Hype. Hoje e sempre. Mas vamos olhar por cima disso e tentar colocar as coisas em perspectiva sobre o mundo dos tablets e ipads da vida.
As pessoas estão repetindo que os tablets lembram CD-Roms. Nossa, eu não poderia discordar mais. Estão comparando um meio de armazenagem com um ambiente inteiro? CD-Roms estavam fadados a desaparecer porque eram apenas meios de armazenagem. Tudo o que eles tornaram possível numa era em que não havia internet foi absorvido e transformado em padrão sem que eles fossem necessários. Só isso. Qualquer website profissional mediano de hoje é mais interativo e multimídia do que um CD Rom de dez anos atrás.
O que CD-ROMs ofereciam era uma forma de envelopar produtos de mídia. E a entrega desses produtos aconteceria em computadores lentos, ineficientes e com teclados e mouses no caminho. Os tablets (e não só o ipad) querem oferecer uma forma diferente de usar isso tudo. Qual desses envelopamentos vai vencer é outra história. Mas temos, pela primeira vez (sem hype) um produto capaz de realmente substituir diversas outras formas de consumo de mídia. E esse produto apenas foi lançado, vai receber enormes incrementos e calibragens nos próximos anos.
No iPad, da Apple, a promessa é de um ambiente limpo, organizado em que tudo que está ali provou rodar direito na máquina. Em seguida, há o espaço simplificado para a venda de produtos de mídia. Começa aqui uma corrida para ver quem vai achar o jeito certo e lucrativo de vender e distribuir seus produtos. Várias empresas vão limitar enormemente o uso de seus conteúdos, com medo de como as pessoas vão usá-los. O tempo, e o mercado, vão dizer quem está acertando e quem erra. Tomar todo o mercado pelo que ele está apresentando em seus primeiros dias é só hype. Há que se esperar.
No final deste ano, teremos o primeiro round terminado. Vamos descobrir qual será o contra-ataque de Amazon e de diversas empresas de software e hardware. Teremos opções de leitores em preto e branco, cores, wi-fi, 3G. E as pessoas vão se organizar ao redor deles, formando grupos apaixonados de consumidores.
Vamos ver como se comportam os produtos prometidos pela HP, Microsoft e Google. Como seria um tablet poderoso, de plataforma completamente aberta e rodando Flash? Estou muito curioso para saber. Um mundo centrado no navegador, com enroeme simplicidade para entrar e desenvolver seus produtos. Estou esperando pela explosão criativa no desenvolvimento de fanzines multimídia, de HQs incríveis e animações feitas por amadores apaixonados e talentosos. Tudo isso com um aparelho ideal para o consumo simplificado e prazeroso disso tudo.
Sem hype. Vamos usar e tirar nossas conclusões.

A grande nóia é que o iPad é um dispositivo apenas de consumo de mídia. A criação se limita só a twittadas e um ou outro comentário em blog. A comparação com o CD-ROM é essa, de que é um meio que tenta voltar a um modo mão-única, read-only. Das empresas de mídia dizendo “nós sabemos o que é bom para você, baixe nosso app, sit back and relax”.
Mas como o iPad tem browser acho que não é tão simples assim. E esse raciocínio “é igual CD-ROM” vem da idéia de que um dia teríamos um aparelho que faria tudo. O Computador. E o que temos hoje são vários aparelhos fazendo várias coisas. Ninguém vai deixar de ter um computador em casa, mas vai ser bem mais legal acompanhar a corrida de F1 ao vivo (ou a final do BBB) com um iPad no colo do que com um notebook, mesmo um netbook.
Bom… o iPad _não_é_mesmo_ um device “read only”, de consumo de mídia ou mesmo de mão única. É “só” uma plataforma onde rodarão as apps que ousarem inventar por ai.
anyway:
http://www.apple.com/ipad/guided-tours/
Dá pra produzir – ok… de forma limitada pra quem já está acostumado a ter um desktop ou um laptop na mão – conteúdo no iPad. Pages, Numbers, Keynote já saem direto da Apple. E ainda há um universo de possibilidades que as novas apps que andam desenvolvendo por ai.
Sou o primeiro a defender conteúdo e plataformas abertas, e passo minha jornada de trabalho inteira na frente de um laptop.
Mas uma forma de leitura confortável da biblioteca digital não pode ser desprezada. E eu leria muito mais blogs, e veria muito mais o Youtube se pudesse fazê-lo no banheiro, ou deitado no sofá.
Se o iPad representar um centímetro sequer de avanço no sentido de tornar o meu consumo de conteúdo uma experiência melhor, já tá valendo. Só a resolução mais alta e a possibilidade de trazer a tela mais próxima do rosto já devem garantir isso.
Felipe, pela experiência direta, posso confirmar que o iPad é o que você está pensando: um aparelho formidável para consumir vídeo, imagens e textos. Ele tem a melhor tela que já vi em qualidade de imagem nessa dimensão, e até o áudio embutido é razoável.
Além de tudo, ele é uma plataforma de games – aspecto muito importante que aqui foi esquecido. Um cara que viu o iPad rodando um game comentou que ele também tem “joguinhos”. Quem fala a palavra “joguinhos” não compreende o atual mercado de software. Games são uma fatia enorme desse mercado, com produtos de grande complexidade e sofisticação, e frequentemente são o que incentiva a inovação técnica.
Quanto à noia em torno do modelo de distribuição vertical de mídia, como vocês aqui fazem parte do público que cria conteúdo, projetam seu estilo de vida na população, porque é o seu modo de pensar particular, presumindo que todo mundo que acessa a rede tem vontades e necessidades iguais. Errado. A grande maioria da população usa a Internet quase da mesma forma como usa a televisão: consumindo informação passivamente, e majoritariamente para puro entretenimento. É para se condenar o hábito de consumo de mídia dos outros? Não.
Como a possibilidade de uso criativo permanece preservada nesses novos aparelhos móveis, não há risco à civilização. Tenho minhas críticas ao modelo da Apple, mas essa noia não envolve nenhuma delas. A coisa toda para mim soa como mais uma tentativa de ser “do contra” porque é moda ser do contra.