Arquivos da categoria: Esta é a minha vida…

Adeus: Carl Sagan, o maltês (2000-2010)

Meus cachorros me fizeram uma pessoa melhor. Tenho absoluta certeza disso como tenho certeza de poucas coisas nessa vida. Parece que foi ontem e eu acho que é por isso que dói tanto. Uma década que passou como um raio.

Foi no dia 22 de dezembro de 2000. Como eu disse, parece que foi no outro dia. Tínhamos ido ao cinema e a parada na Pet Shop foi completamente acidental. A Mônica cismou com ele naquela gaiolinha no fundo da loja. Saímos dali com a bolinha de pêlos que cabia na palma da minha mão. O cinema foi cancelado.

É engraçado. Compras de impulso como essa são a receita do desastre. O dono vai conhecer o cachorro e se arrepender da idéia estúpida de criá-lo a cada xixi, a cada cocô, cada choro ou latido. A Mônica nunca nem olhou para trás. Parecia que tinha pensado naquilo por meses e não por alguns segundos. Ela, como de costume, não hesitou muito na escolha do nome que todo mundo pensa que é idéia minha: Carl Sagan. Tudo idéia da Mônica.

Carl Sagan era rabugento, era genioso e mimado. Carl Sagan não sabia e nem queria saber de truques. Nunca sentou obedecendo um comando. Nunca pulou, deitou. Nada. A Mônica dizia que daria US$ 1 milhão para o treinador que ensinasse um truque ao Sagan. Para ela, ele era intreinável porque cheio de personalidade. Lindo, fofinho, todo mundo o cercava de carinhos e agrados. Ele nunca precisou mendigar nada, nunca se moldou a nós. Nós é que fazíamos tudo por ele. Dormiu em nossa cama desde sempre e atrapalhou, sim, nossa vida sexual em vários momentos. Era exatamente o plano dele…

Dormia com as costas coladinhas nas minhas. Não porque me adorava (embora ele me adorasse, sim), mas para saber direitinho onde eu estava e embarreirar minha aproximação da Mônica. Para ele, ela era dele e de mais ninguém. Simples assim. A gente, contrariando todos os conselhos de especialistas em comportamento canino, deixava ele pensar que era verdade. Nós éramos um casal sem filhos e ele era nosso neném.

Só se machucou gravemente uma vez quando, pequenininho, pulou da cama, caiu no chão e desmaiou. Lá fui eu correndo pro veterinário desesperado. Tinha sido só um susto. Ontem aconteceu minha segunda emergência com o Sagan em quase dez anos. Como eu ia saber onde aquilo ia dar?

Continue reading

Um ano depois, voltei ao trabalho

Eu voltei pra minha casa há pouco mais de um mês. Mas só hoje voltei ao emprego depois de 11 meses e 20 dias de licença. Se você chegou aqui agora, vale dizer que passei um ano estudando na Inglaterra, um mestrado em Media Management na University of Westminster, de Londres.

Então, voltei hoje. Logo hoje em que caiu o céu em cima de São Paulo. A cidade estava que era caos total. A primeira coisa que eu fiquei pensando foi em alguma analogia com aquela tempestade. Aquela bagunça poderia refletir meu estado de espírito? Bobagem. Eu estava sereno. Confesso que fiquei procurando essa insegurança e esse medo, como se eu tivesse que sentir isso. Mas não achei.

Continue reading

Volto em menos de dois meses

Tem sido um ano fantástico. Ainda não acabou, mas foi trasnformador. QUando eu estava me preparando pra vir, fiz mil planos achando que ia blogar muito, fazer podcasts e coisas do gênero. Era meio que um plano B para o que eu imaginava ser uma existência difícil, solitária.

E foi sim. Mas de uma forma diferente. Mergulhei nos livros como eu queria há anos. Minha formação é de jornalista com um conhecimento de business muito rudimentar. Aqui olhei pra meu trabalho com novos olhos, uma visão mais aberta, mais ampla. Algo que me faltava.

Aqui fiz amigos de todos os cantos do mundo. Tem o Shanil da África do Sul, a Maya do Líbano, a Catherine da Alemanha, a Katarina da Sérvia. Tem a Nuria do Equador, a Nadine do Egito, a Lei da China. Johana da Colômbia, e Rohit, Arun, Sneha, Karuna e Pallavi da Índia.

No meio disso tudo, com tantas coisas pra ver. Bloguei pouco. Li muito. Escrevi sobre meu trabalho. Quero que vire algo mais. Coloquei no lugar minhas idéias sobre ferramentas de raciocínio e criatividade. Fiquei mais seguro de que tinha um caminho para aplicar a diversos problemas que encontro no meu dia a dia como administrador de conteúdo.

Não sou só editor mais. Administro recursos para a produção de conteúdo. É uma função intensamente criativa, mas vai além da pura criação e enfrenta problemas diários de logística e business. Meu foco mudou, mas ainda estou num meio em que minha principal arma, minha criatividade, é crucial. Ainda bem.

Nos próximos meses, quero dar mais força ao meu outro site, em inglês, o Play Factor. Ali vai ser o foco do meu trabalho sobre um framework de resolução criativa de problemas usando técnicas de várias mídias, principalmente mídias sociais e game design.

E a partir de setembro estou de volta à Editora Globo para ajudar a empresa que me deu a maior força e enfrentar todos esses desafios malucos e me deu a tranquilidade para pensar so na minha pesquisa.

Longa vida ao novo Kirk

startrek01
Kirk (Pine) e Spock (Quinto): perfeitos

Eu nunca contei isso aqui. Mas me lembro bem de quando via Jornada nas Estrelas no final dos anos 70 em algum canal que eu não lembro mais qual era. Empolgado com o capitão Kirk, eu colocava uma calça de pijama e a meia por cima da calça pra imitar a bota do traje dos meus heróis (o que eu posso fazer? Ganhei uma fantasia de Batman… amarela! Então você já vê que eu não era muito apegado a detalhes).

Hoje eu saí do cinema sério, afinal sou um menino grande agora. Mas por dentro, eu pulava que nem o moleque das meias por cima da calça do pijama. Que filme legal esse novo Star Trek. É cinético, simpático, afetuoso com a mitologia da série. Achei a história um nó cego, dando voltas com paradoxos temporais, mas o storytelling é fantástico.

A nova geração é mais ativa, a câmera se move de um jeito incrível e você sente que está vendo uma série realmente reimaginada e atualizada. O roteiro faz uso inteligente do fato de que os personagens têm uma história sólida, enorme. Então, embora todos que não se chamem Spock ou Kirk tenham direito a momentos breves sob holofotes, toda a história deles conta a favor. Quando Sulu tira uma espada para lutar, Chekov resolve um problema (e se enrola com o inglês) ou Scotty arranca uma performance extra da Enterprise, você vibra porque entende de onde esses personagens vieram. Se não tem contexto especial, tudo bem. Você se diverte também, mas num nível mais superficial.

O novo Kirk (Chris Pine) é perfeito. O novo Spock (Zachary Quinto) também, mas é um vulcano com um toque gay. Bones (Karl Urban), caramba, animal.

Ah. E Eric Bana, como sempre, é de uma mediocridade ímpar. Personagem sem graça. E a participação do Nimoy é absolutamente crucial.

A vida anormal que virou normal

Faltam quatro meses para eu voltar. Isso significa que a vida que eu estou começando a achar normal vai mudar de novo para algo que eu não sei bem o que é em setembro.

Estou enjoado do meu quarto. Não me entenda mal. É um quarto bom até. Tenho um espaço bem maior do que as pessoas conseguem ter em geral por aqui nos dormitórios de universidade. Mas sou eu e eu. Eu quase fujo daqui. Entendo agora porque as pessoas fogem dos seus apartamentos para os cafés. É o que eu faço. Pego um livro, o computador e me mando.

Amanhã eu preciso ir na lavanderia. Roupas de cama, toalhas, cuecas, calças e camisetas. Descobri um gel que substitui o sabão em pó, exagero um pouco no amaciante porque adoro o cheiro na roupa.

Aprendi a fazer um delicioso cuzcuz com camarão (temperado no limão, alho, pimenta e coentro). Meu frango ao vinho branco ficou muito gostoso. Minhas saladas estão fantásticas e ainda odeio lavar louça. Mas sou eu quem faz tudo, tudinho. Estou um pouco cansado da minha cara e comecei a testar novos cortes de cabelo, deixar a barba crescer, depois raspar tudo, depois mudar de idéia. Estou usando camisas de cores completamente malucas e descombinadas, porque… não sei porque. Porque eu quero. Porque me deu vontade de colorir as coisas. Mas o que faz sucesso mesmo é minhca camiseta de Battlestar Galactica, escrita Frack Me. Eu não consigo sair na rua sem ser cumprimentado pelo menos umas duas vezes por gente que adora o seriado. Preciso dizer que isso nunca aconteceu no Brasil, onde eu usei a camisa várias vezes? Ok, comparação desproporcional e injusta.

Mas eu gosto muito daqui. É uma cidade que vibra na minha frequência. Tem coisas meio patéticas, como essas câmeras insuportáveis e esses comerciais fascistas da TV licence. E cheia de cartazes dignos do Passive-Agressive-Notes, como esse que eu vi no banheiro do campus de Marylebone da University of Westminster:

passive_aggressive01

(Mas, mas… Mas eu não fiz nada!!!)

Mas é uma cidade fantástica que não me decepcionou em nada. Bom, me decepcionou por não ter latas de lixo direito. Isso me incomoda bastante. Mas uma metrópole inesquecível. Vou morrer de saudades daqui.

Silêncio nas “férias”

Em tese, eu não tenho férias. Meu projeto de mestrado ficou tão maluco e ambicioso que eu não tenho tempo a perder. Mas minha mana veio me visitar (junto com o cunhado esquisitão) e eu simplesmente nao peguei em nenhum livro sequer por mais de uma semana. Estou meio apavorado, mas foram dias tão felizes e legais que eu não posso reclamar.

Desde ontem, me bateu um mau-humor terrível e eu fiquei pensando de onde saiu. Só há pouco, enquanto eu olhava ela arrumando as malas, caiu a ficha: eles vão embora amanhã. Foi tão bom…

Londres: Seis meses

Engraçado pensar que eu cheguei aqui, seis meses atrás. Cheguei exatamente no momento em que a crise econômica explodiu. Nesta semana, o clima estava tenso. Como vai acontecer o maior encontro de líderes mundiais desde 1946 na semana que vem justamente aqui, a polícia, o MI6 e todo e qualquer órgão de segurança do governo inglês estão em alerta extra-vermelho. Toda hora fecha linha do metrô por causa de algum alerta de “segurança”. Os britânicos, que já são intensamente repressivos, ficaram mais paranóicos ainda. Seis meses.

Acho que engordei um pouco, depois emagreci. Foi de acordo com meu humor. No inverno, eu tive indícios fortes de SAD (Seasonal Affective Disorder) ou winter blues. Não cheguei a ficar derrubado, mas fui atacado por um desânimo forte. Algo que é bem incomum pra mim. Veja você que eu costumo acordar assoviando e faço café da manhã no maior bom humor. Levo café na cama e tudo. Sempre fui assim. Bom, digamos que apesar da cozinha do meu flat ser a dois passos de distância, eu simplesmente tive dias em que não queria nem chegar perto.

Eu como besteira, mas também levo muito a sério comer salada e frutas todos os dias. TODOS os dias. Juro. Compro uvas e bananas, folhas variadas, tomate, pepino, brócolis e couve-flor, cenoura e beterraba. Junto tudo numa saladinha com azeite, vinagre e sal. Compro frango e tempero com vinho branco barato, alho, cebola, pimenta e tomilho. Asso por uma hora e meia no forno, sem manteiga nem óleo e fica fantástico. Compro camarões e tempero com limão, coentro, pimenta, sal e cebola. Cozinho tudo numa panela com azeite, cebola e alho. Depois junto com alguma coisa que pode ser arroz, cuz-cuz ou mesmo massa de macarrão.

Mas como pipoca feita com manteiga. Um dos meus pontos fracos. E a cada par de semanas, rola uma obsessão. Já foram os cookies, depois o arroz doce, aí veio o pudim de chocolate. Nos momentos mais negros eu dou uma exagerada. Mas essa semana, por exemplo. Mal cheguei perto de doce. As frutas resolveram bem. Mentira, comi um waffle com chocolate belga meio-amargo ontem.

Se eu já era um maníaco por café, a coisa aqui virou uma loucura total. Eu faço café todos os dias e muito mais forte do que as pessoas por aqui estão acostumadas. Mas um dos meus grupos veio fazer trabalho aqui comigo e elogiou muito meu café. Virou meio que uma curiosidade para eles essa tinta preta que eu adoro.

E os amigos? Essa loucura aqui de ter amigos de todos os cantos. É meio fascinante sair com iranianos, indianos, sérvios, alemães, libaneses, chineses, russos, malásios, gregos, egípcios, americanos… e britânicos. Todo mundo junto falando besteira, brincando com os estereótipos alheios: todo grego é gay (ou lésbica), russos comem criancinhas, indianos transformam tudo em musical colorido e brega, brasileiros rebolam e só falam em futebol (bom, eu não pude ser de muita ajuda na parte do rebolado). No fim, acho que o que não deu muito certo foi mesmo a integração com os chineses. A língua os afastou do resto das pessoas. Eles aqui na minha turma, com algumas honrosas exceções, falam o inglês muito mal e acabam se isolando por não conseguir manter uma conversa natural. Os poucos com quem eu tive mais contato foram extremamente simpáticos e atenciosos. Tudo bem que um deles nunca tinha ouvido falar no Brasil… Ah, e eu quase cortei relações com meu amigo iraniano, o Nima, porque ele ousou dizer que Maradona foi melhor do que Pelé. Fala sério.

Seis meses. Uma saudade enorme. Da minha casa, da minha família querida. Da minha sobrinha gostosa e dos meus cachorrinhos. Dos meus amigos do Rio e de São Paulo. Caramba, não conheci os filhos dos Brunos nem do Antônio. Vou confessar que já sonhei várias vezes que estava passeando com o Darwin. E, da mesma forma, sonhei que não encontrava ele de jeito nenhum. O impacto que um cachorro pode ter na sua vida…

Uma das poucas coisas que eu fiz aqui foi uns videozinhos para a minha sobrinha. Clarinha, a neném mais famosa da internerd brasileira. Afinal, é a filha do Cris e da Anna. E é minha sobrinha pequenininha. Comprei dois fantoches e fiz alguns vídeos em que me comunicava com ela com a ajuda dos bonecos. Depois, passei a fazer mágicas (e a Clara adora). Um dos bonecos é um macaco. Clara não curtiu muito. Coloquei um pástico vermelho na boca do bicho, um laço vermelho no orelha e pronto: meu macaco fantoche virou um traveco fantoche. Clarinha passou a adorar a, hum, boneca, rebatizada de Ritinha. Seis. Meses.

Faltam cinco meses agora. Eu volto no dia 19 de setembro ao Brasil. Uns dias antes ou depois. Falta menos do que já foi. Então, hoje é um marco importante. Passei da metade. Acredite, não está sendo fácil. Não está sendo ruim. Ao contrário. É uma experiência sensacional parar tudo pra pensar sua profissão, seu meio, sua empresa, seu futuro. Os últimos anos me deram uma autoconfiança importantíssima para a próxima fase da minha vida profissional. Eu criei revistas e enfrentei crises de vários tipos. Aprendi a gerenciar grupos na marra. Errando e acertando, mas sendo sempre direto e honesto com quem trabalhou comigo. E parar por esse tempo me ajudou a olhar para trás e ser crítico comigo mesmo. Ver vários dos meus erros de gestão, de planejamento. Ao mesmo tempo, fiquei orgulhoso dos meus acertos, claro. Felizmente foram muitos. Acho que tive um saldo positivo.

E me surgiram muitas idéias. Um monte de coisas legais que vão marcar os próximos anos da minha vida. E conheci algumas pessoas interessantes e muito criativas com quem quero trabalhar no futuro próximos. Vamos ver que projetos eu vou colocar em movimento.

É que… É…

Alguns neurocientistas explicam que não é por acaso que alguns casais experimentam uma sensação de emburrecimento quando separados.

Você já sentiu isso? Que resolve melhor alguns problemas quando está perto da sua cara-metade?

Os neurocientistas descobriram que os casais partilham conhecimentos em uma divisão silenciosa e informal. Quando separados, no momento em que “aquela” informação é necessária, ela não está lá, mas na cabeça do outro.

Me sinto tão burro, burro. Tem tanta coisa faltando…