O atropelamento que revelou o strike moral

O caso do atropelamento do filho da atriz Cissa Guimarães é exemplar de tudo que está errado na nossa sociedade. É uma tentação explicar os fracassos do Rio por aqui, mas não é justo. O problema é geral. Esse caso poderia se repetir em qualquer canto do país. É um strike moral em todos os níveis. Um fracasso para todos nós.

Primeiro, jovens sem limites atropelam uma pessoa e, tendo a opção de socorrer, fogem. Um absurdo total.

Depois que fazem a besteira, pedem ajuda aos pais, claro. Esses, em vez de dar o exemplo e explicarem que eles precisam enfrentar as consequências de seus atos, acobertam o crime.

Entra a polícia carioca. Essa maravilha. Toda vez que damos de cara com um caso rumoroso descobrimos que, embora a corporação não esteja toda contaminada pela corrupção (como insiste em afirmar o Governador do Rio), ela está curiosamente bem distribuída, de modo a estar presente em várias situações de destaque. Basta puxar um fio e ela aparece. Muito hábeis os corruptos, impressionante.

Vai daí que, em vez de socorrer a vítima. Em vez de pegar culpados. Nossos agentes, que sempre são a exceção e não a regra, foram tentar arrancar R$ 10 mil para fazer a coisa toda desaparecer. E os pais iam pagar. Não vamos fingir que não entendemos. Eles estavam preparados para pagar para fazer o problema desaparecer.

Aí, quando descobrem que a vítima era filha de uma pessoa conhecida, entram em pânico e resolvem abrir o bico. Sim, porque, afinal, se ele não tivesse morrido, tudo bem. Podia ter ficado só paraplégico, só em coma eterno. Tudo bem.

Vinte e cinco anos atrás, meu irmão, pilotando uma motocicleta, foi abalroado por um carro na perimetral, na cidade do Rio de Janeiro. Ficou três dias em coma após uma cirurgia e, depois de ser declarado um vegetal, não resistiu e morreu. Nunca soubemos quem o atingiu. Nunca vamos saber. Mas já naquela época emergiu o óbvio: não há limites para a covardia humana. E num lugar com famílias de padrões éticos e morais degradados e polícia corrupta, a covardia tem terreno fértil para se proliferar.

E, por fim, quando falo de padrões éticos e morais, é uma boa oportunidade para colocar em perspectiva algo mais complexo. Porque enquanto as pessoas se preocupam em enquadrar orientação sexual em ética e moral, em justificar escolhas religiosas na sua lente, deixam de se preocupar com coisas mais básicas e universais. Coisas como ajudar o próximo, ser honestos, zelar pelo bem individual e pelo comum. Enquanto gasta-se uma energia desproporcional para bloquear direitos civis que nem deveriam estar estar em discussão pela obviedade (casamento CIVIL gay, alguém?), os jovens das famílias acima de qualquer suspeita vão cometendo atos imperdoáveis e insanos como esse do atropelamento no Rio.

Ah se eles resolvessem casar com alguém do mesmo sexo…

Conte para os amigos!