Arquivos da categoria: Cultura Nerd

Nunca mais a primeira vez

(Ou por que ninguém tem o direito de desrespeitar a obsessão alheia por não saber o que virá)

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Eu não gosto de spoilers, as revelações sobre o que vai acontecer em obras de ficção, sejam livros, filmes, peças teatrais, quadrinhos ou seriados.

Já revelei coisas por acidente, mas tento respeitar as pessoas que não assistiram tal obra. E aqui vai o motivo muito cristalino:

Só existe uma chance de ser surpreendido pela primeira vez.

A única pessoa que tem o direito de abrir mão desse direito é você. Ninguém mais. É a sua vida.

Não interessa que essa e aquela pessoa achem uma bobagem. Não me venham com o papo de que Hamlet ou Romeu e Julieta são incríveis mesmo você sabendo tudo sobre eles. Não é essa a questão. Estamos falando aqui da mais pura de todas as experiências: experimentar Romeu e Julieta pela primeira vez. Sem. Saber. O. Final.

A partir daí, todas as outras vezes vão te oferecer outros insights e sensações. E a única que nenhum deles vai te oferecer novamente? O frescor da primeira vez. Nunca mais.

Na era das comunidades onipresentes, solidão para quê?

Estava lendo um artigo do sempre ótimo Steven Johson na Time. Acompanho o blog do Jeff Jarvis há algum tempo e estava “lá” quando ele avisou ao mundo em sua conta do Twitter que estava com câncer de próstata. Depois, quando fez a cirurgia. E assim foi.

Algumas semanas atrás, um dos meus cachorros, o Carl Sagan, morreu. No dia seguinte, eu descobri que meu outro cachorro, o Charles Darwin, tinha câncer. Não era o meu câncer, mas era como se fosse. Comecei a twitar e blogar sobre isso.

E por quê?

Simples. Me fez sentir melhor. Me fez ver que eu realmente não estava passando por aquilo “sozinho” (eu não estava de qualquer modo, já que minha mulher, irmã, mãe acompanharam tudo. Mas estamos falando metaforicamente). Nas semanas seguintes, em vez de melhorar a coisa piorou. O tumor voltou à pata do Darwin e a situação clínica dele começou a piorar sensivelmente. Depois de uma luta insana, nos vimos diante da dura realidade de ter que amputar a patinha dele. Só que o Darwin estava fraco agora. Podia não voltar dessa.

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Múltiplos blogs

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Eu enrolei, enrolei, pedi ajuda e nunca tinha achado uma solução que fosse satisfatória para uma necessidade minha: postar em mais de um blog usando apenas um sistema de edição.

Resolvi testar o MarsEdit e ver se me adapto. E, claro, preciso postar mais. Andei deixando tudo de lado, por vários motivos. Mas as coisas vão se acertando e quem sabe eu consigo voltar às boas?

A estupidez das multidões

Em seu livro “A Sabedoria das Multidões”, James Surowiecki explica como conectadas pelos novos meios digitais, uma multidão de leigos pode tomar decisões melhores do que certos especialistas. Eu lembro disso quando vejo a história da moça que foi ridicularizada por uma turba de imbecis numa faculdade de São Paulo. Porque essa semana, alguém que viu esse vídeo ao meu lado fez esse comentário sobre a burrice das multidões e mandou uma espécie de alusão a obsessão por “multidões” de quem trabalha com internet e mídias sociais.

Muito legal. Obrigado por exprimir uma opinião e tudo mais. É bonito ter interesse nos assuntos e coisa e tal. Mas corre-se o risco de virar-se um Andrew Keen, que escreveu um livro inteiro (O Culto do Amador) baseado no seu bico por ver que pessoas sem pedigree estavam ganhando importância e suplantando gente como ele. A Sabedoria das Multidões é um livro muito bem sacado, muito bem embasado e muita gente que não leu fala muita besteira sobre ele. Só isso.

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Tem que ser conspiração!!

Eu nunca me preocupei muito com esses vídeos do Matt Harding dançando pelo mundo. Achei engraçados, mas nunca dediquei mais do que dois segundos ao assunto.

Aí, a partir de uma indicação no Twitter, fui ver um post no Jaunted que dizia que, arrá!, Matt Harding tinha confessado tudoooo!!! E que ele tinha feito seus vídeos usando, hum, photoshop!(WTF?)

A coisa toda não fazia muito sentido, mas lá fui ver o vídeo. E era o Matt contando, em tom de piada, que seus vídeos eram uma farsa. Ele estava brincando e sacaneando todas as idéias malucas sugeridas. “Usamos robôs cujas peles a gente trocava!!”, ele diz. O orçamento de um negócio desses seria muito maior se ele fizesse os vídeos do jeito que ele estava dizendo que teria feito.

Para minha surpresa, o blogueiro do Jaunted engoliu tudo e assinou embaixo, confundindo o leitor que, muitas vezes, nem vai ver o vídeo. Resultado: os leitores leram o post e comentaram indignados que aquele tal de Matt Hardin era mesmo um safado.

Tava almoçando com o Matias no outro dia e a gente falava do quanto nosso mundo é fabricado pela nossa percepção + a mídia. Uma espécie de Matrix low tech. Mas bom senso e ceticismo podem salvar você. Basta mante-los ligados.

Curto ou longo? Isso importa?

Twitter ou blog? Curto ou longo? Eu tenho visto várias pessoas argumentarem a favor do twitter com a justificativa de que dá menos trabalho, é mais curto e coisa e tal.

Isso é uma questão legítima? Jura? O que me impede de blogar textos curtos? Nada.

Não é essa a questão, né? O que me parece genial no Twitter é essa sensação de conversa, de sala de chat virtual 24 horas, não linear, atemporal. Aí, o limite de 140 toques virou uma espécie de play factor, de limite que te desafia e te faz ser mais sucinto. Te obriga a quebrar seu pensamento em pedacinhos quando necessário. Eu tenho o hábito de, nos instant messengers da vida, ir teclando, dando enter e teclando mais e dando enter. Assim, eu mantenho uma velocidade maior na conversa, embora tudo fique mais fragmentado.

Dizer que o Twitter é mais fácil porque é mais curto me parece uma simplificação grosseira. É diferente de blogar, embora tenha pontos de contato. Da mesma forma que limitar o blog a “diário” é uma bobagem atroz. É confundir meio com gênero, ferramenta com o produto do trabalho dela, lápis com texto. Se o blog ameaça morrer como principal canal de comunicação pessoal isso tem mais a ver com a invasão do profissionalismo do que qualquer outra coisa. Em algum ponto, a coisa fica tão séria que as pessoas se intimidam. Uma pena.

O Twitter é um outro bicho, com outras possibilidades deliciosas. Mais uma das ferramentas que foi criada antes de se saber a utilidade e que quem descobriu o que fazer com ela foi o usuário.