Mais um jornal do futuro: “I”

O Independent, que foi comprado em meio a uma crise sem precedentes, lançou seu novo jornal, o I. É colorido, dinâmico e tenta desesperadamente ocupar um espaço na vida do trabalhador britânico em seu percurso ao trabalho. Algumas reflexões…

Houve um tempo em que o rádio ocupava um espaço enorme nas vidas das pessoas. Em primeiro lugar, a sala de estar. Depois, com a miniaturização, vários cantos da casa, a orelha dos torcedores nos estádios…

Aquele espaço da sala foi ocupado por outro aparelho, a TV. Depois vieram os computadores, o celular, tomando outros momentos em que o rádio brilhava solitário. Eu lembro de comprar um walkman no final dos anos 80, início dos anos 90 e achá-lo inútil se ele não tivesse rádio. E o papel principal do rádio virou companheiro de viagem no carro.

Ah, mas o jornal de papel também teve seu tempo em que ocupava um espaço relevante do nosso dia. Era a parada do café da manhã, a leitura do ônibus. Isso foi mudando também. Os jornais distribuídos em sinais para leitores de engarrafamento já eram o recado de um agudo sinal dos tempos.

Na Inglaterra, a leitura de jornais acontece primordialmente no momento do commute, o percurso de casa para o trabalho usando os transportes públicos. Começou uma guerra por esse momento do dia do cidadão inglês. É preciso chegar às mãos dele entre a sua casa e o momento de sentar-se no banco (se der sorte) para a viagem do e para o trabalho.

Há duas guerras em jogo. Uma na ida de manhã e outra na volta, no final do dia. Matutinos e vespertinos disputam ansiosamente esses espaços. Se você gasta algum dinheiro pela manhã, quando gasta, não vai dar nem um centavo no fim do dia. Por conta disso, o I tenta arrancar 20 centavos do leitor, enquanto o Evening Standard parou de cobrar e virou um produto gratuito para tentar viajar no colo do londrino de volta para casa.

Apesar de todos esses esforços, o que você mais vai ver nas mãos das pessoas no metrô não é um jornal. É um telefone celular. As pessoas jogam, lêem notícias, trocam mensagens. É ali que está o verdadeiro campo de batalha do futuro. Estar no celular das pessoas é estar com elas a qualquer momento, em todo lugar.

Os jornais precisam achar o seu caminho por ali. Ainda há espaço para o papel, claro. Velhos hábitos demoram para morrer. Mas ignorar o celular vai se provar, em breve, um erro imperdoável para quem quer vender mídia num mundo conectado.

Num mundo impiedoso como o atual, pouco importa se o I é bom ou não. Eu não tive um em mãos, mas quem tentou ler um exemplar me disse que é uma droga. Se fosse bom, já enfrentaria uma briga boa. Como não é, fica mais difícil tomar o lugar do meu celular, hein.

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