Darwin: As pequenas vitórias diante das grandes derrotas

As últimas semanas têm sido de mais derrotas do que vitórias.

Duas sessões de quimioterapia enfraqueceram o Darwin e, embora tenham aparentemente evitado que aparecessem metástases, não funcionaram contra uma recidiva na pata direita, a mesma em que o dedo foi amputado.

Ele parou de comer, nos obrigando a ser criativos para mantê-lo nutrido: salsichas de frango, peru e o que fosse aparecendo, carne, frango, rações moles de vários sabores e papinha de neném forma algumas das estratégias.

Darwin foi ficando fraquinho e perdendo o interesse pelos passeios. Logo depois da segunda sessão de quimio, parou de usar a pata dianteira direita. A perna foi acometida de uma flebite e ficou ameaçada de amputação. Afinal tinha um novo tumor e um grave problema circulatório.

Na tentativa de salvar a perna, foi entupido de medicamentos e injeções, três sessões de compressas quentes e frias todos os dias. Nada parecia dar resultado. Ele foi perdendo as forças e começou a chorar de noite com dores. Tivemos que dopá-lo e começaram as crises de incontinência por causa das drogas. Ele começou a dormir com a gente na cama.

Na segunda-feira retrasada, depois de um exame, ficou claro que, para salvar nosso cachorro, teríamos que amputar sua pata. Os exames mostraram que não havia metástase e que a amputação era uma forma viável de evitar que a doença se espalhasse. Embora, claro, não exista nenhuma garantia disso. Mais do que tudo, meu cachorro estava morrendo. Era tirar a pata ou abrir mão dele.

A cirurgia foi marcada para a sexta-feira seguinte. Mas um exame na quarta-feira mostrou que o Darwin podia não aguentar nem mais um dia. Ele não comia, não queria andar, só ficava prostrado o dia inteiro e, para aguentar as dores, vivia dopado.

No dia seguinte, ele foi operado e tirou a perna. Voltou para casa no fim da tarde e ficou dopado até por volta de uma da manhã, quando acordou com dores e assustado. Os analgésicos não estavam dando conta do recado e levamos ele para um veterinário no meio da madrugada. Tivemos que carregá-lo no colo, porque ele estava molinho. O vet achou que ele estava com dor fantasma na perna amputada. Algo contra o qual os analgésicos não seria capazes de lutar.

Ele finalmente dormiu lá pelas quatro e o levamos bem cedo para a clínica. Ele tinha levantado, até. Mas não andou. Parecia não saber como fazer ainda.

Na clínica, com soro, voltou a se animar. No meio da tarde, levantou e andou. Comeu, fez xixi. De noite, quando eu cheguei do trabalho, estava animado, abanando o rabo. No sábado, levei ele até a praça e a recuperação pareceu começar mesmo a avançar. No domingo, já arriscou um passeio mais longo, cheio de paradinhas para descansar.

Na segunda, trocou o curativo e fez a drenagem dos líquidos acumulados no local. Ele vem ficando mais forte a cada dia. Mas na terça, quando o levamos na casa de uma amiga, ele se excedeu andando o tempo todo. No dia seguinte, estava com dores na perna.

Agora, ele está dormindo no meu quarto, em uma almofada bem fofa que a gente colocou ao lado da cama. Ele sempre acordou cedo, mas a almofada quentinha e macia está fazendo ele dormir até mais tarde.

Dói o coração vê-lo sem a perna. Mas o fato é que era isso ou nada. A recuperação dele é incrível. Darwin já sobe e desce escadas, por exemplo. Nos primeiros dois dias, se enrolou com coisas simples. Tomou uns tombos e machucou o queixo. Se confundia para subir e descer no sofá (sim, ele ganhou acesso ao sofá). Mas logo deu um jeito e passou a fazer tudo com tranquilidade. Cachorros são práticos. Se um obstáculo aparece diante de algo que eles querem muito, dão um jeito de seguir em frente. Simples assim.

A vida segue. Não sei o que vem a seguir. Não tenho garantias de que nada vá dar certo, mas também não está escrito que tudo vai dar errado. Há que se ter calma e viver um dia depois do outro, apreciar as pequenas vitórias. Não tivemos a menor chance de salvar o Sagan. Com Darwin, estamos tentando fazer o melhor possível. Talvez não seja o suficiente. Talvez seja tudo que ele precisa. A gente só não vai aceitar as coisas passivamente. ELe merece o nosso melhor.

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