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Carta para a Marina – 2 anos

As sobrinhas não param e ficam embaçadas na foto
As sobrinhas não param e ficam embaçadas na foto

Marininha, Marizoca, delicinha

Deixe eu começar dizendo OBRIGADO.

Os últimos dois anos foram dos mais difíceis da minha vida. Eu tive uma depressão horrível, minha vida virou de cabeça pra baixo, perdi gente que amo demais e até um pedaço da minha capacidade de sentir.

No meio disso tudo, eu só consegui realmente curtir o amor, a ternura, o carinho, sorrir de verdade e aquecer o peito quando eu estava olhando para você (e para sua irmã, mas ela merece uma outra carta separada).

Lembro muito bem da primeira vez que vi você. E do amor puro, sincero, intenso que senti. Antes disso, só sua irmã tinha conseguido tirar isso de mim. Com a “Caia”, percebi que havia um pai potencial aqui dentro. Sua irmã me fez pensar na idéia. Você me fez ter certeza de que, dada a oportunidade, eu seria capaz. Mesmo que eu eventualmente não seja pai, pelo menos sei que tenho esse amor potencial. E, bem, se for o caso, não acho nada mal poder dar ele todinho pras minhas sobrinhas lindas.

Porque o que me aconteceu foi que eu esqueci o que eram esses sentimentos. Eu mergulhei fundo. Virei um robozinho vivendo um dia depois do outro. Deixei de sonhar.

Mas como não sonhar quando sua sobrinha diz o primeiro “aê”? Quando ela te recebe com um abraço gostoso e seus bracinhos mal conseguem dar conta da sua perna? Como dizer não quando você vem, olha pra mim e diz “aê popoca”? Algum compromisso vai ter que esperar um punhado de milho estourar.

Impossível não me derreter quando eu vejo você e sua irmã juntas. No momento em que ela, cheia de orgulho, mostra um novo “truque” seu. Ou quando ela te propõe alguma coisa e você, animadíssima, diz “mamuuuu”. Eu sou a “Caia” e você é a sua mãe. Que bom poder reviver as coisas assim.

Esses primeiros anos são exatamente os que eu perdi da sua irmã. Há esse lado também. Eu queria ter curtido a “Caia” assim. Não deu. Estou curtindo agora de outro jeito. Minhas costas bem sabem disso. E carregar você e ela ao mesmo tempo… Aproveitem agora enquanto eu dou conta.

Vou te contar uma história. Uns povos criaram umas línguas bem velhas e em algum momento, a humanidade não sabia mais como entender essas línguas. Aí, vários anos atrás uns cientistas acharam uma pedra que tinha uns símbolos anotados que ajudaram a entender de novo essas línguas muito, muito antigas e perdidas. O nome desta pedra é Rosetta.

Você e a “Caia” são a pedra de Rosetta dos meus sentimentos. Tem coisas que eu tinha perdido a referência. Eu não sabia mais direito o que eram. Pois ao sentir com vocês, eu resgatei e lembrei do que tinha esquecido. E voltei a ter esperança em mim. Por isso que algumas pessoas dizem que não estão ensinando às crianças. Estão aprendendo.

Eu te amo por muitas coisas e uma delas é, sim, por me ensinar.

Te adoro tanto e tanto.

Até o ano que vem.

Tio Aê

(Não acredito que já se vão dois anos. Essa é, então, nossa segunda cartinha. Mais uma que você vai ler um dia, quando puder entender o que está aqui)

Adeus: Carl Sagan, o maltês (2000-2010)

Meus cachorros me fizeram uma pessoa melhor. Tenho absoluta certeza disso como tenho certeza de poucas coisas nessa vida. Parece que foi ontem e eu acho que é por isso que dói tanto. Uma década que passou como um raio.

Foi no dia 22 de dezembro de 2000. Como eu disse, parece que foi no outro dia. Tínhamos ido ao cinema e a parada na Pet Shop foi completamente acidental. A Mônica cismou com ele naquela gaiolinha no fundo da loja. Saímos dali com a bolinha de pêlos que cabia na palma da minha mão. O cinema foi cancelado.

É engraçado. Compras de impulso como essa são a receita do desastre. O dono vai conhecer o cachorro e se arrepender da idéia estúpida de criá-lo a cada xixi, a cada cocô, cada choro ou latido. A Mônica nunca nem olhou para trás. Parecia que tinha pensado naquilo por meses e não por alguns segundos. Ela, como de costume, não hesitou muito na escolha do nome que todo mundo pensa que é idéia minha: Carl Sagan. Tudo idéia da Mônica.

Carl Sagan era rabugento, era genioso e mimado. Carl Sagan não sabia e nem queria saber de truques. Nunca sentou obedecendo um comando. Nunca pulou, deitou. Nada. A Mônica dizia que daria US$ 1 milhão para o treinador que ensinasse um truque ao Sagan. Para ela, ele era intreinável porque cheio de personalidade. Lindo, fofinho, todo mundo o cercava de carinhos e agrados. Ele nunca precisou mendigar nada, nunca se moldou a nós. Nós é que fazíamos tudo por ele. Dormiu em nossa cama desde sempre e atrapalhou, sim, nossa vida sexual em vários momentos. Era exatamente o plano dele…

Dormia com as costas coladinhas nas minhas. Não porque me adorava (embora ele me adorasse, sim), mas para saber direitinho onde eu estava e embarreirar minha aproximação da Mônica. Para ele, ela era dele e de mais ninguém. Simples assim. A gente, contrariando todos os conselhos de especialistas em comportamento canino, deixava ele pensar que era verdade. Nós éramos um casal sem filhos e ele era nosso neném.

Só se machucou gravemente uma vez quando, pequenininho, pulou da cama, caiu no chão e desmaiou. Lá fui eu correndo pro veterinário desesperado. Tinha sido só um susto. Ontem aconteceu minha segunda emergência com o Sagan em quase dez anos. Como eu ia saber onde aquilo ia dar?

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Mágica intercontinental

Uma das coisas mais divertidas que eu fiz por aqui foi mandar pequenos vídeos para a minha sobrinha. Eu comprei alguns fantoches que serviam de amiguinhos do tio e fiz algumas mágicas para entretê-la. Foi uma tentativa de evitar que esse ano fora significasse um ano inteiro em que o “tio Alê” não existisse no desenvolvimento dela.

A gente é uma família pequena e bem unida. A Clarinha é, pra mim, como se fosse a Anna 2.0 (e é, né? com uma adição de código do CrisDias). Junte a isso o fato de que ainda não tenho filhos e pronto. Sou um tio coruja. Tenho fotinhas dela no computador e na parede do meu quarto. Fico deliciado com cada história que minha mãe e a Anna me contam. E, claro, estou animadíssimo com o fato de que minha irmã, o Cris e minha sobrinha agora moram pertinho do meu apartamento em SP. Isso muda completamente a dinâmica de morar em São Paulo e mal posso esperar para voltar em agosto.

O fato é que nossa última peripécia foi inventar uma mágica intercontinental. Eu comprei um copinho na Disney Store aqui em Londres e mandei para ela. Mas não sem antes fazer um vídeo em que Filó (a fantoche que é uma meia colorida) agarra o copo e desaparece debaixo de um paninho.

Daí a tia Mônica levou o copo e o fantoche para o Brasil e eu mandei o vídeo. O próximo passo é uma reunião de família toda dedicada a fazer a mágica acontecer. Filó e o copinho vão desaparecer aqui e aparecer imediatamente para a Clara lá em São Paulo. É bem verdade que minha sobrinha não entende que eu estou tãao distante. Mas ela sabe que, quando alguém está no monitor, é porque está viajando, está longe, como ela aprendeu por meses com o pai fazendo a ponte Rio-SP e conversando pelo monitor.

Agora, a desvantagem disso é óbvia, né? Eu não posso ver o momento da mágica acontecendo. E uma das coisas mais sensacionais de fazer mágica pra minha sobrinha é ver a carinha de surpresa que ela faz (é a graça em qualquer caso, mas com ela é mais gostoso). Então intimei Cris e Anna a filmarem a confusão toda acontecendo e mandarem pra mim. Cobrem deles, por favor.

A menininha do corredor

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Uma das coisas dolorosas de morar longe da família é não poder ir vê-los sempre. COm a chegada da Clarinha isso se tornou mais incômodo do que nunca. Minha sobrinha nasceu e eu só a vejo de mês em mês, quando não fico, como da última vez, quase três meses sem vê-la. E nessa época, tudo acontece tão rápido…

Pra piorar, eu sofro com o fato de que, para ela, eu não sou ninguém importante. Provavelmente ela nem sabe que eu sou a mesma pessoa que ela viu três meses atrás. Ela não tem história comigo.

Mas eu tenho história com ela. São pequenos fragmentos dessa sensação tão especial de ver aquele serzinho crescer, começar a falar, andar e brincar, interagir, sorrir. Eu fui um irmão felizardo, porque curti a Anna crescendo tintim por tintim e me sinto meio avô de ver a Clarinha crescer agora e ser tão parecida com a mãe. Eu vejo vários detalhes, vários movimentos e expressões faciais da minha irmã nela. E isso é… é… indescritível. Taí. Fiquei sem palavras.

No fim de semana passado, ela veio com a Anna e o Cris almoçar na casa da minha mãe, onde eu estava hospedado. Eles tocaram a campainha, entraram e ela ficou olhando pra casa, pensando um pouco antes de entrar. Eu saquei a câmera e a peguei no corredor, hesitando daquele jeito que as crianças hesitam de vez em quando. Com a bolsinha na mão, o tênisinho Puma minúsculo no pé. Pura Anna Paula, o bebê. Pura Clarinha, a filha da Anna e do Cris. Minha sobrinha que me deixa sem fôlego, mesmo sem nem saber direito quem eu sou.

Num daqueles fatos que viram eventos familiares, ela foi convidada para fazer uma figuração numa novela da Record, Luz do Sol, que chega ao último capítulo na segunda. Segunda-feira, dia 19/11, às 21h, vamos todos nos reunir diante da TV, eu aqui em SP, o resto da família no Rio, para ver se ela ganha um close, uma fração de segundo que seja. Os tios, pais e avós são assim. Transformam em evento cada coisinha. Uma participação em uma novela, uma fração de hesitação no corredor.

Ela é linda, apesar dele

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Quem lê o título, poderia pensar que eu não gosto do meu cunhado. Não estaria mais longe da verdade, já que o cunhadão é meu amigo do peito. Mas é claro que eu preciso sacanear ele de vez em quando e reclamar que ele colocou em risco, com os genes dele, a perfeição da minha sobrinha. Nada mais longe da verdade. Devo confessar que vi fotos do Cris criança e ele era… era… Ok, vou dizer… fofinho! (hua hua hua hua!)

Mas o fato é que o Tiago Dória fez uma homenagem aos pais geeks. Legal, legal mesmo.