Londres: Seis meses

Engraçado pensar que eu cheguei aqui, seis meses atrás. Cheguei exatamente no momento em que a crise econômica explodiu. Nesta semana, o clima estava tenso. Como vai acontecer o maior encontro de líderes mundiais desde 1946 na semana que vem justamente aqui, a polícia, o MI6 e todo e qualquer órgão de segurança do governo inglês estão em alerta extra-vermelho. Toda hora fecha linha do metrô por causa de algum alerta de “segurança”. Os britânicos, que já são intensamente repressivos, ficaram mais paranóicos ainda. Seis meses.

Acho que engordei um pouco, depois emagreci. Foi de acordo com meu humor. No inverno, eu tive indícios fortes de SAD (Seasonal Affective Disorder) ou winter blues. Não cheguei a ficar derrubado, mas fui atacado por um desânimo forte. Algo que é bem incomum pra mim. Veja você que eu costumo acordar assoviando e faço café da manhã no maior bom humor. Levo café na cama e tudo. Sempre fui assim. Bom, digamos que apesar da cozinha do meu flat ser a dois passos de distância, eu simplesmente tive dias em que não queria nem chegar perto.

Eu como besteira, mas também levo muito a sério comer salada e frutas todos os dias. TODOS os dias. Juro. Compro uvas e bananas, folhas variadas, tomate, pepino, brócolis e couve-flor, cenoura e beterraba. Junto tudo numa saladinha com azeite, vinagre e sal. Compro frango e tempero com vinho branco barato, alho, cebola, pimenta e tomilho. Asso por uma hora e meia no forno, sem manteiga nem óleo e fica fantástico. Compro camarões e tempero com limão, coentro, pimenta, sal e cebola. Cozinho tudo numa panela com azeite, cebola e alho. Depois junto com alguma coisa que pode ser arroz, cuz-cuz ou mesmo massa de macarrão.

Mas como pipoca feita com manteiga. Um dos meus pontos fracos. E a cada par de semanas, rola uma obsessão. Já foram os cookies, depois o arroz doce, aí veio o pudim de chocolate. Nos momentos mais negros eu dou uma exagerada. Mas essa semana, por exemplo. Mal cheguei perto de doce. As frutas resolveram bem. Mentira, comi um waffle com chocolate belga meio-amargo ontem.

Se eu já era um maníaco por café, a coisa aqui virou uma loucura total. Eu faço café todos os dias e muito mais forte do que as pessoas por aqui estão acostumadas. Mas um dos meus grupos veio fazer trabalho aqui comigo e elogiou muito meu café. Virou meio que uma curiosidade para eles essa tinta preta que eu adoro.

E os amigos? Essa loucura aqui de ter amigos de todos os cantos. É meio fascinante sair com iranianos, indianos, sérvios, alemães, libaneses, chineses, russos, malásios, gregos, egípcios, americanos… e britânicos. Todo mundo junto falando besteira, brincando com os estereótipos alheios: todo grego é gay (ou lésbica), russos comem criancinhas, indianos transformam tudo em musical colorido e brega, brasileiros rebolam e só falam em futebol (bom, eu não pude ser de muita ajuda na parte do rebolado). No fim, acho que o que não deu muito certo foi mesmo a integração com os chineses. A língua os afastou do resto das pessoas. Eles aqui na minha turma, com algumas honrosas exceções, falam o inglês muito mal e acabam se isolando por não conseguir manter uma conversa natural. Os poucos com quem eu tive mais contato foram extremamente simpáticos e atenciosos. Tudo bem que um deles nunca tinha ouvido falar no Brasil… Ah, e eu quase cortei relações com meu amigo iraniano, o Nima, porque ele ousou dizer que Maradona foi melhor do que Pelé. Fala sério.

Seis meses. Uma saudade enorme. Da minha casa, da minha família querida. Da minha sobrinha gostosa e dos meus cachorrinhos. Dos meus amigos do Rio e de São Paulo. Caramba, não conheci os filhos dos Brunos nem do Antônio. Vou confessar que já sonhei várias vezes que estava passeando com o Darwin. E, da mesma forma, sonhei que não encontrava ele de jeito nenhum. O impacto que um cachorro pode ter na sua vida…

Uma das poucas coisas que eu fiz aqui foi uns videozinhos para a minha sobrinha. Clarinha, a neném mais famosa da internerd brasileira. Afinal, é a filha do Cris e da Anna. E é minha sobrinha pequenininha. Comprei dois fantoches e fiz alguns vídeos em que me comunicava com ela com a ajuda dos bonecos. Depois, passei a fazer mágicas (e a Clara adora). Um dos bonecos é um macaco. Clara não curtiu muito. Coloquei um pástico vermelho na boca do bicho, um laço vermelho no orelha e pronto: meu macaco fantoche virou um traveco fantoche. Clarinha passou a adorar a, hum, boneca, rebatizada de Ritinha. Seis. Meses.

Faltam cinco meses agora. Eu volto no dia 19 de setembro ao Brasil. Uns dias antes ou depois. Falta menos do que já foi. Então, hoje é um marco importante. Passei da metade. Acredite, não está sendo fácil. Não está sendo ruim. Ao contrário. É uma experiência sensacional parar tudo pra pensar sua profissão, seu meio, sua empresa, seu futuro. Os últimos anos me deram uma autoconfiança importantíssima para a próxima fase da minha vida profissional. Eu criei revistas e enfrentei crises de vários tipos. Aprendi a gerenciar grupos na marra. Errando e acertando, mas sendo sempre direto e honesto com quem trabalhou comigo. E parar por esse tempo me ajudou a olhar para trás e ser crítico comigo mesmo. Ver vários dos meus erros de gestão, de planejamento. Ao mesmo tempo, fiquei orgulhoso dos meus acertos, claro. Felizmente foram muitos. Acho que tive um saldo positivo.

E me surgiram muitas idéias. Um monte de coisas legais que vão marcar os próximos anos da minha vida. E conheci algumas pessoas interessantes e muito criativas com quem quero trabalhar no futuro próximos. Vamos ver que projetos eu vou colocar em movimento.

BSG S04E20: Fim decepcionante

It all happened before. And it will all happen again.

É verdade. Aconteceu antes. Aconteceu de novo: capítulo final ruim, apressado, simplista, renegando o que fez a série ser tão boa. Decepção total pra mim.

O erro foi anunciado a cada episódio em que, em vez de avançar, a história andava em círculos. Por terem enrolado antes, correram como loucos no final.

Flopou. Fiquei muito decepcionado com a correria, com as pontas mal amarradas, com os efeitos digitais ruins, as soluções arrumadas de acordo com a conveniência dos escritores (ou preguiça deles de pensar em algo melhor).

Houve momentos em que você dava uma risada involuntária e outros em que você simplesmente ficava se perguntando por que aquele personagem fez isso ou aquilo?

Alguns exemplos (com spoilers…) depois da quebra…

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Estou rico

Chegou na minha caixa postal hoje:

Hello,

Let me introduce myself,my name is Mou Xinsheng Minister of General Administration of Customs of (The Peoples Republic of China).I have a secured business proposal for you,which i believe will be beneficial to both of us i want to solicit your attention.The purpose of my contacting you is because you live outside China.

Actually i got your contact during my discreet search for a reliable,successfull,business oriented partner.I feel it would be huge surprise for you to receive such email from a serving minister of the People’s Republic of China.I will give you more information about myself and the business.My name is Mou Xinsheng (Minister of General Administration of Customs of the Peoples Republic of China). Forgive me if you see my business proposal as shameful and not honorable because of my governmental status. But please excuse me and understand that this is the situation I am and must find a credible partner outside China.In my years of government service as Narcotics Control Commission and General Administration of Customs, I have received kick backs from smugglers and business people seeking favors from me and as a public officer my bank accounts are monitored hence I diverted the funds Thirty million United States dollars for safe keeping abroad.I want you to receive the money which has been in deposit since the last Two years. When the money is in your bank account, I want to use Sixty Percent of the money for charity to help orphanage Children suffering (You will spare head this project and my name will not be mentioned).You will receive Twenty Percent as your commission and I will take the remaining Twenty Percent as my share which I intend to settle with outside China.Please consider this proposal and reply to me soon. It will certainly do you no good to report me to my government authorities or divulge this information to anybody because doing so will only destroy my person and my career.

If you are interested in my proposal,please contact me on this email address: XXXXXXXXXXXX

I will send you more information about myself and this proposal.

Thank you.
Mou Xinsheng.

Ainda nem recebi a minha grana vinda da Nigéria e agora me aparece essa proposta da China! Sou mesmo um homem de muita sorte.

O aceno de Obama

Hoje, o presidente americano, Barack Obama, enviou uma mensagem ao povo e aos líderes iranianos (no G1 e no Guardian). Digo ao povo e aos líderes porque você só lança um vídeo que o mundo todo pode ver quando está interessado em mandar uma mensagem mais ampla.

Funciona assim: eu estou falando com os líderes, mas ao falar para eles publicamente estou falando para todo mundo que estou aberto a uma nova fase. A mensagem ganha novo significado. Ao mesmo tempo, como muitos iranianos podem ver a mesma mensagem que os líderes (eu não sei quantos, vou perguntar pros meus dois amigos iranianos aqui no curso), cria-se um clima de pressão pública natural. Em alguns casos, positiva. Noutros, negativa. Da mesma forma que o povo iraniano pode gostar e pressionar seu governo na direção de um diálogo, é possível que eles achem que tudo não passa de um golpe e simplesmente queiram que o governo endureça ainda mais com os americanos.

Assim, é claro que não existe movimento isolado, inocente. Os americanos, como ninguém, entendem o significado e o peso de mensagens. Mas eu estou interessado em saber as opiniões dentro do país. Afinal, a última vez que um democrata demonstrou algum tipo de “elasticidade” diante dos iranianos, perdeu a reeleição e foi visto como fraco. Foi Jimmy Carter, que entregou o governo a Ronald Reagan em 1982.

A prece sua de cada dia

Eu ia escrever um texto longo sobre isso. Mas quem já me conhece sabe automaticamente o que eu penso quando vejo um negócio como Information Age Prayer, que eu vi no TechCrunch.

Você supostamente paga US$ 3.95 para que seu computador reze para você (!).

Veja só que lindo:

Catholic Morning Prayer
The morning prayer is meant to be said each morning. A relatively long prayer, it has many essentials important for Catholics to say each day. Subscribe to tell God that you think of him each morning! For a cheaper alternative, you may be interested in the shorter Protestant Morning Prayer.
(Tradução: A oração da manhã é para ser feita todas as manhãs. Uma oração relativamente longa, traz vários itens esseciais que católicos devem dizer todos os dias. Assine para dizer a deus o que você pensa dele todoas as manhãs! Para uma alternativa mais barata, você pode estar interessado na oração protestante da manhã.)

Eles estão atacando em todas as frentes. Escolhi uma oração católica só para pirraçar meus amigos que dizem que eu não sou ateu, sou anti-católico. Eu amo as categorias: Protestante, Católico, Judeu, Muçulmano, Não Afiliado, Outras Religiões.

Eu olhei esse site de cima abaixo procurando por alguma coisa que confirmasse que era uma piada. Juro. Achei a coisa toda tão ridícula que fiquei pensando: deve ser o pessoal do Onion tirando um sarro de mim. Mas não consegui confirmar. É quase que humor involuntário. Se tem um negócio que me impressina, e que me deixou com mais suspeitas de um hoax, foi a oferta a um católico de usar uma oração protestante. Isso acendeu uma luzinha no meu cérebro. Mas o que eu sei da vida?

Update: Please. Alguém confirme que o site é falso, vai. Tô com preguiça de fazer isso.

Pessoas preferem ajudar cachorros em vez de gente

O artigo da Intelligent Life (revista do pessoal da Economist) não é novo, mas esbarrei nele por acidente hoje numa dessas buscas malucas no google: DOES ONE ABUSED WOMAN = 100 ABUSED PUPPIES?. Ajudar o próximo virou sinônimo de cuidar de cachorrinhos em vez de ajudar seres humanos.

Nos EUA, existem 3800 abrigos para animais maltratados e 1500 para mulheres que sofreram abuso. Gente é mais complicada do que animal… Allison Schrager, economista, fala da forma como as pessoas ajudam animais e não se preocupam com outros humanos. Cita o utilitarista Peter Singer e discute nossas, digamos, prioridades. Muito interessante.

Tem alguma coisa errada comigo (sim, estou falando por mim, claro. Não sei o que VOCÊ sente). Eu ando na rua, vejo um mendigo com um cachorro e fico fascinado pelo cão. Não sinto pena do cão. Sinto pena do homem. Mas é o cão que me fascina. Dói um pouco se olhar no espelho.

Novas formas de jogar

bok_wood_blocks

Estamos ficando mais sofisticados a cada minuto. Você não esperava que, com toda a tecnologia, as interfaces e estímulos a gente continuaria fazendo as coisas do mesmo jeito para sempre, né?

Nós mudamos e evoluímos. Nos olhamos para coisas antigas e as fazemos novas e diferentes. Vou te dar um exemplo. Os bons e velhos blocos de construção ou blocos de madeira. Todo mundo que tem um coração gostava deles quando era criança. Eles são coloridos, têm formas, texturas e a gente pode movêlos para todo lado e construir coisas. Podemos brincar com eles e jogar com eles, se inventarmos algumas regras.

Blocos de madeira. Lindos e simples.

Alguns anos atrás, numa loja de brinquedos em Nova York, eu vi esses blocos aqui. Mesmo sendo bem simples, quase fizeram minha cabeça explodir.

Achei a idéia genial. Viu? Tem um componente de jogo, algumas regras para você montar os blocos e a lógica de caçar novos modelos. Mas a coisa toda funciona como a caixa de areia, uma metáfora da brincadeira live e descompromissada.

Muito, muito interessante. Mas, como eu disse. Eu vi isso anos atrás. Você não achou que as coisas iam parar aí, né? Bom, os caras do MIT também não.

Agora… Pense nas possibilidades. Pense que brincar é mais do que jogos, quebra-cabeças, sudoku e palavras cruzadas. Brincar pode ser algo mais sutil, um pequeno desafio que as pessoas nem se tocam que está ali, mas que as faz se moverem.

Olhe para os blocos e abra sua mente para idéias novas. Embaralhe eles e pense novamente.

História Oral

A Entertainment Weekly (sempre ela) faz um registro das histórias por trás de dois clássicos da TV que estão perto do fim: ER e Battlestar Galactica. Você sabe, né? É história apenas contada pelas pessoas que viveram os acontecimentos. Vale cada caractere.

Muita gente acha que ER é só uma série que mostra o dia a dia de médicos. É compreensível que as pessoas pensem assim quando o programa entra na maturidade e não traz mais nenhuma novidade. Mas a estrutura, o elenco enorme, a câmera na mão, o ritmo foram absolutamente inovadores na época.

Battlestar Galactica… Nossa, eu já falei tanto dessa série aqui. É crítica política e social. Uma metáfora (bem literal, vamos admitir) de nossos tempos, uma série de aventura com grandes momentos marcados por intriga política e muita tensão. É a série de sci-fi da minha geração pelos melhores motivos possíveis. Ninguém vai lembrar de nenhuma discussão sobre máquinas, teleportes ou saltos no hiperespaço. Ninguém quer saber de um manual com o motor da espaçonave de combate. O que importa aqui é como as pessoas vivem, pelo que elas morrem e o que influencia o futuro da humanidade.