O cachorrinho perneta num mundo sem noção

Ter um cachorro de três pernas é uma atração à parte, ao que parece. Nos passeios de todas as noites, eu sou parado o tempo todo com pedidos de explicações sobre o motivo da falta da perna do meu cachorro.

Contexto, contexto. As semanas de recuperação foram legais. O Darwin foi ficando mais forte a cada dia, o paladar voltou. Eu comecei a ter esperanças de que o pior estava para trás e que tínhamos pela frente alguns meses de tranquilidade. Até que, na semana passada, numa das trocas de curativo, eu notei uma bolinha vermelha na cicatriz da cirurgia. Fiquei assustado, mas podia ser só uma bolhinha por conta do esparadrapo. Sabe-se lá.

Era o tumor de volta. Claro. O que mais? Até aqui, sempre que algo pode dar errado. Bem. Dá. Não foi diferente. Entrei em agonia. Fiquei desolado. Eu estava começando a ver a vida voltar ao normal.

Nessas semanas de recuperação, eu ia respondendo às perguntas com uma versão resumida da história do tumor, da amputação etc. E sempre terminava com uma nota de esperança. Mudei meu discurso. Agora eu não me permito mais viver em negação. Eu preciso aceitar que o tempo está contra nós.

Então, em vez de maquiar a situação eu simplesmente conto a história e termino com “É, mas o tumor voltou”. É isso. Aceite o destino estúpido. Tudo agora se resume a levar a briga para outro campo. Ganhar tempo, lutar por qualidade de vida e conforto pro meu pretinho. Então, meu discurso é pra mim também. Me ajuda a aceitar o que vem pela frente. Me ajuda a organizar minha cabeça, minhas expectativas e a colocar as coisas em perspectiva. Realidade.

Hoje, fui passear com o Darwin nos arredores e cruzei com várias pessoas que iam me perguntando, de novo e de novo, o que houve. Uma delas, um motorista de ônibus esperando começar sua próxima viagem, me parou e perguntou porque o Darwin “estava aleijado”.

Eu pacientemente contei o que tinha acontecido. As perguntas sem noção foram saindo naturalmente e culminaram com”: “você vai sofrer muito quando ele morrer, né?”

Por mais bem intencionadas que sejam, as pessoas em geral não me ajudam em nada com suas histórias, na maior parte das vezes, desastradas. Chego a pensar em passar a ignorá-las. É algo muito irritante. A quantidade de afirmações insensíveis vinda de estranhos é enorme. Pessoas que te param apenas para dizer que o cachorro tal -que elas conhecem do vizinho, primo, tio, amigo, o que for- MORREU. Sempre de uma forma horrível. É tudo que elas têm pra me dizer? Jura? Obrigado.

Outras pessoas olham pro Darwin e se referem a ele como, pronto, morto. Favas contadas. Mas ele está aqui ainda. Está ainda bem. Dormindo ao lado da minha cama. Ainda posso abraça-lo mais um pouquinho, mas estou me desapegando, me preparando para tomar qualquer decisão necessária por ele e não por mim.

Decidi que não vou permitir que ele sofra mais. Se a quimio não conseguir parar o tumor dessa vez, é hora de tomar uma decisão dura. Não sei se vou submetê-lo a mais uma cirurgia. Já foram quatro nos últimos seis meses. Anestesia, recuperação, antibióticos, mal estar, enjôo. Tudo de ruim seguidamente num ritmo sem fim. Não sei. A verdade é que muitos donos se apressam em sacrificar seus cachorros porque não aguentam mais o tormento. Repito: Tem que ser por ele, não por mim. Espero ter a clareza de tomar as decisões certas.

Conte para os amigos!