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A coluna no site da Galileu

Como eu disse mais atrás. Voltei de um mestrado e deixei de lado o velho ofício de escrever. Uma das resoluções de 2013 era voltar para ser feliz. Aqui estou.

Até aqui, minha principal atividade foi escrever uma coluna semanal no site da Galileu.  Ali, falo de como a cultura pop infuencia e é ifluenciada. O mote é: O POP de impacto e o impacto do pop.

Na semana passada, escrevi sobre a iTunização da política. O momento em que, vivendo em um mundo em que tudo começa a ser por demanda, as pessoas resolvem que suas plataformas polícias também devem ser personalizadas e param de simplesmente aderir ao que partidos organizados propões em bloco.

Nas semanas anteriores, escrevi sobre:

Transmídia – Em A tecnologia e as novas possibilidades narrativasDefiance é um jogo ou um seriado? Os dois.

Realidade Aumentada – Em Vendo o mundo como o Homem de Ferro

Narrativas Pessoais – Em A vida como narrativa: um filme, uma série, uma timeline? (que tem um pouco de transmídia também, mas com outro foco)

Leia e comente. :-)

Ronaldo, o fim e o marketing

Ontem foi dia de assistir ao anúncio oficial do fim da carreira de Ronaldo, o Fenômeno. Eu vi a carreira dele do início ao fim. Vibrei em 2002 quando ele voltou de uma contusão gravíssima e dominou a Copa. O vejo como uma espécie de super-herói. Mas, cá entre nós, essa obsessão dele por movimentos calculados é enervante.

Sim, porque apesar do jeito meio informal do anúncio de ontem, havia um monte de ações cuidadosamente calculadas. Ronaldo é um cara inteligente que sabe usar a mídia. E usou. Veja, por exemplo, o esforço de exibir-se com os filhos, incluindo o menino (fofinho, diga-se de passagem) cuja paternidade que ele acaba de reconhecer. Ou o ato de usar a palavra fracasso aos prantos para se desculpar com a torcida do Corinthians pela derrota na Libertadores. Ou ainda, a Twitcam no notebook que estava em cima da sua mesa.

Existe o discurso e as entrelinhas do discurso. Uma coisa que fica clara é que, apesar de declarar que não guarda mágoas, Ronaldo fez questão de dar uma justificativa para o fato de estar acima do peso: hipotireoidismo e meio que repreendeu os jornalistas que dele fizeram chacota. Pena que, ao longo da tarde, alguns médicos tenham afirmado que ele podia tomar medicações para o distúrbio normalmente. Arrisco dizer que os reais motivos dos problemas físicos graves de Ronaldo só vão surgir em alguma obra reveladora (a versão do livro de memórias daqui uns dez anos) no estilo do que fez Pete Sampras em seu livro.

Mas por agora, foi um anúncio calculado cuidadosamente para tentar deixar de Ronaldo a imagem de bom pai, fiel aos amigos e amante da torcida corinthiana. Muito importante para os negócios.

É Gripe Suína. S-u-í-n-a.

Que H1N1 que nada. Chamar essa gripe de H1N1 é só uma tentativa de fingir que não surgiu nos currais onde milhares de porcos ficam confinados, servindo de tudo de ensaio para fazer um vírus se recombinar e evoluir em tempo recorde.

Tivemos a gripe aviária e agora a suína. Não vamos enfeitar o bolo por favor. O problema é enorme e é maior do que os modos de produção da indústria alimentícia.

Humm… Considerando que eles são parte da engrenagem que só falta nos amarrar e enfiar nacos de comida na nossa boca para garantir o crescimento da produção ano a ano, não posso fingir que acredito 100% no que eu acabei de falar. Talvez eles sejam grandes demais mesmo. E estamos ferrados.

O pensamento mágico

Em O Mundo Assombrado pelos Demônios, Carl Sagan conta que, quando era pequenininho, estava conversando com sua mãe e ela disse que estava acontecendo uma guerra do outro lado do oceano Atlântico. Ele apertou os olhinhos e disse: “Ih! Eu tô vendo eles brigando, mãe!”. Ela, carionhosamente, cortou a viagem dele. “Não, filho. Não está. É impossível ver o que está acontecendo do outro lado do oceano.”

É uma forma de Sagan dizer que sua mãe nunca criou um mundo mágico pra ele.

Pois hoje eu tive um momento sui generis. Um dos meus colegas de mestrado, indiano, veio até o meu apartamento estudar comigo. Estamos sentados à mesa de trabalho, trocando arquivos nos nossos macs via rede sem fio e ele olha pra um dos meus livros sobre mágica. Pensa um pouco e pergunta. “Então. Esses shows de mágica… É tudo truque mesmo? Não tem nada de sobrenatural?”

Fiquei surpreso com a pergunta sincera dele. Meu amigo é inteligente e articulado. Se destaca numa turma com 45 pessoas de todos os cantos do mundo. Mas para ele, mesmo um mágico, o proverbial farsante profissional, poderia ter poderes… mágicos.

Peguei um maço de cartas, fiz um truque rápido em que ele escolhia uma carta e eu embaralhava o maço, cortava pra todos os lados e a carta ia aparecendo em cima, no meio em todos os lugares. Seu rosto se iluminou com fascínio. No final eu avisei: Isso foi um truque. Eu não sou capaz de adivinhar sua carta, nem de movê-la com a força do pensamento. Eu uso uma técnica para fazer isso.

Fiquei fascinado com o pensamento mágico do meu amigo. Como isso é possível?

Feliz aniversário!

Hoje é o aniversário de 200 anos de Charles Darwin. Num momento em que a ignorância tenta se espalhar conquistando corações e mentes com idéias obscurantistas (design, hum, inteligente, ai, ai, ai), é bom comemorar o fato de que tivemos um cientista capaz de enxergar algo tão relevante como a teoria da Evolução.

Meu cachorro querido, do qual estou morrendo de saudades, se chama Charles Darwin. E mais não preciso dizer.

Deixo o UOL, a Folha (com muita coisa legal: Darwin nas Mãos de Deus, Darwin e a escravidão), o New York Times, o Guardian e o Times falarem por mim.

Ilusionismo iluminista

Mágica pode aparecer de várias formas. Existem as ilusões feitas de pertinho, aquelas que parecem improviso total (e nunca são), as grandes ilusões, a matemágica e, no meio disso tudo, o mentalismo. É a capacidade de um performer de simular, por meio de truques e artimanhas, adivinhações diversas e poderes como telepatia ou telecinese.

Vejamos. David Copperfield é um ilusionista. David Blaine é um… Um… Bom, era pra ser um perito em sleight of hand (movimentos rápidos com as mãos) perfeitos pra mágica de rua. Mas resolveu virar batedor de recordes e perdeu o rumo. A lista poderia se estender aqui, mas vou ficar nos mais conhecidos. E aqui na Inglaterra o cara que está comandando o batatal é o interessante Derren Brown, que faz uma espécie de mentalismo moderno.

É preciso entender, antes de tudo, que mágicos são showmen. Eles inventam não só truques, mas atos, espetáculos inteiros. Truques, ilusões, são parte da equação. Embora sejam a parte mais popular.

Bom, eu tinha visto algumas coisa do Brown. A série Mind Control, episódios de Trick of Mind. Tinha ouvido falar de Roleta Russa, que causou controvérsia na Inglaterra. E ontem consegui ver The System.

O especial passou na TV britânica no dia 18 de fevereiro de 2008 e mostra um suposto sistema criado por Brown capaz de fazer uma pessoa ganhar seis vezes consecutivas apostas em corridas de cavalos. O espectador conhece Khadisha. Ela é uma mulher pobre que recebe dicas de Brown e começa a multiplicar seu dinheiro a cada vitória. Para provar que o improvável não é impossível, Darren Brown chega a mostrar que é possível jogar uma moeda dez vezes e cravar sempre cara. E não é que ele consegue? Sem cortes.

Na reta final, Khadisha pega dinheiro emprestado com familiares e aposta o que tem e o que não tem, confiando no poder do sistema de Brown. É quando ele finalmente resolve contar a verdade…

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Tem que ser conspiração!!

Eu nunca me preocupei muito com esses vídeos do Matt Harding dançando pelo mundo. Achei engraçados, mas nunca dediquei mais do que dois segundos ao assunto.

Aí, a partir de uma indicação no Twitter, fui ver um post no Jaunted que dizia que, arrá!, Matt Harding tinha confessado tudoooo!!! E que ele tinha feito seus vídeos usando, hum, photoshop!(WTF?)

A coisa toda não fazia muito sentido, mas lá fui ver o vídeo. E era o Matt contando, em tom de piada, que seus vídeos eram uma farsa. Ele estava brincando e sacaneando todas as idéias malucas sugeridas. “Usamos robôs cujas peles a gente trocava!!”, ele diz. O orçamento de um negócio desses seria muito maior se ele fizesse os vídeos do jeito que ele estava dizendo que teria feito.

Para minha surpresa, o blogueiro do Jaunted engoliu tudo e assinou embaixo, confundindo o leitor que, muitas vezes, nem vai ver o vídeo. Resultado: os leitores leram o post e comentaram indignados que aquele tal de Matt Hardin era mesmo um safado.

Tava almoçando com o Matias no outro dia e a gente falava do quanto nosso mundo é fabricado pela nossa percepção + a mídia. Uma espécie de Matrix low tech. Mas bom senso e ceticismo podem salvar você. Basta mante-los ligados.

Os donos do mundo

Vi no Jezebel (imagem: Getty)

Os donos do mundo se encontram na sala oval.

A única coisa que me ocorre é que, em 13 dias, o cara ao centro estará fora dali e não vai voltar. Eu, que mesmo tendo um visto válido fui deportado uma vez por uma tecnicalidade maluca da américa pós-11 de setembro, sinto um prazer especial em vê-lo indo embora. Espero que os Estados Unidos mudem de rumo. Mas, no fim, muda na superfície. O presidente americano é, para todos os efeitos, um senhor da guerra. Uns são mais, outros são menos. Mas a essência do papel não muda.

Ao mesmo tempo, a cada mandato, a cada novo presidente, o poder se desvanece. O pode militar pode continuar existindo, mas a capacidade de cada novo presidente de mudar as coisas é menor. O mundo se descentraliza e um governante, sozinho, não consegue mais resolver os problemas como antigamente. Resta torcer para que Obama, o cara que entendeu como poucos o poder da mobilização, saiba fazer isso estando no poder. Não perca essa ferramenta de vista. Teremos anos curiosos pela frente e vamos ver qual será o tamanho da decepção. Não com os sonhos vendidos por ele, esses eram só isso, sonhos. Mas do quanto um cara inteligente e aparentemente esclarecido vai ser capaz de fazer as coisas certas quando tiver a chance.

Tchulla: 1992-2008

Tchulla

Eu sempre quis ter um cachorro quando era criança e minha mãe não autorizava. Cresci conformado até que, um dia, minha irmã apareceu com uma yorkshire já adulta lá em casa. O namorado de uma amiga tinha dado pra ela, a mãe da moça não quis a bichinha e a Anna resgatou pra nós. O nome era Tchulla.

Levamos no veterinário. Ela tinha por volta de quatro anos (isso significa que não sabemos a idade dela ao certo) e muito tártaro, otite, sarna, mais uma cicatriz de uma cirurgia. Talvez uma hérnia. Sabe-se lá o que foi. Adotamos a Tchulla e ela, no início, contava como cadelinha da Anna. Passou dias sem latir nem comer direito. Lembro dos primeiros passeios em que eu deixava ela me levar. Deixava ela me dizer a hora de parar. Eu tinha a sensação de que ela tinha passado por poucas e boas e merecia um desconto.

Nos primeiros dias, minha mãe, obcecada por limpeza, não queria a cadela passando da cozinha. Medo de ver xixi no carpete. Medo de ver cocô também, claro. Em poucos meses, Tchulla estava na casa toda. Em algum tempo mais, dormia com a minha mãe.

A história é típica. Um dia, eu fui embora pra São Paulo, minha irmã foi embora pro Canadá. Minha mãe ficou com a Tchulla e as duas foram ficando mais e mais ligadas. No meio do caminho, a Tchulla escolheu sua nova dona. Quando a Anna voltou e podia ter levado a Tchulla pra morar com ela e o Cris, já não fazia mais sentido. A dona dela era a minha mãe.

A Tchulla, com tantos anos, tem um monte de pequenas e grandes histórias. Um dia, quando eu já não morava mais lá, a Tchulla montou guarda na frente do banheiro de empregada por horas até minha mãe ficar intrigada. Quando o marido dela foi investigar e mexer ali, um rato apareceu e a foi a Tchulla que o espantou e o fez pular pela janela do segundo andar. Bizarro. Sabe-se lá como, um rato entrou no apartamento da minha mãe. Eu morei lá por 20 anos e nunca vi um nem de perto. Depois daquele dia, nunca mais se viu outro. Fiquei pensando se a Tchulla não tinha tramado aquilo para ficar bem com a família.

Tchulla se revelou também uma boa leitora de caráter. Um suposto amigo meu era sempre recebido com terríveis latidos pela Tchulla, que geralmente era tranquila com outras pessoas. Anos depois, ele se revelou um tremendo babaca com quem já não falo por quase uma década.

Ela e Sagan, meu maltesinho, tinham uma relação deliciosa. Foi Tchulla, aos 10, 11 anos, que tirou a virgindade dele. Deu uma de Mrs. Robinson. Ficamos com medo de que a Tchulla inventasse uma gravidez tardia. Mas aquele ato de luxúria acabou não rendendo frutos.

Tchullinha sempre foi carinhosa. E foi doloroso vê-la emagrecer, perder todos os dentes, ficar com o pelo mais ralinho e rouquinha com o passar dos anos. Um dia, descobrimos uns tumores. Ela passou por uma cirurgia, extraiu os focos e nunca mais teve nada. Estava velhinha, bem debilitada pela idade, mas saudável. Até que entrou em colapso de uma semana pra cá.

Aí, foi a minha mãe que começou a me preocupar. Minha mãe já teve um infarto. Hoje, tem 63 anos. Eu me vi tentando deixar ela mais segura de que a eutanásia seria uma opção viável. Tchulla estava com, acreditamos, 16 anos. Mal conseguia andar. Estava cega, surda e nitidamente gagázinha. Começou a ter episódios noturnos em que gritava desesperada e depois ficava prostrada. Teve convulsões. Estava fraca e, os exames constataram, com uma infecção. Era a hora de abreviar o sofrimento dela e de proteger a minha mãe também. Eu falei com ela por telefone, pedi que ela levasse a Tchulla para fazer eutanásia. Desliguei e meus olhos encheram de lágrimas. Pensei em como tinha sido fácil dizer aquilo de longe. Eu em São Paulo, num shopping, ela sofrendo com a Tchullinha no Rio. E um monte de coisas passou pela minha cabeça.

Ontem, minha irmã levou a Tchulla ao veterniário. Ele procurou a veia, fez ela dormir. Depois, uma droga para parar o coração. Foi rápido.

Peço desculpas por soar piegas. Mas não consigo me controlar. Eu fico lembrando de novo e de novo daqueles primeiros dias quando ela nem latia ainda, de tão desconfiada e assustada. Quando eu peguei cada grão da ração e fui dando pra ela. E ela comia devagar, com uma mistura de medo e cautela. Tímida. Aquela primeira refeição dela foi mágica pra mim.

Eu não a via havia meses. E não vou vê-la nunca mais. Achei essa foto legal que eu tirei dela muito tempo atrás. Eu tinha, junto com meu cunhado, uma livraria num prédio comercial. Lá no térreo, abriram uma pet shop. Um dia qualquer, eu tirei essa foto dela. Tinha uma luz de meio de tarde, ela estava linda, tranquila. Quero que essa seja a foto oficial da minha primeira amiga canina de verdade. A que me ensinou a realmente amar os cachorros pelas suas virtudes enormes, claro. Mas também pelas suas deliciosas imperfeições. Ela foi a primeira em tudo. E, por isso mesmo, foi a minha primeira cachorra que morreu e deixou esse vazio estranho.

Não há palavras pra descrever isso. É o fim. É o fim. É onde acaba tudo. É só uma cadelinha. Nem sabia fazer truques. Mas ficamos todos arrasados. Eu fico ouvindo de novo minha mãe dizendo que “a nossa Tchullinha se foi”. Ela não sentava, não dava a patinha. Era só a mascote que abriu meu coração para o que viria depois. E esse depois – obrigado, Tchulla – , com o Darwin e o Sagan, graças ao que você me ensinou, foi sensacional.