Tropa 2 é impiedoso com o espectador


O Coronel Nascimento largou a farda e agora usa terno e luta com pastas de papel. Pobre dele.

Muitos dos espectadores clássicos de Tropa de Elite são fãs do filme de ação americano. Eles curtiram no primeiro filme a forma como conseguiu traduzir cenas de ação velhas conhecidas e as situações heróicas de sempre para uma estética brasileira. Ladrões sujos e sem camisa, usando roupas coloridas e tênis amalucados. Policiais falando palavrões e abusando da truculência. Heróicos, mas brasileiros. Seguindo uma moral cheia de tons de cinza.

É um ato de absoluta coragem que Tropa de Elite 2 abandone grande parte desses expedientes e leve o capitão Nascimento para uma posição burocrática. Por conta disso, lhe oferece inimigos contra os quais ele não sabe muito bem como lutar. Ou pior, contra os quais não há vitória possível.

E dessa decisão de José Padilha sai um filme seco, duro, impiedoso. Um filme que não oferece vitórias definitivas nem soluções fáceis. Onde a morte de um personagem importante não tem câmera lenta nem música dramática. Onde o (anti)herói não consegue a catarse de liquidar diretamente o homem que matou seu amigo.

Seus pontos mais incômodos para mim parecem ser resultados de decisões conscientes do diretor, dessa “crueldade” criativa. Enquanto no primeiro filme havia uma galeria de personagens interessantes cercando Nascimento, agora ele parece mais sozinho e isolado do que nunca.

Um dos efeitos disso é que num dos momentos cruciais do filme, quando chegam os caveiras salvadores, não há nenhum envolvimento do espectador. ELes são sempre genéricos. Mas tudo bem, recado entendido. Não há catarse possível, porque não há vitória possível.

Tropa de Elite 2 faz um retrato cru da corrupção nos altos escalões. Tenta ser tão realista que nega os mais básicos momentos de recompensa emocional do herói. É quase uma peça de edutainment (entretenimento educativo) em sua elucidação didática da mecânica da substituição do tráfico pelas milícias. Fosse este um filme americano, Nascimento iniciaria uma vingança maluca no terceiro ato e montaria ele mesmo sua milícia. Olho por olho, dente por dente. Felizmente, Padilha não perde o pulso e o rumo.

Talvez o diretor seja cerebral demais em alguns momentos ao negar recompensas tão simples aos seus espectadores. Mas a coisa toda soa muito melhor quando se pensa em como ele conseguiu com essa atitude manter íntegra a sua visão. Só ficou difícil imaginar um Tropa de Elite 3. Seria Nascimento capaz de virar um agente federal e se tornar uma espécie de Jack Bauer do Planalto Central? Duvido muito.

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