estima bem curioso (Ok, todo mundo tem o seu, mas eu sou brasileiro, então vou falar do nosso, ok?). A gente acha que algumas coisas (erradas) só acontecem no Brasil e adora dizer “Rá! No (coloque aqui seu país de Primeiro Mundo) isso não acontece!! Legal, legal. Mas acontece.

Aqui tem mais infra-estrutura, mais tradição e um cidadão com um nível educacional superior, na média. E a média é só a soma de todo mundo, dividido pelo número de pessoas. Uma boa infra-estrutura permite que os fora de série se sobressaiam. Uma estrutura ruim os enterra num canto qualquer onde eles pode nunca ser notados.

E aqui (surprise, surprise) também tem muita bobagem. Um monte de erros grosseiros e roubo. Isso mesmo, o pessoal do Primeiro Mundo rouba. Muito. Eu sei, eu sei. Não é novidade, você deve saber que não é. Mas as pessoas insistem em fingir que eles são perfeitos e nós somo lixo, então é bom relembrar isso de vez em quando. Aqui, como no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, os políticos usam mal o dinheiro do contribuinte. Eles deixam o governo pagar as coisas pra eles!! Nossa!

E essas barbaridades acontecem na França, na Itália, no Japão…

No momento, o pau está comendo aqui porque os parlamentares são cheios de mordomias e abusam. Nossa, mas isso não era algo que só acontecia no Brasil? Hum. Não. As empresas estão quebrando, negócios que daí de longe parecem coisas grandiosas são micro-empresas de fundo de quintal iguais as nossas e eles cometem erros grosseiros de organização todos os dias. Minha amiga alemã disse que, para ela, a Inglaterra parece um país em desenvolvimento.

Comece a aceitar que eles não sabem direito o que estão fazendo. Só fingem melhor do que a gente.

Crise Bancária e Gripe Suína: A Era das Pandemias

Mundo estranho. Quando eu cheguei aqui no final de setembro do ano passado, o mundo estava estupefato. Havia uma crise que consistia no seguinte: vários bancos estavam virtualmente quebrados, podres por dentro, mas olhando daqui, ninguém podia dizer quem seriam exatamente os contaminados. Alguns deles, com problemas pequenos, já eram declarados vítimas prontas para falir. O mal se espalhou pelo mundo e a cada dia a gente ia lendo sobre um novo banco aqui ou ali que havia quebrado. Ou como a Islândia foi contaminada e caiu. Todo mundo respirou fundo e tomou cuidado pra não ser mais uma vítima.

Hum. Qualquer semelhança entre a Gripe Suína e a Crise Bancária do ano passado não é mera coincidência. O mundo ficou pequeno e é muito fácil algo que acontece no México afetar a vida de pessoas na Austrália, na França, na Inglaterra e no Brasil. Na era da informação, as pandemias são de crise econômica, de vírus mutante da gripe, de desconfiança. Tudo informação, sendo transmitida por diferentes veículos. Só espero que essa sequência de RNA safada não consiga se espalhar do jeito que está todo mundo temendo.

Em busca das ereções perdidas (?!)

Faz-me rir um texto desses. Mas vale uma lida na versão completa. Abaixo um trechinho…

“Nada tenho contra vigilantes, repito. Mas também acrescento que os vigilantes têm de cumprir dois requisitos básicos.
Em primeiro lugar, só podem existir na tela, não na vida real. Na vida real, continuo a preferir o Estado de Direito, em que existem leis, polícia e tribunais, e não loucos ou beneméritos que gostam de fazer justiça com as próprias mãos.
Mas mesmo os vigilantes das telas têm de cumprir um segundo requisito: não podem usar collants, máscaras, pinturas ou capas supostamente voadoras. Dizem-me que Batman, ou Super-Homem, é uma metáfora profunda sobre a nossa condição solitária e urbana; heróis derradeiros da pós-modernidade. Não comento. Exceto para dizer que morro de rir quando vejo um ator, supostamente adulto e racional, enfiado num pijama colorido e disposto a salvar a humanidade das mãos maléficas de um vilão tão ridículo e tão colorido quanto ele.
Sem falar dos fãs: homens feitos, alguns casados, que continuam a acreditar que um super-herói em pleno vôo compensa todas as ereções falhadas.”

Ereções falhadas… Uau!