Londres-SP: De Volta para Casa

Silêncio no rádio por dias. O motivo: Eu queria fazer uma surpresa para minha família e disse que chegaria no fim de semana. Desci em São Paulo ontem pela manhã cansado, com dor nas costas, sono, fome e sede. Aí, veio a alfândega. Mas estou andando rápido demais. Como esse foi o fim de mais uma temporada, vamos colocar as coisas no seu devido lugar…

Eu passei a semana anterior atolado tentando vender alguns itens, doar outros e arrumar as malas. Pensei que tudo pudesse caber em quatro bolsas. Depois cinco. Duas mochilas lotadas e ainda uma bolsa de compras pra enrolar o pessoal da British e me conseguir alguns quilinhos e um volume a mais de bagagem de mão.

Quando eu acabei o doloroso processo de arrumação, na noite de domingo, ficou claro que era humanamente impossível eu tirar aquelas bolsas dali sozinho. Meus amigos vieram em meu socorro. A confederação das índias (Sneha, Akshay e Zaki) unida à representante da bondade colombiana (Carolina Miranda) me ajudou a colocar todas aquelas malas no carro que me levou a Heathrow. E, acredite, foi trabalhoso mesmo assim.

No aeroporto, tudo coube (mal) em dois trollers. E la fui eu com a mega-mochila e toda aquela parafernália. Primeiro percalço: notei que uma das bolsas tinha arrebentado. Passo na balança para checar se minhas bolsas estavam ok. Por “oquei” defino bolsas com menos de 32 quilos, o que me permitiria pagar somente 25 libras por excesso de bagagem em cada uma. Seria relativamente simples se os japoneses não resolvessem brincar com as balanças e pesar tudo que viam pela frente. Enquanto passageiros apressados tentavam pesar suas bolsas, eles entravam e saíam com todo tipo de pequeno volume e rindo ao dizer “um quilo!!”. Como eu não estava exatamente de bom humor, dei um mega esporro num grupo falando para eles pararem de brincar na balança. Uma senhora me agradeceu a explosão. Eles estavam mesmo passando dos limites.

Tive que redistribuir algumas coisas, plastificar uma das bolsas e lá fui para a fila do check-in. Foi dramático ver a cara da atendente quando olhou para a minha bagagem. Era uma mistura de pena do que eu ia pagar com irritação por quer que calcular tudo. Foi um processo lento de pesar tudo, despachar o que foi possível e chorar no excesso de peso.

Nesse processo, deixei para trás meu travesseiro da sorte, roupas de cama, toalhas algumas revistas e um poster lenticular do Homem-Aranha (minha perda mais sentida, sniff!!). Estou imaginando o alerta do aeroporto quando acharam aquele travesseiro em uma lixeira…

Vai daí que o vôo atrasou duas horas e senta ao meu lado um cara estranhíssimo que fazia perguntas bizarras e queria ter tudo que ele via que as pessoas ao redor tinham recebido. Eu tive problemas para explicar para ele que aquela revistinha e aqueles brinquedinhos que as crianças da fila ao lado tinham recebido eram parte do pacote kids da British Airways. Meu vizinho estava, digamos, um pouco velhinho pra exigir o pacote kids.

Aí, o cara pega meu paperback do Wolverine no bolso em frente da cadeira e diz: “Puxa, que revista legal que eles colocaram aqui pra gente”. Eu explico que a revista é minha. “Ah, puxa”, responde ele, “Eu adoro o Wolverine, curto muito animação 3D”. Não entendi nada. E ainda tinha 10 horas pela frente com ele ao meu lado. Foi lindo. Eu tive que abrir a mesinha para a figura, puxar o monitor pra ele ver filminho, dar o meu headphone porque o dele não funcionava direito e ajudá-lo a escolher entre beef ou chicken. Depois, tive que explicar o que era o meu aparelhinho em que eu estava vendo filmes (um Archos, o último que eu vou ter na vida). Se desse, eu tinha jogado a mala pela janela. Mas minha paciência foi mágica.

E cheguei. Pego tudo e descubro que os trollers ingleses sao mais fortes que os nossos. Meus carrinhos nem saíam do lugar direito com toda aquela bagagem. Na alfândega, eles abrem tudo que eu tenho e taxam o meu Macbook novo. Pior. Eu tinha que pagar a conta ali mesmo, certo? E cadê que eu lembrava as minhas senhas dos cartões brasileiros? Me enrolei todo e só conseguir tirar dinheiro depois que minha gerente reiniciou a minha senha e eu pude fazer o saque do dinheiro necessário. Isso tudo acabou sendo um processo de duas horas porque eu cheguei cedo e o banco ainda nao estava aberto!

Para levar tudo embora, contei coma ajuda inestimável do meu querido cunhado, o Cris (que não é o Dias. Meus dois cunhados se chamam Cristiano) com a santa namorada,. Em casa, depois de uma hora de viagem de Guarulhos para São Paulo, meu labrador fez uma daquelas festas deliciosas. Pulou, girou, rolou, suspirou, espirrou, me lambeu. O maltês ficou latindo e exigindo atenção. E fez pose de fofolino, sua especialidade.

Almocei feijão com arroz, claro. E fui, ao longo do dia, reencontrando minha família: CrisDias, mamãe, Anna, Clara e Mônica. Foi como ir religando os sistemas voltar aos poucos à vida que eu deixei em suspenso por aqui. Agora vem o retorno ao trabalho em algumas semanas e a volta ao contato com as coisas que eu curto aqui em São Paulo.

De noite cortamos um bolinho com vela do Sítio do Pica-Pau Amarelo para comemorar os três aninhos da minha sobrinha lindona. Um prelúdio para a festinha que vai rolar no sábado.

É isso. Todas as dores de cabeça, todo o cansaço e a falta de sono. Os chatos e os impostos. Os meses enfurnado sozinho em Londres no frio. Livros, noites maldormidas e café. Tudo tudo isso é só obstáculo passageiro, e só “plot point” quando você está finalmente voltando pra casa.

Conte para os amigos!