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Para crescer, o caminho do e-reader é para baixo

Eu não espero nem quero um Kindle colorido e touchscreen, embora possa surgir um. Na minha opinião, a Amazon tinha que mirar em outro alvo: o e-reader de menos de US$ 100. Faço uma pesquisinha enquanto estou escrevendo isso e caio no post do Seth Rodin pedindo um Kindle de US$ 50 (ele vai mais longe do que isso, vale ler o texto dele, não vou ficar repetindo aqui). Ok, de qualquer modo, um Kindle mais barato é o que a indústria deveria buscar.

A Barnes and Noble oferece o Nook (seu “Kindle”) por US$ 149.99, só com wi-fi. O 3G custa US$ 199.99. É o sinal de que esse é o caminho para esse tipo de aparelho. Ser um facilitador para essa nova era. Se gabar de suas vantagens sobre as telads de LED, OLED e LCD e oferecer algo muito simples e muito barato. Colocar preço na lista de vantagens não é nada mal. E preço baixo abre inúmeras oportunidades de promoções malucas. Você compra dois livros e leva um e-reader junto, por exemplo.

E não faz sentido pagar US$ 250 em um negócio desses quando o iPad mais simples custa US$ 499. É maluquice pura. Baixar o preço do e-reader torna os e-books uma alternativa mais que prática, popular. Vai acelerar a inevitável mudança. Junte a isso todas as iniciativas de self-publishing de Apple, Google e Amazon e teremos um mercado editorial explosivo, cheio de oportunidades em 2011. Junto com a explosão criativa que os tablets vão acelerar, temos um horizonte de belíssima possibilidades no futuro próximo.

A não tão Grã-Bretanha

Foi assustador chegar na Inglaterra exatamente no momento em que a crise mundial estourou. Eu paguei R$ 3.70 numa libra quando fui. Nos primeiros dias da crise, o valor subiu e eu só me ferrei. Depois, as coisas esfriaram e, quando voltei, a libra estava valendo R$ 3.20, só para se ter uma idéia. Nas ruas, vi negócios fechando todas as semanas. Grandes redes de varejo, pequenas livrarias com décadas de idade e um clima de incerteza.

Os jornais, claro, refletiam esse gloom. Escândalos políticos e uma vigília sobre qualquer um que parecesse esbanjar dinheiro se tornaram coisa comum nos diários. A coisa não estava mesmo boa pro lado dos brits.

Esse artigo da Newsweek só tenta resumir em algumas páginas o que a Economist está dizendo há muito tempo. Deve ser por isso que a Economist só ganha influência enquanto a Newsweek se dissolve diante dos nossos olhos. Um artigo de Alex Massie, exclusivo do site da revista, tenta equilibrar o tom sombrio do artigo de de capa. Empilha alguns números e relativiza a crise. Diz um monte de coisas certas, mas perde autoridade pelo tom meio revanchista.

Mas, de qualquer modo, se você quer uma visão geral e resumida do ocaso anunciado do Grã-Bretanha, vale ler.

Pessoas preferem ajudar cachorros em vez de gente

O artigo da Intelligent Life (revista do pessoal da Economist) não é novo, mas esbarrei nele por acidente hoje numa dessas buscas malucas no google: DOES ONE ABUSED WOMAN = 100 ABUSED PUPPIES?. Ajudar o próximo virou sinônimo de cuidar de cachorrinhos em vez de ajudar seres humanos.

Nos EUA, existem 3800 abrigos para animais maltratados e 1500 para mulheres que sofreram abuso. Gente é mais complicada do que animal… Allison Schrager, economista, fala da forma como as pessoas ajudam animais e não se preocupam com outros humanos. Cita o utilitarista Peter Singer e discute nossas, digamos, prioridades. Muito interessante.

Tem alguma coisa errada comigo (sim, estou falando por mim, claro. Não sei o que VOCÊ sente). Eu ando na rua, vejo um mendigo com um cachorro e fico fascinado pelo cão. Não sinto pena do cão. Sinto pena do homem. Mas é o cão que me fascina. Dói um pouco se olhar no espelho.

Recessão: a histeria e a antecipação

Volto a um assunto que eu já visitei aqui antes. O da “era da antecipação”. COm tanta mídia, tudo é escrutinado antes de acontecer. Todo mundo faz previsões e previsões com a justificativa de que tudo já aconteceu antes de alguma forma e sempre há como comparar.

É assim com Copa do Mundo, Olimpíada, campeonato de futebol, filme, livro, campanha política. Um monte de gente antecipa, especula e, quando a coisa acontece, invariavelmente é uma decepção.

Bom, o novo alvo disso foi a Supermegarrecessão. O ano acabou e ainda estamos vivos e o mundo ainda não acabou. Vamos enfrentar meses duros, os governos terão que ralar para reacender suas economias e tudo mais, mas o fato é que os prognósticos sempre foram mais negros do que a realidade.

Na Inglaterra, a coisa ficou preta, com muita gente imediatamente desempregada ou perdendo anos de economias tragadas pelos bancos islandeses. Nos EUA, a mesma coisa. O NYT faz uma análise da crise alguns meses depois e mostra algumas das falácias. Claro que corremos outro risco. Além de exagerar nas análises antes do fato acontecer, agora consideramos passado algo que aconteceu alguns meses atrás. É muito cedo ainda. Mas vale o esforço.

Capitalismo até a página 3

Perdi bastante dinheiro na bolsa nas últimas semanas. Não. Não estou dizendo que não quero mais brincar. Mas fico pensando em como nosso sistema sócio-econômico é engraçado. Quando um empresário quer defendê-lo, arrota as vantagens: competitividade, risco, lucro.

Acontece que o lado complicado, o risco, só é bonito enquanto é isso: risco. Quando ele deixa de ser uma coisa neutra que pode ou pode não se concretizar e vira a efetivação do erro, da perda, a coisa muda imediatamente de figura e todo mundo vira um bando de carpideiras.

Quando eu faço uma aposta no mercado de derivativos. É isso que eu estou fazendo: uma aposta. Posso ganhar, posso perder. Se eu vou a um cassino, onde isso é muito claro, mas tem jeito de recreação. Quando aposto 30 reais no preto e perco, eu não fico implorando pro cara da banca me devolver meu dinheiro. Mas o pau vai comer:

Bancos renegociam perdas de empresas

Objetivo das instituições financeiras é evitar avalanche de processos na Justiça contestando as operações cambiais

Calcula-se que mais de 200 empresas tenham feito apostas pesadas na valorização do real e agora amargam perdas

GUILHERME BARROS
COLUNISTA DA FOLHA

Para aliviar o impacto das perdas das empresas com as operações de alto risco no mercado futuro de câmbio, os bancos brasileiros e estrangeiros deram partida a um processo de renegociação desses débitos. Os bancos devem conceder novos empréstimos em reais e a prazos mais longos.
Muitas empresas no Brasil, calcula-se que mais de 200, fizeram apostas pesadas de altíssimo risco na manutenção do dólar baixo até o final deste ano. Essas apostas foram feitas em sofisticadas operações no mercado de derivativos aqui e fora do país.
Com a crise global, o dólar subiu abruptamente de R$ 1,60 para quase R$ 2,50, e as empresas amargaram elevados prejuízos. Até agora, só três declararam ter tido perdas grandes nessas operações: Sadia (R$ 760 milhões), Aracruz (R$ 1,95 bilhão) e Votorantim (R$ 2,2 bilhões). As perdas totais são estimadas em R$ 40 bilhões. São esses prejuízos que estão sendo renegociados agora.
O objetivo dos bancos, ao renegociar esses débitos, é o de evitar que as empresas entrem com ações na Justiça contestando essas operações.

O texto continua no site da Folha.

Essa notícia é só um pedacinho da choradeira que está rolando. E isso não é uma característica brasileira. É mundial. É porque, os defensores de um sistema sempre fazem sua argumentação com base nas qualidades mais destacadas. Assim, o comunismo é legal porque dá um mínimo de condições para todo mundo. Ah, dane-se que permite uma estagnação incômoda. O capitalismo promove quem empreende. O que é uma meia-verdade. Além do fato de ser um regime que só valoriza o sucesso e abandona quem falhou. Seja no sistema A ou no B, o que me incomoda é o vício de assinar um acordo (social, econômico…) e, depois, quando algo não te favorece, correr para pedir uma exceção. Isso me deixa maluco.