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As regras para escrever bem, por Mark Twain

Até rimou. Estou tentando me organizar para voltar a escrever a história que comecei alguns anos atrás, um pouco antes de ir para Londres. Lá, retomei, mas parei pressionado pela tarefa de escrever a dissertação.

Voltei, uma coisa veio depois da outra, um monte de trabalho, a morte do Sagan, a doença do Darwin, da morte do Darwin. Um turbilhão que fez dois anos se parecerem com seis meses.

Mas, vai daí que estou reorganizando meus anseios criativos e cá estou lendo Fenimore Cooper’s Literary Offences, de Mark Twain, para me inspirar. Fiz uma tradução livre das 18 regras estabelecidas pelo autor. Adoro limitações desse tipo não porque quero segui-las. Sou péssimo nisso. Mas justamente para ter como referência o que um escritor como ele faria. Faz bem saber o momento em que estou divergindo de Mark Twain. Dá clareza às minhas decisões, quando eu penso que isso contraria (ou não) as suas recomendações.

  1. Uma história deve realizar algo e chegar em algum lugar
  2. Os episódios de uma história devem ser partes necessárias dessa trama, e devem ajudar a desenvolvê-la
  3. Os personagens de uma história têm que estar vivos, exceto no caso em que sejam cadáveres (nota minha: adoro isso, ganha outro sentido com toda a literatura de zumbis, vampiros etc., ehehehe). Nesse caso, o leitor precisa conseguir dizer a diferença entre os cadáveres e os vivos.
  4. Os personagens de uma história, mortos ou vivos, devem ter uma boa desculpa para estarem ali
  5. Quando os personagens de uma história iniciam uma conversa, os diálogos devem soar como algo que seria dito por um ser humano naquelas circunstâncias, e ter um significado e um objetivo que possam ser descobertos, além de exibir relevância e se manter na vizinhança do assunto em questão. Tudo que for dito deve ser interessante para o leitor, ajudar a história, e parar quando as pessoas não tiverem mais nada pra dizer
  6. Quando o autor descreve a personalidade de um personagem em uma história, a conduta e os diálogos daquele personagem devem justificar tal descrição
  7. Quando um personagem fala como uma pessoa culta, educada, fina no início de um parágrafo, não deve falar como um menestrel negro (personagens típicos do teatro popular dos meados dos anos 1800)
  8. O leitor deve ser popupado de situações e personagens grosseiramente estúpidos com a desculpa do ofício do marceneiro, a delicada arte da floresta” vindo do autor ou muito menos dos personagens da história
  9. O personagem de uma história deve ser confinado às possibilidades e deixar os milagres de lado; ou, no caso de serem beneficiados por um milagre, o autor deve  tentar, de uma forma plausível, fazer as coisas parecerem possíveis e razoáveis
  10. O autor deve fazer o leitor sentir um interesse profundo pelos personagens de suas história. E também pelo destino que eles terão. O leitor deve amar as pessoas boas e odiar as ruins.
  11. Os personagens devem ser tão claramente definidos que o leitor seria capaz de dizer antecipadamente o que cada um fará em uma emergência.

Seguem as últimas sete regras. Estas já mais curtinhas e sucintas.

12. Diga o que ele se propõe a dizer, não chegue apenas pert

13. Use a palavra certa, em vez de seu primo em segundo grau

14. Fique longe dos excessos

15. Não omita detalhes necessários

16. Evite bagunçar a forma do texto

17. Faça uso da gramática correta

18. Tenha um estilo simples e direto

Siga-o (ou ignore-o) por sua conta e risco.

Mestre de Cerimônias Casamenteiro

Em 2005, meu amigo Cris se casou com a minha irmã. Sendo um bando de ateus, decidimos fazer a coisa toda sem rituais religiosos. No entanto, ainda assim, mesmo sem religião, tínhamos um ritual a fazer, o da união do casal. Anna me pediu para fazer um discurso, agir como uma espécie de mestre de cerimônias casamenteiro.

Lá fui eu. Fiz um discurso, imprimi num papel e carreguei ele comigo no carro em que fui até o casamento com a minha irmã. Afinal, como se não bastasse fazer o discurso, como não temos pai, fui eu o cara que saiu do carro com ela e a levou até o noivo. Só ali assumi o papel de MC e comecei a falar. Bizarro, mas inesquecível.

Recomendo a todo mundo a experiência de fazer discursos de casamento… Hum. Sim. Mas façam o favor de não esquecerem dentro do carro o papel no qual está registrado o discurso. Me vi diante daquela platéia sem nada. Tive que tentar improvisar, lembrar do que tinha escrito. Ninguém notou. Ou ninguém pareceu notar. Fiquei tão nervoso e sem noção que não participei dos cumprimentos, não falei com ninguém direito. Como se eu não fosse o irmão mais velho da noiva. Mas foi um barato.

Algumas semanas atrás, outro amigo se casou e me pediu que fizesse um discurso também. Fui, de novo, o MC casamenteiro. Desta vez, tirei multiplas cópias, coloquei uma versão no celular, outra no tablet. Nada podia correr errado. Na hora de começar a falar, me veio um calafrio. Eu olhei para aquela platéia de senhores e senhoras e pensei que tinha que mudar o discurso. Tive a sensação de que minhas palavras estavam inadequadas, céticas demais. Mas não dava mais tempo. Aí, eu respirei fundo e comecei a falar…

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