Avatar revisita Aliens, evolui suas idéias e triunfa

Em 1986, James Cameron dirigiu um outro épico futurista sobre o que acontece quando uma empresa privada com ajuda de militares invade um planeta hostil. O nome do filme era Aliens, o Resgate, lembra? Naquele filme, Sigourney Weaver veste um exoesqueleto e enfrenta a rainha-mãe Alien, num duelo épico. Achei curioso que esse seja só mais um dos vários deja vus que tive ao ver Avatar.

Vinte e três anos depois, mudaram James Cameron, o mundo e o cinema. Quando eu vi Avatar ontem, naquilo que batizaram de Imax do Bourbon e que deve ser o pior Imax do mundo, fiquei pensando em como encaixar esse filme na obra de Cameron.

Sim, porque o que eu tenho lido em todos os lugares parece ignorar as referências. Parece às vezes que Cameron só fez Titanic, que só gosta de efeitos especiais, sei lá. Ele é um diretor de filmes de ação incomparável e. embora use personagens rasos e arquetípicos até, traça suas jornadas de forma que conversa com o popular, mas cheia de coração e personalidade. Sua ausência deu espaço a empulhações irritantes como Michael Bay. Que é o James Cameron Bizarro.

Ok, digressão. Voltemos ao que interessa, a comparação de Aliens e Avatar. Os temas estão lá, mas claramente Cameron mudou de opinião ou resolveu explorar novos ângulos. A julgar por todos os componentes repetidos, me parece claro que Cameron estava se auto-referenciando numa forma de redefinição de suas opiniões.

Afinal, se em 1986, os humanos são vítimas de alienígenas assassinos que habitavam o planeta e os militares são canalhas porque quiseram usar os aliens como armas, o ângulo indigenista nunca passou perto da concepção do roteiro.

Mas não vamos ser inocentes. Os alienígenas de Avatar não são os da série Alien. E não haveria como transformar aquelas máquinas de matar loucas em personagens palatáveis sem fazer uma ewokização. A analogia é com os brancos versus os índios. Ganância, desprezo pelo que não é (parece) humano, assumindo o princípio de que o universo está aí para ser conquistado por quem é mais forte.

Em Avatar, parece que Cameron passou a entender a complexidade de invadir o terreno do outro e colocou isso em contexto. O que parece uma máquina selvagem e hostil pode ser um animal defendendo seu território. Agora, ao habitar os corpos de nossos conquistados, nossa perspectiva muda radicalmente ao ponto de sermos capazes de ir além do “corporativismo” racial. Importa mais fazer o que é certo, justo, ético do que simplesmente seguir cegamente sua patria, sua raça. Nada podia ser mais anti-bushista, anti-patriotismo cego do que isso. Pensar sozinho, mudar de idéia, traçar seu caminho. Adorei.

Ainda há a constante premissa humana de valorizar a inteligência. Nossos heróis não se importam com a fauna da Pandora, mas com os seres inteligentes de lá. De certa forma, poderíamos imaginar que os Aliens da série original estavam mais para animais selvagens e, por conta disso, não merecem muita consideração. Para serem valorizados os nativos precisaram ganhar inteligência. Os seres irracionais ganham importância quando são “controlados” pela internet da mãe natureza. Tudo bem, é natural que sejamos assim. Ou, pelo menos, consigamos fazer esse salto de respeitar seres inteligentes. Melhor que nada.

Nessas duas décadas que separam Aliens e Avatar, Cameron virou o diretor mais poderoso do mundo, gastou meio bilhão de dólares numa aposta arriscada e gerou um filme-evento que combina muito bem diversão escapista, espetáculo inovador e um passo à frente em sua obra pessoal. Apesar do constante desprezo da crítica, filmes de ação podem significar mais, porque ficção popular também busca uma conexão com o seu tempo. Basta olhá-los com interesse, em contexto, e os pontos de vista bons ou ruins de seus autors transparecem.

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