O atropelamento que revelou o strike moral

O caso do atropelamento do filho da atriz Cissa Guimarães é exemplar de tudo que está errado na nossa sociedade. É uma tentação explicar os fracassos do Rio por aqui, mas não é justo. O problema é geral. Esse caso poderia se repetir em qualquer canto do país. É um strike moral em todos os níveis. Um fracasso para todos nós.

Primeiro, jovens sem limites atropelam uma pessoa e, tendo a opção de socorrer, fogem. Um absurdo total.

Depois que fazem a besteira, pedem ajuda aos pais, claro. Esses, em vez de dar o exemplo e explicarem que eles precisam enfrentar as consequências de seus atos, acobertam o crime.

Entra a polícia carioca. Essa maravilha. Toda vez que damos de cara com um caso rumoroso descobrimos que, embora a corporação não esteja toda contaminada pela corrupção (como insiste em afirmar o Governador do Rio), ela está curiosamente bem distribuída, de modo a estar presente em várias situações de destaque. Basta puxar um fio e ela aparece. Muito hábeis os corruptos, impressionante.

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O cachorrinho perneta num mundo sem noção

Ter um cachorro de três pernas é uma atração à parte, ao que parece. Nos passeios de todas as noites, eu sou parado o tempo todo com pedidos de explicações sobre o motivo da falta da perna do meu cachorro.

Contexto, contexto. As semanas de recuperação foram legais. O Darwin foi ficando mais forte a cada dia, o paladar voltou. Eu comecei a ter esperanças de que o pior estava para trás e que tínhamos pela frente alguns meses de tranquilidade. Até que, na semana passada, numa das trocas de curativo, eu notei uma bolinha vermelha na cicatriz da cirurgia. Fiquei assustado, mas podia ser só uma bolhinha por conta do esparadrapo. Sabe-se lá.

Era o tumor de volta. Claro. O que mais? Até aqui, sempre que algo pode dar errado. Bem. Dá. Não foi diferente. Entrei em agonia. Fiquei desolado. Eu estava começando a ver a vida voltar ao normal.

Nessas semanas de recuperação, eu ia respondendo às perguntas com uma versão resumida da história do tumor, da amputação etc. E sempre terminava com uma nota de esperança. Mudei meu discurso. Agora eu não me permito mais viver em negação. Eu preciso aceitar que o tempo está contra nós.

Então, em vez de maquiar a situação eu simplesmente conto a história e termino com “É, mas o tumor voltou”. É isso. Aceite o destino estúpido. Tudo agora se resume a levar a briga para outro campo. Ganhar tempo, lutar por qualidade de vida e conforto pro meu pretinho. Então, meu discurso é pra mim também. Me ajuda a aceitar o que vem pela frente. Me ajuda a organizar minha cabeça, minhas expectativas e a colocar as coisas em perspectiva. Realidade.

Hoje, fui passear com o Darwin nos arredores e cruzei com várias pessoas que iam me perguntando, de novo e de novo, o que houve. Uma delas, um motorista de ônibus esperando começar sua próxima viagem, me parou e perguntou porque o Darwin “estava aleijado”.

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Maus, I Will Survive e a sorte dos sobreviventes do holocausto

Não achei engraçado nem desrespeitoso, como tenho certeza que muita gente vai dizer que é. Achei… Curioso.

De tudo que eu vi e li sobre o Holocausto acho que o que mais me tocou foi Maus, álbum do Art Spiegelman que me demoliu emocionalmente. O pai do protagonista conta toda sua saga de sobrevivência às atrocidades do regime nazista. No final, não lembro se é ele que fala sobre como as pessoas olham o valorizam como um lutador que sobreviveu por que se negou a morrer ou porque era especial.

Não. Diz o personagem. Sobreviveu porque teve sorte. Outras pessoas tiveram garra, tiveram fibra, foram inteligentes e simplesmente morreram ao acaso, ao bel prazer de algum louco homicida.

Querer muito viver não era o suficiente. Sobreviver ao terror nazista, à insanidade daquele regime era, na enorme maioria das vezes, obra do acaso. Esse bem-humorado “I Will Survive” no vídeo acima soa então como uma bobagem, mesmo que a gente tente achar alguma interpretação edificante na letra da música. O clipe é até bem intencionado, até quer ser engraçado, mas para mim erra o alvo.

Atualização: O Leandro avisa nos comentários que é justamente esse comentário que eu citei, da sorte pura, que surge num outro vídeo relacionado: http://www.youtube.com/watch?v=DpfID7pLe7M

Casillas, os heróis das Copas e o final feliz

O esporte volta e meia nos oferece histórias que, se contadas assim, fora de contexto, ninguém acreditaria. O último grande conto de superação que eu vi acontecer foi o de Ronaldo. Um jogador que foi dado como acabado e, em 2002, deu a volta por cima de forma inacreditável. Ganhou a Copa, depois de ter sido citado como o responsável pelo fracasso inexplicável de 1998. Naquela vitória incrível saiu como uma espécie de super-herói pra mim.

Nesta Copa, Casillas protagonizou seu conto mítico. Quando a Espanha perdeu para a Suíça no primeiro jogo, chegou a ser criticado pela imprensa esportiva de seu país porque sua namorada, a repórter de TV Sara Carbonero, o teria distraído. A bela Sara cobriu os jogos da Espanha de dentro do campo e estava atrás do gol de Casillas.

Pois ontem protagonizou momentos sensacionais. Primeiro em campo, fazendo defesas incríveis que salvaram seu time, tornando possível vencer a Copa com o magro 1 a 0. Depois, ao chorar emocionado quando Iniesta fez o gol da vitória do seu time. Por fim, ergueu a taça e deu a Volta Olímpica (ou tentou, já que houve uma invasão patética do campo). Diante das câmeras, foi entrevistado por Sara, com tinha acontecido em outros jogos.

Aconteceu uma daquelas situações que, se contadas por aí, você diria que é cascata. Ou, mesmo num filme, a gente diria, “po que finalzinho bobo de filme amerticano”.

Aconteceu isso aqui ó:

O que veio depois? Fade out. The End

Adeus, Dunguismo. Não vou sentir sua falta nem por um segundo.

Se foi mais uma Copa. Não vou dizer que não senti nada, porque seria mentira. Mas fiquei pouco frustrado em comparação com outras desclassificações. Eu nunca gostei do time do Dunga, como está claro em meus relatos no Twitter desde sempre. Sempre achei Dunga com uma empáfia desproporcional à suas qualidades práticas. Nunca me senti representado pelo time dele e por alguns dos jogadores em especial. Mas os caras colocavam aquela camisa amarela (ou a azul, como ontem) e eu simplesmente não conseguia não torcer.

Eu odeio jogo feio e odeio, também, quando meu lado joga, além de feio, com destempero. É uma característica minha. Sei que muita gente deve gostar do jeito daquele cabeça de bagre do Felipe Melo jogar. Mas eu não posso achar bonitinho um jogador da seleção mais vitoriosa, aquela que (supostamente) joga bonito e melhor naturalmente, baixando a porrada pra todos os lados e saindo com a cara lavada e dizendo que não foi nada. É me chamar de burro. Felipe Melo, principalmente, não me representa. Eu, aliás, achei a perfeita tradução do que ele é: o Forrest Gump Bizarro. O Mundo Bizarro é uma criação para os quadrinhos do Superman. É um mundo onde tudo é meio que reverso (mais sobre isso na Wikipedia). Então o Super, que é um herói inteligente e bacana, vira um idiota malzão. Se Forrest Gump tinha a sorte de estar sempre no lugar certo participando de alguma coisa posititva da história, Felipe Melo estava em todos os momentos ruins dessa seleção. É tudo culpa dele.

Sério. Meus amigos de vários cantos do mundo estão cansados de me gozar porque o time do Brasil é, para eles, uma droga. É ridículo um indonésio, um americano, um iraniano fazer piada com um brasileiro sobre futebol. Mas eles fizeram. Sabe por que? Porque eles perceberam o óbvio, Dunga é… Isso aí que a gente viu. Até quem tem muito menos tradição (ou nenhuma) percebeu. Mas a CBF deixou esse trem desgovernado seguir em frente.

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