Ilusionismo iluminista

Mágica pode aparecer de várias formas. Existem as ilusões feitas de pertinho, aquelas que parecem improviso total (e nunca são), as grandes ilusões, a matemágica e, no meio disso tudo, o mentalismo. É a capacidade de um performer de simular, por meio de truques e artimanhas, adivinhações diversas e poderes como telepatia ou telecinese.

Vejamos. David Copperfield é um ilusionista. David Blaine é um… Um… Bom, era pra ser um perito em sleight of hand (movimentos rápidos com as mãos) perfeitos pra mágica de rua. Mas resolveu virar batedor de recordes e perdeu o rumo. A lista poderia se estender aqui, mas vou ficar nos mais conhecidos. E aqui na Inglaterra o cara que está comandando o batatal é o interessante Derren Brown, que faz uma espécie de mentalismo moderno.

É preciso entender, antes de tudo, que mágicos são showmen. Eles inventam não só truques, mas atos, espetáculos inteiros. Truques, ilusões, são parte da equação. Embora sejam a parte mais popular.

Bom, eu tinha visto algumas coisa do Brown. A série Mind Control, episódios de Trick of Mind. Tinha ouvido falar de Roleta Russa, que causou controvérsia na Inglaterra. E ontem consegui ver The System.

O especial passou na TV britânica no dia 18 de fevereiro de 2008 e mostra um suposto sistema criado por Brown capaz de fazer uma pessoa ganhar seis vezes consecutivas apostas em corridas de cavalos. O espectador conhece Khadisha. Ela é uma mulher pobre que recebe dicas de Brown e começa a multiplicar seu dinheiro a cada vitória. Para provar que o improvável não é impossível, Darren Brown chega a mostrar que é possível jogar uma moeda dez vezes e cravar sempre cara. E não é que ele consegue? Sem cortes.

Na reta final, Khadisha pega dinheiro emprestado com familiares e aposta o que tem e o que não tem, confiando no poder do sistema de Brown. É quando ele finalmente resolve contar a verdade…

E a verdade é simples. Khadisha acredita que pode ganhar com base nas previsões de Brown, e muitos espectadores concordam com ela, porque os espectadorea e ela estão enxergando o mundo com um ponto de vista restrito. É quando Derren mostra que, para conseguir a imagem da sequência de dez caras “tiradas” na moeda, passou nove horas tentando. Ele usou o segmento bem-sucedido que interessava no meio de um monte de fracassos.

E fez a mesma coisa no caso das previsões. O sistema conta com um grupo inicial de 7.776 participantes que é dividido aleatoriamente em seis grupos. Cada um desses grupos recebe uma dica. E, claro, em cada seis, um ganha. Forma-se um novo grupo que se divide em seis. Na quinta corrida, sobraram apenas seis pessoas. Khadisha estava no meio dessa multidão, venceu e virou a personagem principal do programa.

Nesse ponto, Brown constrói uma genial narrativa de como as pessoas querem acreditar naquilo que lhes interessa. E assim como o homem que deu descarga na hora em que a bomba de Hiroxima explodiu e achou que a culpa foi dele, o ponto de vista pode dar a um indivíduo uma noção completamente distorcida da realidade. Mesmo sabendo que é impossível prever o resultado das corridas de cavalos, Khadisha resolveu confiar nas palavras de Brown, que dizia ter um sistema infalível, e jogar todo seu dinheiro. No fim, naquele ponto, o palpite de Brown era tão bom quanto qualquer outro. E Khadisha assiste desesperada seu cavalo tirar o último lugar e perder a corrida.

Mas estamos vendo um programa de televisão e, afinal, Brown não é bobo. Depois da lição, ele pode se dar ao luxo de oferecer ao público um final feliz. Ele pede a Khadisha que abra o bilhete e mostra que, na última hora, mudou de idéia e em vez de apostar no cavalo combinado, resolveu escolher outro: o que acabou vencendo. E Khadisha recebe 13 mil libras de prêmio.

Veja bem. Tudo não passa de um sistema de pirâmide. O que há de genial na execução do programa é a construção, a escolha do ponto de vista para ilustrar o princípio de que é muito fácil sermos enganados pelos nossos instintos e anseios pessoais.

Os mágicos modernos estabeleceram como uma espécie de ponto de honra lutar contra o charlatanismo e o misticismo irracional. Poderíamos achar isso nobre, mas na verdade é uma estratégia defensiva de diferenciação. Sempre foi muito comum as pessoas confundirem mágicos com pessoas capazes de feitos realmente ligados à magia e convenhamos que isso deve lhes ter dado muitos problemas em suas andanças pelo mundo. Para se diferenciar de charlatães, os mágicos sérios estabeleceram pra si esse código de ética de jamais se autodeclarar portadores de poderes super-humanos ou extrassensoriais. O que o espectador vê é uma exibição de truques meticulosamente planejados e executados, associados uma enorme habilidade de se apresentar para uma audiência e manipular suas emoções. E, não vamos esquecer, se ainda conseguem criar ilusões, físicas ou mentais, capazes de iluminar o caminho e a platéia, tanto melhor.

Conte para os amigos!