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A cadelinha que foi à luta


(ao clicar na imagem acima, você vai ser redirecionado para o vídeo contando a história da Lilica)

HIstória sensacional. Mas eu contaria de um jeito diferente.

Faça o seguinte, assista ao vídeo e, depois, rearranje os fatos:

1. Mulher  adora animais e se dedica a cuidar e alimentar bichos desgarrados
2. Ela conhece uma cadelinha que aparece sempre no mesmo lugar, no mesmo horário. Aquilo vira um compromisso para elas.
3. Todo dia ela faz tudo sempre igual. Ela nota que a cadela vem, come e tenta levar o resto da comida embora. Mas ela se enrola com o saco plástico. A tal moça ajeita o plástico e a cadela vai embora com o pacote. Todos os dias.
4. Um dia, a moça resolve seguir a cadela. Medo. Para que inferno ela pode estar indo?
5. Ela faz um longo percurso com o saquinho na boca, atravessa rua, estrada, passa por trilha no mato e termina num ferro-velho.
6. Lá, deposita seu pacote e os outros animais do ferro velho passam a ter o que comer. Todos os dias.
7. Ali ela conhece a dona do ferro-velho e as duas iniciam uma amizade.
8. Agora é hora de explicar porque a cadelinha resolveu sair por aí em busca de comida.

Pode chorar no final.

Era só um cachorro

Esta semana fará cinco meses que eu perdi o Darwin. Como eu postei muito pouco aqui no último ano, o que eu vivi com ele está apenas alguns posts abaixo.

O fato é que eu segui em frente, como a vida deve ser. O mundo está tomado de dramas e tragédias enormes. As pessoas morrem todos os dias. Porque diabos eu deveria gastar alguns minutos lembrando de um cachorro que se foi cinco meses, um ano, dez anos atrás?

Mas eu lembro. Todos os dias. Olho pro Nano, lembro do Sagan. Olho pro Astro, lembro do Darwin. Dane-se. Olho pra qualquer um deles e lembro dos dois. No outro dia conversei com um amigo que me contou, em detalhes, como ele desceu a serra com o cachorro doente no banco do carona para tentar salvá-lo… 20 anos atrás.

O mundo está cheio de dramas mais importantes do que o nosso no grande plano das coisas. Mas os pequenos dramas pessoais são os nossos grandes dramas. Não vejo problema nisso, desde que eu não me torne um idiota autocentrado incapaz de entender a escala das coisas. Eram só cachorros. Sagan. Darwin.

Mas eles viviam conosco. Eles dormiam com a gente. Eles viajavam, pediam, sofriam e brincavam. E tinham personalidades que ficam ainda mais evidentes quando a gente olha pro Nano e pro Astro.

Eram nosso cachorros, nosso amigos e roommates. Sinto falta, muita falta. Confesso que tinha medo de esquecê-los. E, em alguns momentos, me assusta que o rostinho deles fique meio difuso na minha memória. Só que, pra minha felicidade, descobri que, embora tenha começado novas histórias incríveis com o Nano e o Astro o que vivemos com o Sagan e o Darwin foi único. Nunca vou esquecer. Nem em 20 anos.

Astro dorme tranquilo aqui do lado

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Astro dormindo o sono dos justos e puros

Eu perdi meu labrador pouco mais de dois meses atrás. Não vou fingir que foi fácil. Foi duro de um jeito que eu nunca imaginei que seria. Tenho flashbacks dele até agora.

Foi bizarro. Um dia, ele mancou levemente e eu o levei imediatamente ao veterinário. Não era nada demais e continuou assim numa sequência de visitas a outros veterinários até que alguém levantou a possibilidade de ser um tumor. Era. Em menos de quatro meses morreu o cachorro com quem eu planejava passar mais uns bons 9, 10 anos.

Eu me recolhi. Fiz luto mesmo. A idéia de colocar outro cachorro dentro de casa me assustava. Era como se eu desrespeitasse e diminuísse a importância que o Darwin teve na minha vida.

Até que algumas semanas atrás eu comecei a ver os foruns de adoção. Falei com uma, duas, cinco pessoas. Eu sabia o que eu queria e o que devia evitar: eu queria um labrador, mas não podia ser preto. Uma fêmea preta era aceitável.

Umas semanas atrás, minha mulher me ligou avisando que vira um “cachorrinho lindo” na rua, em frente ao local onde ela trabalha em São Caetano. O vira algumas vezes e o achara dócil e lindo. Mas, avisou ela, ele devia ter sido atropelado ou maltratado porque mancava da perna dianteira direita.

A perna ruim do Darwin era a dianteira direita. Eu ouvi isso e caí num choro copioso, incontrolável. Sei lá o porquê exato. O fato foi que eu perdi o controle. Fiquei até com vergonha na hora. Pedi a ela que esquecesse o cachorro. Eu não queria um cão perfeito, mas também não estava preparado para enfrentar outro drama. Eu precisava de um final feliz.

Fui ver vários cães e a conexão não aconteceu. Além disso, com um maltês de seis meses em casa, eu me sentia obrigado a achar um cachorro dócil, que não o ameaçasse. Achamos uma labradora preta de seis anos e eu pensei (ainda penso) em adotá-la.

Nesse meio tempo, minha mulher não brincou em serviço, resgatou o tal vira-latinha e o trouxe para casa. Ele é preto e não é labrador. O nome é Astro, em homenagem ao cão dos Jetsons. Ele está dormindo aqui do meu lado. E por enquanto é só.

Saudade que não acaba


O dia em que meu ogrinho chegou.

E assim se passaram dois meses. Meu pretinho morreu e, confesso, eu ainda choro quando penso nele. Fui a Brotas semana passada e lembrei de um dia perdido mais ou menos dois anos atrás. Depois de passar um fim de semana com ele, o maltesinho Sagan e a Mônica em Campos de Jordão passeando nas matas, prometi que iríamos todos a Brotas quando eu voltasse de Londres.

Eu voltei um ano depois, fui tragado pelo trabalho e, quando eu vi, meu cachorro tinha uma ferida na pata. Eu cheguei a me prometer que, assim que ele sarasse, o levaria. Nunca ficou bom. Nunca tivemos a chance de fazer isso juntos.

Agora, eu ando por aí alerta, procurando um cachorro para cuidar. Meio que sinto que, depois do que eu passei com o Darwin, eu dou conta de qualquer outro cachorro. Mas tem que conectar. Tem que fazer sentido. Na hora certa, chega outro.

Mas eu nunca, nunca mesmo, vou esquecer meu ogrinho. Vou ser daqueles marmanjos que, na velhice, choram pelo cachorro perdido na infância.

Charles Darwin (2006-2010)

Aniversário do Darwin from alexmaron on Vimeo.

No domingo, montamos uma festinha na pracinha onde o Darwin cresceu. Ali, conheci grande parte do circulo de amigos que tenho hoje fora do trabalho. Gente apaixonada, como eu e a Mônica, pelos seus cachorros.

Ontem, o Darwin morreu durante a cirurgia delicada em que retiraram um tumor alojado no peito, exatamente no lugar de onde foi amputada a sua pata dianteira direita. Foi uma cirurgia complexa e longa. No final, ele não resistiu.

Não posso dizer mais nada para ele agora. Felizmente, eu disse muitas vezes o quanto o amava. Eu o beijei e o aninhei. Eu passei noites em claro ao lado dele e fui passear no meio da madrugada, quando senti que ele precisava fazer xixi e não dava pra esperar. Talvez ele não entendesse o que significava “eu te amo”, mas tenho certeza de que ele sacava o que era aquele pacote completo de carinho.

Quando o nosso maltês morreu subitamente em abril, quando, no dia seguinte, descobrimos que o Darwin tinha câncer, eu senti aquela determinação ignorante de que, com tempo para agir, com a determinação de lutar, ele ia ser salvo. Quebrei a cara. A gente perdeu todas as brigas. Não tínhamos a menor chance. Nunca tivemos. Só quando acabou isso ficou claro.

Agora eu olho esses momentos no vídeo e sinto a agonia do passado perdido. Tento lembrar do que eu senti quando o carreguei na hora dos parabéns só três dias atrás. Me escapa. Me dói que escape. Ficaram as imagens e a minha tentativa de lembrar as sensações. Faz pouco tempo, que eu podia tê-lo nos braços e sentir sua respiração e as batidas do seu coração. Agora tenho os vídeos e as muitas fotos do meu ogrinho.

Não vou dourar a pílula. Ficou um vazio enorme, sim. And the rest… The rest is silence.

Me ensine mais uma coisa, Darwin

Meu drama não é maior do que o de ninguém. Aliás, para algumas pessoas, é coisa de uma drama queen. Mas é o drama que me cabe nesse momento, é a minha vida. Meu cachorro está morrendo. Um dia depois do outro. Eu percebo isso e, às vezes, acho que ele também.

Mas ele mantém a dignidade. Continua doce, continua atento, só ficou um pouco mais caprichoso na hora de comer e mais desanimado com qualquer coisa que não seja ir para a rua passear.

Ele brinca com o “irmão” recém chegado, o maltesinho Nano. É de uma delicadeza comovente. Principalmente se a gente se toca de que a maltesa (Sophia Loren) toda hora machuca o Nano nas brincadeiras, enquanto o Darwin jamais arrancou um grito que fosse. Chega a ser especialmente engraçado ver o maltês praticamente dentro da boca do labrador. Mas Darwin sempre foi assim mesmo, de uma doçura à toda prova.

Nos últimos meses, a cada derrota, cada vez que algo que tentamos falhou, eu fui ficando mais humilde. Fui lembrado da nossa impotência e, na fase de barganha, comecei a ter sentimentos horríveis em que relativizei o destino ingrato do meu cachorro. Podia ser pior, tentei acreditar.

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O cachorrinho perneta num mundo sem noção

Ter um cachorro de três pernas é uma atração à parte, ao que parece. Nos passeios de todas as noites, eu sou parado o tempo todo com pedidos de explicações sobre o motivo da falta da perna do meu cachorro.

Contexto, contexto. As semanas de recuperação foram legais. O Darwin foi ficando mais forte a cada dia, o paladar voltou. Eu comecei a ter esperanças de que o pior estava para trás e que tínhamos pela frente alguns meses de tranquilidade. Até que, na semana passada, numa das trocas de curativo, eu notei uma bolinha vermelha na cicatriz da cirurgia. Fiquei assustado, mas podia ser só uma bolhinha por conta do esparadrapo. Sabe-se lá.

Era o tumor de volta. Claro. O que mais? Até aqui, sempre que algo pode dar errado. Bem. Dá. Não foi diferente. Entrei em agonia. Fiquei desolado. Eu estava começando a ver a vida voltar ao normal.

Nessas semanas de recuperação, eu ia respondendo às perguntas com uma versão resumida da história do tumor, da amputação etc. E sempre terminava com uma nota de esperança. Mudei meu discurso. Agora eu não me permito mais viver em negação. Eu preciso aceitar que o tempo está contra nós.

Então, em vez de maquiar a situação eu simplesmente conto a história e termino com “É, mas o tumor voltou”. É isso. Aceite o destino estúpido. Tudo agora se resume a levar a briga para outro campo. Ganhar tempo, lutar por qualidade de vida e conforto pro meu pretinho. Então, meu discurso é pra mim também. Me ajuda a aceitar o que vem pela frente. Me ajuda a organizar minha cabeça, minhas expectativas e a colocar as coisas em perspectiva. Realidade.

Hoje, fui passear com o Darwin nos arredores e cruzei com várias pessoas que iam me perguntando, de novo e de novo, o que houve. Uma delas, um motorista de ônibus esperando começar sua próxima viagem, me parou e perguntou porque o Darwin “estava aleijado”.

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Darwin: As pequenas vitórias diante das grandes derrotas

As últimas semanas têm sido de mais derrotas do que vitórias.

Duas sessões de quimioterapia enfraqueceram o Darwin e, embora tenham aparentemente evitado que aparecessem metástases, não funcionaram contra uma recidiva na pata direita, a mesma em que o dedo foi amputado.

Ele parou de comer, nos obrigando a ser criativos para mantê-lo nutrido: salsichas de frango, peru e o que fosse aparecendo, carne, frango, rações moles de vários sabores e papinha de neném forma algumas das estratégias.

Darwin foi ficando fraquinho e perdendo o interesse pelos passeios. Logo depois da segunda sessão de quimio, parou de usar a pata dianteira direita. A perna foi acometida de uma flebite e ficou ameaçada de amputação. Afinal tinha um novo tumor e um grave problema circulatório.

Na tentativa de salvar a perna, foi entupido de medicamentos e injeções, três sessões de compressas quentes e frias todos os dias. Nada parecia dar resultado. Ele foi perdendo as forças e começou a chorar de noite com dores. Tivemos que dopá-lo e começaram as crises de incontinência por causa das drogas. Ele começou a dormir com a gente na cama.

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Meu labrador deixa meu coração apertado

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Vou tirar um elefante da sala. Ou pelo menos avisar que ele está lá.

Meu labrador lindo, o Darwin, teve um tumor maligno na pata, amputou um dedo duas semanas atrás e agora eu vivo um dia depois do outro a tensão de saber se ele vai ficar bom ou se vai começar aquela briga sofrida contra uma doença absolutamente imprevisível.

Isso tudo aconteceu em seguida à morte do meu outro cachorro, o Carl Sagan. Um negócio que arrasou completamente o clima na minha casa. Minha mulher entrou em depressão, eu ainda não sei direito o que sentir ao entrar em casa. O Darwin, bem, ele está claramente mais triste. Sempre teve outro cachorro por perto. Agora, usando o colar elizabetano (o “abajur”), com a pata doendo, fica sozinho por algumas poucas horas todos os dias, apesar de todos os nossos esforços. Tem se comportado heroicamente bem.

Mas então, o tumor é maligno. Foi extirpado, mas pode ter sido tarde demais. Pode ter se espalhado e a quimioterapia vai ser crucial nas chances do meu cachorro. No sábado, surgiu um calombinho. Hoje já está menor. Pode não ser nada. Estou contando as horas até a consulta com a veterinária-oncologista hoje no fim do dia. Cada coisa que surge é um susto. Mas ele não sabe de nada e, dizem os veterinários, isso é sua maior vantagem. Sem entender o que está acontecendo, não se abate. Continua querendo viver, correr atrás do osso, pular em cima do sofá. Continua querendo estar comigo o tempo todo, custe o que custar.

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