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Diga-me o que jogas

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Grandes jogos dizem muito sobre o desenvolvimento e sofisticação de um grupo social. Jogar é ser capaz de entender processos, procurar padrões e, a partir daí, planejar e modificar suas estratégias para enfrentar certas situações. Imagine só: por que será que os alemães são tão bons com jogos? Por que adoram tanto o assunto?

Por que será que os RPGs (role-playing games), o jogo-software por excelência, se desenvolveram de forma tão poderosa nos Estados Unidos, enquanto tantas inovações estavam sendo feitas no terreno de software? RPGs eram a manifestação máxima da inventividade daquelas pessoas naquele tempo. Sua imaginação era tão fértil e sem limites que foi preciso criar um jogo sem nenhuma amarra.

E esses jogos deram origem a classes profundamente sofisticadas de videogames, duas gerações depois.

Enfim, meu ponto, minha defesa da necessidade de darmos mais importancia a jogar muito jogos melhores tem a ver com o tipo de pessoa que sai de uma sessão de um bom jogo. Você aprende a identificar problemas, desenvolver estratégias, errar e corrigir seus erros muito rápido. Você se torna, no limite, um profissional mais preparado pros desafios.

Penso nisso em relação a todos os tipos de jogos, de tabuleiro a videogames. Mas estou falando aqui de forma mais específica dos jogos de tabuleiro. Os charmosos dinossauros analógicos do mundo do entretenimento.

Desde minhas primeiras lembranças de infância, jogar sempre foi uma das atividades mais prazerosas pra mim. Dos presentes que ganhei dessa época, dois dos mais lembrados são minha caixa de War, dada pelo meu irmão Fernando, e uma pirâmide de caixas incrível que meu primo Elcio me deu chamada Todos os Jogos.

Já ali, era impressionante a sensação de que não tínhamos no Brasil acesso ao que estava acontecendo nesse segmento de jogos de tabuleiro. Havia um universo amplo que não era coberto pelos fabricantes brasileiros. Mas isso foi antes da Internet.

Mesmo nos Estados Unidos, o cenário era meio paradinho também. Foi nos anos 90 que a coisa começou a ficar interessante a partir da chegada de Carcassone e Settlers of Catan, dois jogos alemães, ao mercado americano. Ainda assim, a coisa voltou a ficar estagnada na virada do século.

Ao longo da última década, eu tenho ido religiosamente a uma loja em Nova York comprar meus jogos de tabuleiro, a Compleat Strategist. Houve um momento por volta de 2004-05 que eu senti essa estagnação refletida nas prateleiras da loja. Um ano se passou e eu vi pouquíssimas novidades.

Mas de repente, os diversos componentes se recombinaram e o jogo virou. Junte internet, a inventividade dos europeus e o vigor dos americanos. Coloque no mix o barateamento dos processos e componentes. Traga para a mesa coisas como o Kickstarter, um site especializado em conectar pessoas com idéias a outras com dinheiro para ajudar a bancá-las, num sistema de crowd funding.

Junte isso tudo, e o cenário muda completamente. Conversei semana passada com um dos donos da Compleat e ele, com um sorriso no rosto, disse que em 27 anos, esse é o melhor momento da loja. Há muitos lançamentos e um ecossistema de jogos que atrai novos interessados e, quando eles se interessam mais, é capaz de oferecer produtos para todas os tipos de interesses.

Aqui em São Paulo, temos pelo menos duas empresas que atendem aos entusiastas de jogos de tabuleiro: a Ludus e a Funbox. A primeira é um restaurante no qual você senta com os amigos e aluga jogos. E, claro, o catálogo é enorme e complexo. Oferece jogos que não se parecem muito com a linha usual da Grow…

Na Funbox, isso se eleva à décima potência. Eles criaram um clube de jogos com mensalidade e acesso a um catálogo de mais de 400 títulos. Junte Ludus, Funbox e os jogos que os sócios e clientes dessas empresas possuem e estão dipostos a partilhar e estamos falando do que deve ser o maior pool do gênero no país e, talvez, em toda a América Latina. Não é pouca coisa.

Mas não vamos nos iludir. A Funbox é uma locadora e não vende (ainda) jogos. Se tentasse viver da venda, provavelmente iria fracassar. O mercado para isso é pequeno e as taxas de importação são proibitivas. Claro, tudo isso porque as pessoas encaram jogar, uma das mais básicas atividades humanas, como algo fútil.

Não podia ser mais estúpido esse ponto de vista. Não é por acaso que o termo gamification explodiu nos últimos anos. Imagine aplicar tudo que aprendemos com game design a outras categorias do entretenimento? Usar os gatilhos motivadores em atividades que não são, originalmente, jogos.

Basta imaginar algumas das possibilidades para entender que os resultados potenciais são bons demais para ser ignorados. E não vão ser. E não estão sendo. Estamos cercados por jogos como nunca antes. E vem muito mais por aí.

Conte para os amigos!

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