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Elysium desaba num proselitismo doentio

Semana passada, tive uns engulhos quando descobri que um grupo religioso resolveu criar um vídeo chamado Porta da Frente em uma espécie de combate ao Porta dos Fundos. Naturalmente, foi patético.

Meses antes, eu fiz piada com esse vídeo.

Feito para “combater” esse outro, que fazia piada com os defeitos do Rio de Janeiro.

Fiz piada, de novo, porque o vídeo de contra-ataque é invariavelmente menos inspirado do que o original (que nesse caso era uma paródia de outro vídeo, mas por ter derivado na direção certa, manteve a graça).

Estou fazendo essa introdução torta para explicar porque fiquei tão irritado com um filme que eu queria tanto gostar: Elysium.

Um diretor talentosíssimo (District 9 é brilhante for so many reasons) que tem uma linguagem visual fantástica e que se perde ao esquecer o roteiro para fazer sua pregação. E entenda. Não interessa que eu concorde completamente com o conceito de saúde universal. Não importa a ideologia do momento. O que importa num filme como esse é a boa história que é deixada de lado para a pregação apaixonada de uma idéia. E o resultado? Minha cara de surpresa com a lógica desabando.

Então, a sensação é de que, no terceiro ato, Blomkamp não se preocupou com contar uma boa história. Azar o nosso, que estávamos investidos nos personagens. O filme passa a se resolver com acasos preguiçosos irritantes. Degringola feio. O filme se divide, então, em duas partes  que não se conversam. Não consigo entender de onde saiu aquilo. Não consigo engolir o completo abandono da lógica e de qualquer tentativa de nos entregar uma trama que faça sentido.

Então, gastei essas linhas para dizer somente que Elysium desabou pra mim porque virou Porta da Frente. Só faltou Matt Damon terminar o filme cantarolando “Rio lindo de vive-er, sou louco de amor por você-ê…”.

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O Artista é tão legal que me fez até querer escrever aqui de novo


(Jean DuJardin e Bérénice Bejo, em O Artista)

Meu último post foi escrito no dia 12 de outubro. Muito tempo atrás. A maior pausa desse blog até agora.

Mas aí… Aí eu deixo para ver The Artist algumas horas antes do Oscar e me dá, depois de tanto tempo, vontade de escrever de novo. Porque The Artist tem a ver com tudo que estamos vivendo. Tem a ver com minha, sei lá, crise dos 40. Tem a ver comigo e, provavelmente, tem a ver com você.

The Artist é um filme mudo em preto e branco e eu lembro de ler numa Entertainment Weekly de algumas semanas atrás o depoimento de uma atriz dizendo que não daria o Oscar a um filme como esse porque não representa a Hollywood de hoje. Ai, ai.

Como assim? The Artist é algo que representa com perfeição o que vivemos hoje. Porque fazer o filme assim, mudo (ou quase) em preto e branco, é uma escolha puramente artística, estética, narrativa. Uma escolha que outros artistas, em outros tempos, não tiveram. Antes da cor, do som, do cinemascope, dos efeitos especiais, da computação gráfica, do som Dolby, THX o que for. Antes da captação e projeção digital e do 3D de filmes como Hugo Cabret e Avatar. Cada projeto e cada tempo têm suas dificuldades e desafios. Mas há algo fascinante em fazer as escolhas certas quando você tem tudo nas mãos.

Quase qualquer pessoa hoje tem acesso a um lápis ou a um computador. Mas são poucas as pessoas capazes de escrever algo que seja incrível. Milhões têm máquinas fotográficas, mas quantos podem tirar fotos realmente fantásticas? O mesmo com filmadoras, e violões e guitarras e tudo, tudo mais. As ferramentas são só parte da equação. O grande equalizador, no fim, é o talento.

E talento é algo sobre o qual dá sempre vontade de escrever.

Na EW: Capitão America

A idéia por trás de um idealista que luta pela liberdade é muito legal… E absolutamente inverossímil. Eu acredito mais nos poderes do Homem-Aranha do que na possibilidade da existência de uma pessoa íntegra como o Capitão.

Mas dito isso, guardo algumas histórias incríveis do personagem na memória. De repente, rola um filme legal. Digamos que ser dirigido por Joe Johnston não é lá muito promissor, mas é o que temos…

Tropa 2 é impiedoso com o espectador


O Coronel Nascimento largou a farda e agora usa terno e luta com pastas de papel. Pobre dele.

Muitos dos espectadores clássicos de Tropa de Elite são fãs do filme de ação americano. Eles curtiram no primeiro filme a forma como conseguiu traduzir cenas de ação velhas conhecidas e as situações heróicas de sempre para uma estética brasileira. Ladrões sujos e sem camisa, usando roupas coloridas e tênis amalucados. Policiais falando palavrões e abusando da truculência. Heróicos, mas brasileiros. Seguindo uma moral cheia de tons de cinza.

É um ato de absoluta coragem que Tropa de Elite 2 abandone grande parte desses expedientes e leve o capitão Nascimento para uma posição burocrática. Por conta disso, lhe oferece inimigos contra os quais ele não sabe muito bem como lutar. Ou pior, contra os quais não há vitória possível.

E dessa decisão de José Padilha sai um filme seco, duro, impiedoso. Um filme que não oferece vitórias definitivas nem soluções fáceis. Onde a morte de um personagem importante não tem câmera lenta nem música dramática. Onde o (anti)herói não consegue a catarse de liquidar diretamente o homem que matou seu amigo.

Seus pontos mais incômodos para mim parecem ser resultados de decisões conscientes do diretor, dessa “crueldade” criativa. Enquanto no primeiro filme havia uma galeria de personagens interessantes cercando Nascimento, agora ele parece mais sozinho e isolado do que nunca.

Um dos efeitos disso é que num dos momentos cruciais do filme, quando chegam os caveiras salvadores, não há nenhum envolvimento do espectador. ELes são sempre genéricos. Mas tudo bem, recado entendido. Não há catarse possível, porque não há vitória possível.

Tropa de Elite 2 faz um retrato cru da corrupção nos altos escalões. Tenta ser tão realista que nega os mais básicos momentos de recompensa emocional do herói. É quase uma peça de edutainment (entretenimento educativo) em sua elucidação didática da mecânica da substituição do tráfico pelas milícias. Fosse este um filme americano, Nascimento iniciaria uma vingança maluca no terceiro ato e montaria ele mesmo sua milícia. Olho por olho, dente por dente. Felizmente, Padilha não perde o pulso e o rumo.

Talvez o diretor seja cerebral demais em alguns momentos ao negar recompensas tão simples aos seus espectadores. Mas a coisa toda soa muito melhor quando se pensa em como ele conseguiu com essa atitude manter íntegra a sua visão. Só ficou difícil imaginar um Tropa de Elite 3. Seria Nascimento capaz de virar um agente federal e se tornar uma espécie de Jack Bauer do Planalto Central? Duvido muito.

Avatar revisita Aliens, evolui suas idéias e triunfa

Em 1986, James Cameron dirigiu um outro épico futurista sobre o que acontece quando uma empresa privada com ajuda de militares invade um planeta hostil. O nome do filme era Aliens, o Resgate, lembra? Naquele filme, Sigourney Weaver veste um exoesqueleto e enfrenta a rainha-mãe Alien, num duelo épico. Achei curioso que esse seja só mais um dos vários deja vus que tive ao ver Avatar.

Vinte e três anos depois, mudaram James Cameron, o mundo e o cinema. Quando eu vi Avatar ontem, naquilo que batizaram de Imax do Bourbon e que deve ser o pior Imax do mundo, fiquei pensando em como encaixar esse filme na obra de Cameron.

Sim, porque o que eu tenho lido em todos os lugares parece ignorar as referências. Parece às vezes que Cameron só fez Titanic, que só gosta de efeitos especiais, sei lá. Ele é um diretor de filmes de ação incomparável e. embora use personagens rasos e arquetípicos até, traça suas jornadas de forma que conversa com o popular, mas cheia de coração e personalidade. Sua ausência deu espaço a empulhações irritantes como Michael Bay. Que é o James Cameron Bizarro.

Ok, digressão. Voltemos ao que interessa, a comparação de Aliens e Avatar. Os temas estão lá, mas claramente Cameron mudou de opinião ou resolveu explorar novos ângulos. A julgar por todos os componentes repetidos, me parece claro que Cameron estava se auto-referenciando numa forma de redefinição de suas opiniões.

Afinal, se em 1986, os humanos são vítimas de alienígenas assassinos que habitavam o planeta e os militares são canalhas porque quiseram usar os aliens como armas, o ângulo indigenista nunca passou perto da concepção do roteiro.

Mas não vamos ser inocentes. Os alienígenas de Avatar não são os da série Alien. E não haveria como transformar aquelas máquinas de matar loucas em personagens palatáveis sem fazer uma ewokização. A analogia é com os brancos versus os índios. Ganância, desprezo pelo que não é (parece) humano, assumindo o princípio de que o universo está aí para ser conquistado por quem é mais forte.

Em Avatar, parece que Cameron passou a entender a complexidade de invadir o terreno do outro e colocou isso em contexto. O que parece uma máquina selvagem e hostil pode ser um animal defendendo seu território. Agora, ao habitar os corpos de nossos conquistados, nossa perspectiva muda radicalmente ao ponto de sermos capazes de ir além do “corporativismo” racial. Importa mais fazer o que é certo, justo, ético do que simplesmente seguir cegamente sua patria, sua raça. Nada podia ser mais anti-bushista, anti-patriotismo cego do que isso. Pensar sozinho, mudar de idéia, traçar seu caminho. Adorei.

Ainda há a constante premissa humana de valorizar a inteligência. Nossos heróis não se importam com a fauna da Pandora, mas com os seres inteligentes de lá. De certa forma, poderíamos imaginar que os Aliens da série original estavam mais para animais selvagens e, por conta disso, não merecem muita consideração. Para serem valorizados os nativos precisaram ganhar inteligência. Os seres irracionais ganham importância quando são “controlados” pela internet da mãe natureza. Tudo bem, é natural que sejamos assim. Ou, pelo menos, consigamos fazer esse salto de respeitar seres inteligentes. Melhor que nada.

Nessas duas décadas que separam Aliens e Avatar, Cameron virou o diretor mais poderoso do mundo, gastou meio bilhão de dólares numa aposta arriscada e gerou um filme-evento que combina muito bem diversão escapista, espetáculo inovador e um passo à frente em sua obra pessoal. Apesar do constante desprezo da crítica, filmes de ação podem significar mais, porque ficção popular também busca uma conexão com o seu tempo. Basta olhá-los com interesse, em contexto, e os pontos de vista bons ou ruins de seus autors transparecem.

Minha tarde com Anselmo Duarte

“Tudo o que eu sabia desde menino é que não queria ser operário, como minhas irmãs. Queria fazer cinema. Quando criança, construí um projetor de slides com uma lata e uma lente.
Eu mexia com cinema como hobby e nunca pretendi ser ator, porque era tímido. O que eu sempre quis foi fazer filme, ser diretor. Só me tornei ator porque achei que seria a porta de entrada.”

Anselmo Duarte (1920-2009)

Parece que foi em outra vida. Em 2000, próximo ao aniversário de Anselmo Duarte, eu consegui convencê-lo a dar uma entrevista sobre sua vida. Ele estava fazendo 80 anos e, um tanto rabugento, não estava com o menor humor para comemorar.

Duarte foi um daqueles fora de série esmagados por não se alinhar com as correntes que dominavam a cultura brasileira. Como não era amigo dos intelectuais de esquerda do cinema nacional, foi ignorado e excluído. Depois da Glória da Palma de Ouro em Cannes, ainda não repetida por outro cineasta brasileiro, nunca mais conseguiu emplacar filmes a altura de seu talento.

Nas conversas por telefone antes do encontro, já demonstrava seus ressentimentos. No dia do encontro, foi um anfitrião simpático. Passeou pela vizinhança, mostrou o belo e confortável apartamento e, como o típico homem que já não tem mais medo de nada porque já viveu de tudo, falou sem reservas. Estou procurando a fita aqui para tentar digitalizar e colocar a disposição no blog.

A entrevista com ele, publicada pela folha em Abril de 2000, está AQUI

Entrevistei pelo menos três personalidades que julgo importantes e que morreram nos últimos anos. As outras duas são o Dr. Rinaldo Delamare, autor do Livro do Bebê, e o desenhista Flavio Colin, autor de milhares de histórias em quadrinhos que embalaram a minha geração. E eu não acho essas fitas.

Nosso Besouro é muito mais legal

Estava vendo a apresentação de Besouro (não o verde, um muito mais legal) filme de aventura usando capoeira e fiquei animado. O trailer carece de uma edição mais justinha, mas é beeem promissor.

Tem cheiro de sucesso de bilheteria com continuações pela frente ou pelo menos um sub-gênero surgindo. As credenciais técnicas são impressionantes. Mas me dá uma certa tristeza pensar que o filme evento do cinema brasileiro em 2009 se parece com algo que os chineses já faziam mais de 40 anos atrás.

Ah sim. Já posso ver as pessoas falando que Kill Bill e Matrix fizeram as mesma coisa. O que seria uma bobagem. Afinal, são filmes que têm outras propostas e que estão usando essas técnicas apenas como uma parte revisionista de seu arsenal estético.

A julgar pelo trailer, Besouro (ou Beetle) é um filme que parece pertencer, estilisticamente, aos anos 70. Mas isso é só uma digressão, um comentário sobre o quanto estamos tendo que correr atrás em alguns setores do cinemão. Afinal, ser esteticamente datado pode até ser uma vantagem, pode até ser cool se visto dentro de um contexto específico.

Como eu disse, é só uma digressão. Vou ver esse filme de coração aberto e querendo me divertir com os feitos heróicos do personagem. Sem frescura. Manda ver, Besouro!