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Bem-vindo a Gattaca

No meio do noticiário, uma notícia histórica: Nasce menina britânica selecionada para não carregar gene ‘cancerígeno’

Essa é uma aplicação genial da engenharia genética. Claro que temos pela frente mil dilemas. No DVD de Gattaca, o filme de 1998 em que um jovem tenta realizar seus sonhos numa sociedade que discrimina quem não tem os gens certos, há uma sequência que foi cortada do filme mostrando as pessoas que poderiam não ter nascido se as técnicas de discriminação genética estivessem em vigor em seu tempo: de Lincoln a Einstein.

Claro que não é tão simples assim. Se há como, por exemplo, corrigir o problema inibindo a predisposição genética, por que não usar essa possibilidade? Mas, como sempre, é preciso ter práticas definidas e discutidas. É bom ler além do discurso triunfalista de quem tem interesse em ganhar milhões com essas técnicas.

Ao mesmo tempo, alguém sempre vai dizer que a dislexia de Einstein o fez grande. O que é uma discussão inútil e infantil. Afinal, a gente sempre poderia pensar que, sem dislexia, Einstein poderia ter sido ainda maior… Ou não. Quem vai saber?

Totó!!! Levanta-te!

No G1: Célula-tronco adulta faz cão paraplégico voltar a ficar de pé

Vão chiar. Vão espernear. Vão reclamar. Mas em algum momento a racionalidade (e o dinheiro, por que não?) vão vencer essa parada. As pesquisas vão tomar velocidade e vamos revolucionar o tratamento de doenças que, hoje, são incuráveis.

E, só por agora, e pelo valor dessa pesquisa, não vou discutir as condições dos testes com cobaias.

Control + Z

Quem trabalha regularmente com computadores, seja no word, no excell, no open office, no powerpoint, sabe muito bem para que serve control + Z. É o UNDO, desfazer, voltar. Save game. Morri. Volto e tento de novo, um pouquinho diferente, pra ver se consigo desta vez. Talvez seja uma das maiores conquistas do mundo digital. Undo. Errei, porra. De novo!

É quase um superpoder e nossa sociedade atual está apaixonada pelos superpoderes, talvez porque eles estão cada vez mais possíveis.

Quem melhor entendeu isso foi Steven Johnson no sensacional Cultura da Interface (Jorge Zahar). Ele não toca em todos esses tópicos aqui, mas fala de como viver com as interfaces digitais muda nosso modo de pensar e de entender o mundo. Escrever hoje é muito diferente de como era 20, 30 anos atrás. Eu, que tenho 35 anos, comecei escrevendo em uma máquina de escrever olivetti do meu pai (caramba, como eu queria achar essa máquina só pra ter de lembrança…). Depois, usei um TK95, um CP400, um MSX da Gradiente e entrei no mundo dos PCs e dos Macs. Nunca mais toquei numa máquina de escrever, embora a gente pague tributo a elas todos os dias ao usar os teclados dos computadores, não vamos esquecer.

No outro dia, eu estava trocando mensagens no MSN com outras três pessoas ao mesmo tempo. Estávamos tendo uma conversa intensa sobre um monte de tópicos no meio da redação sem que ninguém mais pudesse nos ouvir ou saber do que estávamos falando. É uma forma de telepatia de texto. o grande Arthur Clarke dizia que a tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia. Pense em celulares, palms, computadores, pense nos trajes capazes de resistir ao impacto de uma bala. Nos carros, nas supermotos, nos pequenos aviões etc. Quanto mais portátil, mais invisível, mais a coisa se parece com magia.

No meio disso tudo, gadgets portáteis viraram minha obsessão. Ter um celular com GPS, com o google o tempo todo funcionando, já me tirou e enrascadas (e estourou minhas contas telefonicas). Quando eu era moleque, tive brigas de abalar a amizado por me perder de amigos em shopping centers ou grandes eventos. Hoje isso é impensável. Todo mundo está a um telefonema, um contato eletro-telepático, de distância.

Mas em várias instâncias de nossas vidas a digitalização e o control + Z não chegaram. Nós ainda podemos morrer e, se dissermos uma bobagem na hora errada, é beeem difícil consertar. Um dia, com a gravação de backups periódicos, uma pessoa poderá, perfeitamente, voltar da morte com a perda de algumas horas ou dias de sua memória. Os embriões de tecnologia estão todos aí. Isso tudo vai acontecer mais cedo ou mais tarde.

A parte mais difícil é a de consertar as besteiras que dissemos, que fizemos para as pessoas. Acho difícil que eu possa comprar na Fnac ou nas Lojas Americanas um “apagador de bobagens ditas no calor da discussão”. Não que isso seja impossível de criar. Só acho que é coisa que a gente vai achar somente na Santa Ifigênia do futuro. Será uma tecnologia pirata, possível, mas irregular.

Que eu considero bobagem. Por que? Porque num futuro em que tudo pode ser refeito, repensado, redimensionado. Num futuro em que podemos voltar atrás nos nossos erros, porque não ficaríamos mais permissivos com essas falhas? Se a interface pode influenciar nossas mentes, por que não mudaríamos nosso jeito de ser para algo mais compreensivo com as falhas alheias? Ok, falei besteira. Peço desculpas. Me excedi. A compreensão do cérebro para chegar a essas tecnologias vai, naturalmente, revelando o quanto somos passionais e passíveis de erros. Sabendo disso tudo, conhecendo nossas limitações, nossos desequlíbrios químicos. Fica mais fácil entender o outro. E é mais fácil usar o control + Z. Aquele interno, que depende só da nossa boa vontade.

P.S.: Você nem pode imaginar por que eu comecei a pensar nisso tudo… Li no Omelete que o Flash clássico, Barry Allen, está de volta aos quadrinhos da DC. Para os mais puristas, é um absurdo total. Esse personagem foi uma das poucas mortes “definitivas” da história dos quadrinhos (foi morto em 1985, na Crise). Mas o Flash viaja no tempo e em dimensões paralelas. O que eu sempre achei estranho foi o personagem não voltar. Eu, hein…

O fato é que os quadrinhos lidam com essas idéias intensivamente e têm um termo para isso: ret con. É quando eles recontam alguma história do passado e reescrevem a realidade para se adequar a alguma novidade. Um dos exemplos típicos para o grande público foi quando, em Homem-Aranha 3, enfiaram o Homem de Areia no dia da morte do tio Ben, que nós tínhamos visto no primeiro filme. Ret con ruim.

23 e eu e você (atualizado)

A esposa de um dos bilionários do Google criou uma nova empresa chamada 23 and Me.

O serviço: você passa um cotonete na boca, manda para eles e recebe seu perfil genético, com informações que incluem a chance de você desenvolver câncer ou ter um infarto.

Parece legal, né?

Mas basta pensar um pouquinho que a coisa começa a ficar assustadora. Digamos que você usa esse serviço e descobre que pode ter câncer aos 50. Veja bem: pode. Não VAI ter câncer. PODE ter câncer. Digamos que, de alguma forma, essa informação se torna pública e cai na mão ou do seu empregador ou do seu plano de saúde. O que eles fariam?

Isso é só uma pequena parte dos problemas que esses avanços podem trazer se não forem discutidos e legislados de forma correta. Eu digo “problemas” porque nós sempre sabemos muito bem os benefícios desses avanços. Poder fazer exames profiláticos periódicos para evitar um câncer possível é algo desejável e que vai salvar milhares de vidas.

Ma, considerando que sempre há gente fazendo lobby a favor das corporações, não é difícil passar uma lei em que as empresas tenham o direito de saber se seus empregados PODEM ficar doentes ou não. Afinal, essa é uma informação legítima, diriam eles. Logo, logo, vamos estar fazendo testes genéticos junto com exames de admissão em empresas ou na hora de entrar num novo seguro saúde. As consequências… Bem, basta imaginar.

De vez em quando, eu realmente me pergunto se quero que certos avanços aconteçam…

Atualização: A Wired fala da 23 and Me

O hype da era digital – Parte 1

Recebi alguns e-mails sobre os posts anteriores a respeito de realidade virtual (que passo a denominar RV de agora em diante) e vale fazer algumas observações pertinentes.O que é uma RV? Bom podemos dizer que é um ambiente que não existe em nosso mundo físico, de átomos, mas sim em um mundo lógico.

As pessoas costumam associar alguns conceitos a tecnologia e um deles é a RV. Mas isso é um erro crasso.

Desde que o ser humano começou a contar histórias, surgiu a realidade virtual. Sim, qual é a surpresa? Ao criar uma história e situá-la em um mundo fictício qualquer, estamos criando uma realidade virtual. Pela definição, um mundo que não existe fisicamente, mas existe em termos lógicos.

Assim, todos os livros são uma realidade virtual. Todas novelas de rádio, todos os filmes. São realidades ficcionais, ou não, isso não importa, que não existem em nosso mundo. Claro que você pode alegar que os mundos virtuais de um filme existem como cenários, mas é procurar cabelo em ovo, mesmo porque os cenários não são nada perto da ilusão que criam no filme.

Podemos citar os sonhos também. Eles são a RV mais perfeita que conhecemos até aqui. O Eduardo Rocha me contou como seu pai sonha, dormindo e acordado, com um passado distante. Há pessoas que dizem poder controlar seus sonhos e ser capazes de criar cenários e situações ali. São os sonhos lúcidos.

Quando eu tinha lá os meus 14 anos, descobri um livro chamado enrola e desenrola. Ali tinha uma história contada para parecer que era você o protagonista e havia diversas opções que você ia escolhendo a cada página. Dali, você pulava para outras páginas de forma não linear.

É um passo à frente. Opção.

É preciso que você entenda antes de tudo que um livro é uma máquina. Uma revista, um jornal, também. São máquinas que usam como motor para funcionar habilidades que, presumivelmente, nossos corpos e nossas mentes possuem. São máquinas completadas por nós.

Um carro também. O fato de ele ter um motor torna isso mais claro. Mas não é diferente. Não funciona sem que alguém o dirija. Em algum tempo, computadores deverão dirigir carros, mas isso é outra história.

Saindo da digressão…

Anos depois de conhecer o enrola e desenrola, eu conheci o RPG. Pela milésima vez, a sigla vem de roleplaying game, é um jogo no qual você cria um personagem e uma outra pessoa cria uma série de situações e pergunta para você o que seu personagem faria se estivesse ali. Parece complicado, mas não é. E funciona que é uma beleza.

Surgiu em 1970 e alguma coisa e eu só o descobri no final da década de oitenta com um grupo de heróicos amigos. Onde eu quero chegar é que até aí, nesses tipos de diversão, não havia computador na equação, sacou?

O computador entra na história para turbinar as coisas. Alguns anos depois de eu começar a jogar RPG, surgiram jogos de computador como Wolfenstein e Doom. Até ali, quando eu falava em RV as pessoas diziam que eu estava viajando. Mas eles nada mais são do que o primeiro passo nessa direção.

A meta de RV é criar o que os sonhos lúcidos prometem. Um mundo virtual sob seu controle. Ali, você poderia ser mais rápido do que um trem, e poderia saltar mais alto que um prédio. Ali, poderei ter a mulher que quiser, na cama que escolherei.

A mulher que quiser (ou o homem, depende do sexo ou da preferência sexual) os seres humanos já imaginam há séculos com a masturbação. Uma modalidade de RV bem interativa, se é que você me entende. Saltar prédios, correr muito rápido, são coisas que os videogames trazem para a classe média moderna. Aliás fazer coisas impossíveis é bem possível em sonhos. Mas é difícil controlá-los. E feitos impossíveis são comuns em RPGs, não vou esquecer.

As pessoas querem mais. Elas querem sentir as coisas como se fosse tudo verdade. Elas querem ter o controle e querem ter as sensaçòes. E isso, o século 21 promete atingir com o uso de computadores. A única atuação dessas maquininhas é no papel de tornar esse sonho milenar realidade.

O que foi mudando ao longo dos séculos foi o nosso grau de interação com os mundos virtuais. Antes, nós só podíamos acompanhar o que estava acontecendo sem que nada pudéssemos fazer. éramos Cassandras.

Lembro de um episódio do desenho da Betty Boop que eu vi quando era criança. O cachorrinho dela se apaixonava por uma cachorrinha. Ela nào dava bola para ele até que caia em um rio ele a salvava.

Eu fiquei com ódio da personagem. De como ela só foi capaz de amá-lo por gratidão. Pedi ao meu irmão Fernando que me ajudasse a mudar o final do desenho.

Nando é onze anos mais velho do que eu, que tinha uns sete anos na época. Sem computadores para ajudar, ele montou uma maquete tosca com algumas folhas de papel ofício, caneta colorida e cola. Fez o cachorrinho, a cadelinha, o rio e uma cachoeira.

Tudo pronto, encenou o que acontecera no desenho, só que, em minha versão, o cachorrinho a deixava morrer afogada. Desculpem pela minha crueldade juvenil.

Meu mano, que controlava também aquela RV, fez o cachorro ficar triste. Me disse que ele precisava dela. Que gostava dela e que às vezes a gente precisa lutar quando quer alguém. Refizemos a simulação de novo, só que nada de rio. Em minha versão, ele e ela se apaixonavam antes, sem que ela precisasse se afogar em um rio para entender que ele a amava.

Desculpem, outra digressão.

Voltando, ao longo dos anos, esses mundos virtuais foram invadindo os nossos sentidos e agora estamos chegando à última fronteira. Dos capacetes, passaremos a enganar nossos sentidos. Assim como muitas vezes não sabemos que estamos sonhando, não vamos conseguir distinguir a RV da realidade.

E o mundo físico e o lógico vão se fundir. Quem viver, verá.

Cientistas brigam sobre número de genes dos humanos

Essa busca pela decodificação do genoma é fogo. Como todo mundo acha que a tecnologia será o eldorado do século 21, um monte de respeitáveis senhores de avental arregaçou as mangas e resolveu brigar pelos seus milhões.

Tem o Craig Venter, da Celera Genomics, Francis Collins, da Human Genome Project, e um monte de companhias menores brigando por uma migalha que seja dos bilhões que, estima-se, o setor vai movimentar nos próximos anos.

Assim, como há diversas novas empresas na área de biotecnologia e genômica (manipulação de genes), elas estão brigando para aparecer nos jornais com alguma frase de efeito. É um jogo mesquinho. Veja bem, quando todo mundo da “comunidade científica” começa a falar mal do projeto da Celera Genomics, por exemplo, espera-se que suas ações despenquem.

Esse efeito curioso é uma das grandes discussões atuais da bioética. Levar a ciência para um campo empresarial pode ser fatal para o desenvolvimento. Sim, porque no mundo do sobe e desce das cotações da bolsa, mais importante do que estar cientificamente certo é parecer cientificamente certo.

Para quem está imerso em uma economia neoliberal, entender por que isso é ruim é muito difícil. Mas eu vou começar pelas universidades. Uma das grandes idiotices do nosso governo foi adotar a idéia de formar para o mercado. Isso é o mesmo que matar o nosso futuro. Quando criamos um curso para suprir necessidades de mercado, estamos cortando e inibindo a criatividade inerente à atividade acadêmica. Acreditem, as pessoas gostam de dizer que a faculdade é cheia de caras que só ficam ali, naquele ambiente protegido, sem precisar se preocupar com mais nada. É uma grande besteira.

Embora existam os sangue-sugas (existem em qualquer lugar, afinal) o sistema cuida de criar conhecimento. Essa é a principal função de uma universidade. É de lá, da academia, que saem as grandes idéias, os grandes pensadores. O ambiente efervescente estimula. Mas uma universidade voltada para criar robôs teleguiados prontos para o mercado, só isso, não dá. É muito pouco. Se você quer só um emprego, faça um curso profissionalizante. Tem um monte por aí.

O grande efeito dessa pesquisa apenas atrás dos interesses comerciais é que num mundo como esse, ninguém perde tempo procurando a cura de uma doença que mate poucas pessoas. Na lógica comercial, os caras pensam que não há retorno em pesquisar e desenvolver uma droga que “só vai salvar umas 100 vidas por ano”. Como assim? E seu for eu ou você, e se for seu irmão ou seu(sua) namorado(a)? O detalhe bizarro é que milhares de descobertas saíram de pesquisas feitas para desenvolvimento de outros produtos. Pesquisar é importante porque cria novas possibilidades, novas perguntas. Pesquisar para o mercado limita tudo.

Assim, voltamos ao assunto inicial. Os caras estão brigando para definir quantos genes temos no corpo. São 35 mil, 75 mil, 90 mil ou 150 mil? A cada declaração jocosa de um, o outro é colocado em questão, uma piadinha tenta desmerecer seu projeto. O que é preciso ter em mente é que o mapa não basta, vamos precisar de mais alguns bons anos de pesquisas para saber o que fazer com esse esquema.

Sequenciaram o código genético do arroz

É isso aí. Nos próximos anos, vamos ver os jornais avisando que sequenciaram mais alguma coisa. Será o feijão, a vaca, a batata, o frango etc. Como eu já disse em notas mais embaixo, vão clonar um ser humano nos próximos 12 meses e cientistas da Grã-Bretanha foram autorizados a fazer clonagem humana com fins de pesquisa. É o século 21, com medo ou não, iremos todos ter que nos adaptar às loucas mudanças que vêm por aí.
Você acha isso bom ou ruim? Por quê?