Me ensine mais uma coisa, Darwin

Meu drama não é maior do que o de ninguém. Aliás, para algumas pessoas, é coisa de uma drama queen. Mas é o drama que me cabe nesse momento, é a minha vida. Meu cachorro está morrendo. Um dia depois do outro. Eu percebo isso e, às vezes, acho que ele também.

Mas ele mantém a dignidade. Continua doce, continua atento, só ficou um pouco mais caprichoso na hora de comer e mais desanimado com qualquer coisa que não seja ir para a rua passear.

Ele brinca com o “irmão” recém chegado, o maltesinho Nano. É de uma delicadeza comovente. Principalmente se a gente se toca de que a maltesa (Sophia Loren) toda hora machuca o Nano nas brincadeiras, enquanto o Darwin jamais arrancou um grito que fosse. Chega a ser especialmente engraçado ver o maltês praticamente dentro da boca do labrador. Mas Darwin sempre foi assim mesmo, de uma doçura à toda prova.

Nos últimos meses, a cada derrota, cada vez que algo que tentamos falhou, eu fui ficando mais humilde. Fui lembrado da nossa impotência e, na fase de barganha, comecei a ter sentimentos horríveis em que relativizei o destino ingrato do meu cachorro. Podia ser pior, tentei acreditar.

Se eu fosse religioso, se eu fosse capaz de pensamento mágico, seria mais fácil. Eu atribuiria ao Darwin algum destino especial: um aviso, uma missão de aprendizado. Seria mais fácil. Ele acaba fazendo isso tudo por linhas tortas. Darwin me lembrou que o fim é logo ali. Que pode acontecer todos os dias e que precisamos estar atentos. Assim como meu pai e meu irmão me lembraram quando eu ainda era uma criança e os perdi subitamente. Desde então, a vida me deu uma longa trégua e eu meio que me esqueci do óbvio. Ser lembrado da nossa mortalidade, de vez em quando, pode ser útil e educativo. Nos reconectar com o que realmente importa. Mas não. Não acredito em missões. Acredito no resultado de viver nossos percalços e nossas dores.

Eu acredito em nós vivendo a vida. E morrendo também. É uma das etapas inevitáveis. Uns duram mais, outros duram menos. O que a gente é capaz de fazer com esse tempo? Que chance temos? Que diferença faz, hein?

Se você é como eu, pensa que faz diferença pra quem fica, pelo menos. É o que me é garantido. Eu não sei o que me acontecerá quando eu morrer. Mas o efeito que eu posso ter na vida das pessoas que me cercam é a única coisa sobre a qual eu tenho algum controle.

E o efeito do Darwin, meu cachorro desimportante no grande plano geral das coisas? O efeito dele foi enorme na minha vida. Nas pequenas e nas grandes coisas. Por que ele estava aqui do meu lado, eu fiz amigos incríveis. Eu passei por lugares pelos quais eu nunca passaria, eu fiz coisas que nunca pensei em fazer. Eu senti novos sentimentos ou novas versões de velhos sentimentos. Até em sua ausência, no ano sabático na Inglaterra, ele fez uma enorme diferença. Eu pensando nele e aquele bocó seguindo sua vida por aqui. Eu imaginando os passeios que teria feito com ele, os fins-de-semana nos parques de Londres. Cada vez que via cachorros brincando com seus donos por lá, meu coração apertava de saudades. Enquanto isso, o Darwin era a sombrinha passando por trás da minha mulher nas conversas pela webcam.

Lembro do dia em que eu cheguei no Brasil depois de sete meses inteiros longe de casa (eu tinha voltado para o Natal). Entrei com aquele monte de malas e ele veio, parou por um segundo sentindo os cheiros e verificando se era eu mesmo. Aí, de repente, ele entendeu que a identificação era positiva. Correu na minha direção pulando que nem um louco. Ufa. Juro que achei que ele tinha se esquecido de mim. Como eu pude duvidar dele, caramba?

Por isso sempre vale a pena. Por isso eu tento mais uma vez ganhar o que quer que exista de tempo extra, desde que isso seja razoável pra ele. No momento, uma massa alienígena cresce no peito do cachorro que eu amo tanto. Ele vai morrer em algumas semanas se eu não fizer nada. Se a cirurgia der certo, pode durar seis meses. Quem sabe um ano? Se não funcionar, posso perdê-lo em alguns dias. Pode ser hoje mesmo.

Estou apavorado com o que tenho pela frente. Como enfrentar o pós-operatório? As dores? O rosto dele me pedindo ajuda? Como? E se ele morrer? E a cada etapa, a cada novo terror que ter um cachorro jovem e doente em casa nos proporciona, a gente vai mais fundo no amor irracional. É um caminho sem volta no reencontro com seu eu básico anestesiado pelo trabalho, pelos estresses do cotidiano. É meio que voltar a ter 15 anos e não estar desiludido com um monte de coisas. É voltar a acreditar em coisas que eu deixei de lado. E recobrar a inocência perdida. Juro que é. Chorar por um cachorro é uma lição de humildade e de humanidade. Só seres complexos como nós são capazes desse nível de empatia. Bom, eu aprendi que os cachorros são capazes disso também. Mas isso está aberto para discussão por aí.

Ontem, fiquei vendo as fotos da festinha que fiz pros quatro anos dele. Uma festinha pra nós, eu e minha mulher, claro. Era uma despedida também, porque a gente não sabe quanto tempo mais tem pela frente. Mas sabe que esse provavelmente foi o último aniversário do Darwin.

Mas acima de tudo, fazer a festa na praça em que ele aprendeu seus primeiros passos no mundo dos humanos foi incrível. Ver o carinho das pessoas ao redor. Gente que viu ele roubar bolsas e chapéus e correr com eles na lama. Que viu ele crescer e se tornar um labrador preto lindo, doce, equilibrado. Que sofreu com cada capítulo da história recente, mas que riu muito com as cachorradas dele. Foi emocionante ver essa turma ir dar força pra nós, a família que o Darwin fez feliz. Então, não sejamos inocentes, tentamos fechar um capítulo e fazer uma catarse coletiva. Foi uma forma de dizer “eu te amo, Darwin”, “obrigado, Darwin”, “me ensine a acreditar em milagres, Darwin”. Já que ele me ensinou tantas coisas, mesmo sem saber nem querer, eu queria aprender mais essa.

Conte para os amigos!